Observatorio de Geopolitica
O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.
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As eleições primárias na Argentina e o avanço da extrema direita, por Andrés Tzeiman e Leonardo Granato

Quem está confortável frente à atual conjuntura é Milei, que aproveita-se do descontentamento para captar votos contra a "casta política”

Javier Milei, Sergio Massa e Patricia Bullrich foram os três candidatos mais votados no PASO 2023 – Montagem de Página 12, com fotos de Télam e NA

do Observatório de Geopolítica

As eleições primárias na Argentina e o avanço da extrema direita

por Andrés Tzeiman e Leonardo Granato

Os resultados das eleições legislativas de 2021 tiveram como destaque a coalizão de direita Juntos por el Cambio, que havia governado o país entre 2015 e 2019 sob a presidência do empresário Maurício Macri. Nos referidos comícios, Juntos por el Cambio obteve 42% dos votos, vencendo em 12 das 24 circunscrições eleitorais, incluindo à Província de Buenos Aires que concentra 37% dos eleitores do país.

Naquele momento, apenas dois anos atrás, os principais líderes da referida agrupação política assumiam seu provável triunfo nas eleições presidenciais de 2023. Inclusive, alguns deles chegaram a fazer menção de uma suposta saída antecipada do atual mandatário Alberto Fernández e de um chamamento à Assembleia Legislativa. Por sua vez, uma forte disputa interna se travava entre Horacio Rodríguez Larreta e Patrícia Bullrich em torno da definição de quem concorreria por Juntos por el Cambio à presidência do país.

Ainda em 2021, em meio a um contexto internacional marcado pelo surgimento de forças de extrema direita em Ocidente, o panorama eleitoral argentino também viu emergir tanto na Província de Buenos Aires quanto na Cidade Autônoma de Buenos Aires uma nova força de direita radical, chamada La Libertad Avanza, liderada pelo histriônico economista Javier Milei. Na Cidade de Buenos Aires, o admirador de Donald Trump e aliado dos ultradireitistas Jair Bolsonaro e José Kast, obteve nada menos que 17% dos votos no seu debut eleitoral.

Tal como retratado, o cenário prévio às passadas eleições primárias (PASO) de 13 de agosto de 2023 expressava uma situação complexa para a coalizão governista Frente de Todos, que teve que enfrentar, em meio à fragmentação interna, a frustração social decorrente de uma profunda crise econômica, com uma inflação de três dígitos e uma renegociação com o FMI em função da extrema escassez de divisas. E o caráter complexo do cenário seria reforçado com a formalização da candidatura do ministro da Economia Sergio Massa por parte da coalização peronista Unión por la Patria.

Em meio ao referido contexto, contrariando as pesquisas de intenção de voto que anunciavam a vitória de Juntos por el Cambio, o candidato da La Libertad Avanza Javier Milei ganhou destaque em 16 das 24 circunscrições eleitorais do país. Ainda que aproximadamente um tercio dos eleitores não tenham votado, o resultado inesperado que atribuiu 30% dos votos ao fundamentalista do mercado, ficando à frente de Juntos por el Cambio (28%) e de Unión por la Patria (27%), acendeu o alerta no país vizinho.

Ainda que os números face às eleições generais de 22 de outubro evidenciem um cenário em disputa, o líder da estrema direita ficou muito bem posicionado nas PASO. Agora será o turno de Patrícia Bullrich e Sergio Massa polarizarem com o disruptivo autoproclamado libertário Milei. De um lado, Bullrich tem como principal dificuldade a semelhança do seu programa com o de Milei, correndo o risco de, ao tentar se distanciar do seu rival, diluir seu programa e perder os votos da parte do eleitorado que exige propostas mais radicais. Do outro lado, Massa carrega o peso da insatisfatória gestão econômica do oficialismo, em meio a um contexto de forte instabilidade do país – de fato, o dia posterior à eleição, tentando conter preços, o ministro-candidato promoveu uma desvalorização de 22% do peso ante o dólar.

Uma coisa é certa. Quem mais confortável tem se mostrado frente à atual conjuntura tem sido o próprio Milei, aproveitando-se do descontentamento social para captar votos contra a, por ele denominada, “casta política”, representada pelos dirigentes políticos tradicionais. Contudo, é importante observar que esse voto “anti-establishment” (ou voto “bronca”) não significa que seus eleitores apoiem necessariamente, em todas suas dimensões, seu programa neoliberal ortodoxo e as radicais e regressivas medidas de política governamental, nos mais diversos temas, que o candidato defende. Inclusive, mesmo saindo-se vitorioso na contenda geral, devemos questionar as possibilidades reais que Milei terá de implementar as medidas por ele defendidas em uma sociedade como a argentina, com uma ampla frente de resistência popular. Ainda que o triunfo recente de Milei tenha aberto um novo cenário político em direção às eleições do mês de outubro, não está tudo dito.

Andrés Tzeiman e Leonardo Granato são docentes da Universidade de Buenos Aires e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, respectivamente, e integram a Rede de Pesquisas sobre o Estado na América Latina com sede na Universidade Nacional de Villa María (Argentina).

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