do Observatório de Geopolítica
Argentina, que te passou? (2)
por Angelita Matos Souza
Neste espaço, em texto anterior sobre a Argentina[1], defendi ser a força da ideologia liberal fator explicativo central do porquê de o país não ter se tornado uma grande economia industrial, uma vez que estava entre as maiores economias do mundo no início do século XX.
Comparado à Argentina, o Brasil era muito atrasado, no entanto, após 1930, as ideias desenvolvimentistas tiveram mais peso por aqui e orientaram políticas estatais no sentido industrializante, notadamente a partir da segunda metade dos anos 1950 por meio da associação com capitais estrangeiros.
Um amigo acusou-me de ter defendido o modelo dependente e associado de desenvolvimento e de incorrer em “idealismo”. Também indagou para onde, maiormente, o capital estrangeiro teria ido se as ideias industrializantes tivessem tido a mesma força nos dois países.
Em primeiro lugar, não defendi o desenvolvimento dependente-associado (não no texto em questão), apenas o tomei como um fato, o caminho trilhado pelo Brasil e Argentina. Em segundo, a articulação entre ideias dominantes e relações de classe não foi abordada por limite de espaço (também por preguiça para obviedades). Apenas pressupus, inspirada na obra de Perissinotto (ver texto anterior), que as ideias importam e muito.
Com respeito à pergunta sobre para onde o capital estrangeiro iria, só posso especular. E na minha opinião, caso as ideias industrializantes tivessem a mesma força na orientação das políticas estatais, a preferência pelo Brasil provavelmente prevaleceria, entre outros motivos, devido à capacidade de organização e pressão do movimento dos trabalhadores na Argentina.
Entretanto, a Argentina era rica, podia ter percorrido o caminho da industrialização de maneira mais autônoma, logo em resposta à crise de 1929, por isso considero que a ideologia liberal foi um obstáculo poderoso. Com Perón, o intervencionismo desenvolvimentista despontou, mas com o Brasil já em vantagem, e o peronismo voltado mais ao combate das desigualdades sociais, em vez de ao processo de industrialização (ver Perissinotto).
Quer dizer, perdeu-se a oportunidade, o momento. Como no Brasil nos anos 1990, o país latino-americano em melhores condições de resistir à “terapia de choque” e aproveitar as mudanças em curso na economia mundial. Não o fez por covardia e estupidez das lideranças políticas & econômicas, em um momento no qual a ideologia neoliberal já havia avançado muito.
Do ponto de vista social, o processo de modernização na Argentina resultou menos injusto, em um país de classes médias, com PIB per capita sempre superior ao do Brasil, mesmo em meio à crise atual. Ademais, no tocante à violência, é um país tranquilo.
Ultimamente, a direita faz muito barulho em torno do aumento da criminalidade, porém a taxa de homicídios é baixa, apesar de os roubos terem aumentado. Certamente, se seguir empobrecendo, a Argentina se aproximará cada vez mais do Brasil, com índices de pobreza e violência assombrosos.
Diante dos comentários acima, vale perguntar qual a vantagem de ter feito a maior revolução industrial da região?
Bom, o Brasil tem o maior PIB da América do Sul, aproximadamente 50% do PIB da região e está entre as 15 maiores economias do mundo. Segue um país do Sul global em boas condições para testar alternativas ao neoliberalismo e seus efeitos sociais nefastos.
Contudo, o atraso ideológico avançou muito. Mudar está difícil, mas não dever ser impossível. E ajudar a Argentina ajudaria a indústria brasileira.
[1] https://jornalggn.com.br/america-latina/argentina-que-te-passou-por-angelita-matos-souza/
Angelita Matos Souza. Cientista Social, Mestre em Ciência Política e Doutora em Economia pela Unicamp. Livre Docente em História Econômica do Brasil pelo IGCE-Unesp e docente no IGCE-unesp.
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Paulo Dantas
21 de agosto de 2023 7:43 pmE a tal da moeda única com a Argentina ?! Nasceu morta ?
Esquece Argentina nos BRICS (BARICS).
O “bom” da crise Argentina é que achamos que demos certo (piada).