10 de junho de 2026

Presidente Allende, Presente! Ahora y Siempre!, por Tomas Togni Tarquínio

Na manhã do 11 de setembro, Allende apresentaria proposta visando debelar a dramática crise institucional na qual o país estava mergulhado.

Presidente Allende, Presente! Ahora y Siempre!

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por Tomas Togni Tarquinio, brasileiro preso no Estádio Nacional

Salvador Allende Gossens morava em um bairro elegante de Santiago próximo a Cordilheira. Sua morada encerrava objetos de arte dignos de um mecenas avisado. Uma pequena e expressiva mostra da moderna pintura do século passado preenchia as paredes. Mestres latino-americanos, Matta, Siqueiros, Guayasamin, Portocarrero, além dos ibéricos Miró e Picasso que também faziam parte do acervo.

Afora os móveis refinados, a sala principal continha peças pré-colombianas combinadas a estátuas chinesas de marfim. Allende tinha especial afeição por esses objetos raros que enfeitavam sua morada amealhados ao longo de sua trajetória política.

Velho caminhante da esquerda chilena e latino-americana, era admirador de Mariategui, solidário de Arbentz, Bosch e Fidel, entre outros. Fotos de Ho-Chi-Minh e do Presidente Pedro Aguirre Cerda, protagonista da Frente Popular de 1938 e de quem fora Ministro da Saúde, davam um toque político às paredes. A biblioteca continha clássicos políticos e literários. Com um certo laivo de orgulho exibia o exemplar do “Guerra de Guerrilhas” que Ernesto Guevara, heroico guerrilheiro assassinado na Bolívia aos 40 anos, dedicou “para aquel que, por otros médios, trata de obtener el mismo, El Che”.

Salvador Allende Gossens nasceu em uma família de notáveis, em Valparaíso, mítica cidade portuária pendurada à beira do Pacífico. Viveu sessenta e cinco anos.

Seu avô, Ramon, alcunhado “el Rojo”, político, médico e sereníssimo Grande Mestre maçom ocupou uma cadeira de deputado no Congresso chileno. Militou infatigavelmente pela separação da Igreja do Estado, objetivo alcançado em 1925. Don Ramon fundou as primeiras escolas leigas do país. Trilhou caminho semelhante ao de Jules Ferri que, ao final do Século XIX, na França, instituiu a escola pública leiga, gratuita e obrigatória. Em retribuição ao seu anticlericalismo contumaz, foi agraciado pela Santa Madre Igreja com a Comenda da Excomunhão.

Filho de Salvador Allende Castro e de Laura Gossens Uribe, seu pai também fora contaminado pelo vírus político. Advogado e notário, foi membro do Partido Radical. Ao falecer ainda jovem, Allende estava preso e prestes a terminar o curso de medicina. A Corte Marcial o autorizou a assistir o funeral do progenitor. O futuro Presidente do Chile discursou jurando fidelidade à causa dos excluídos. E cumpriu a promessa.

Já formado, Allende dedicou pouco tempo à medicina. Especializou-se em medicina legal e, não raro, se vangloriava de ter feito um milhar de autópsias. Após tal façanha, nunca mais exerceu a profissão. Eleito deputado aos 29 anos, Ministro aos 30, postulou pela primeira vez a Presidência da República em 1952. Finalmente, elegeu-se em 1970, após três tentativas malogradas.

Às vésperas do golpe, Allende jantou com a família, ministros e assessores próximos. Com sua equipe, discutiu e retocou o discurso que seria o mais importante de sua carreira. A alocução estava prevista pela manhã do fatídico onze de setembro de triste memória. Apresentaria uma proposta visando debelar a dramática crise institucional na qual o país estava mergulhado. Chamaria o povo chileno a se manifestar se ele devia continuar ou deixar o cargo de Presidente, através de plesbicito. Allende compreendeu que, àquela altura, o impasse político estava próximo do vácuo, situação inaceitável para qualquer poder. Propunha uma saída institucional pela via eleitoral. De sorte que, após o escrutínio, ou sairia fortalecido, ou deixaria o cargo pela decisão do povo.

Mas, naquelas primeiras horas do dia 11 de setembro de 1973, Salvador Allende já não mais dispunha de tempo para apresentar a proposta. Na calada da noite, os militares iniciaram o golpe em Valparaiso. Horas depois, ele terminaria seus dias deixando uma mensagem de esperança.

Seu governo foi mais radical do que os de Lenin e Mao. Em ano e meio, estatizou o setor do cobre sem pagar um centavo às empresas americanas, juntamente com os setores bancário e do carvão. Interveio nas 80 maiores empresas industriais do país indicando dirigentes com apoio sindical. Também terminou a reforma agrária iniciada pelo Partido Democrata Cristão.

Nas últimas eleições democráticas, pouco antes do golpe, Allende aumentou sua base de apoio popular. Era inaceitável aos olhos de canalhas do calibre de Kissinger e de seus lacaios internos. Salvador Allende deixou a vida no Palácio La Moneda.

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