Fome e estagflação ameaçam a vida e a economia global, por Maria Luiza Falcão Silva

A fome não é por falta de produção. O Brasil tem condição de produzir grãos e proteínas animais para alimentar mais de 800 milhões de pessoas

Agência Brasil

Fome e estagflação ameaçam a vida e a economia global

por Maria Luiza Falcão Silva

No período recente, os preços globais dos alimentos aumentaram em torno de 61%, entre 2021 e 2022, o crescimento lento persiste e a situação dos mais pobres se agrava. Fome e estagflação ameaçam o direito à vida e a economia global.

Conforme dados reunidos no Relatório Global sobre Crises Alimentares, 2022 (GRFC, na sigla em inglês) e publicado sob a direção do Food Security Information Network (FSIN) – rede mundial criada pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e a União Europeia (UE), em abril de 2022, “globalmente, os níveis de fome permanecem assustadoramente altos. Em 2021, eles superaram todos os registros anteriores com quase 193 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar e precisando de assistência urgente em 53 países/territórios. Isso representa um aumento de quase 40 milhões de pessoas em comparação com o ano anterior, 2020 (relatado no GRFC 2021).”1 O relatório avalia a insegurança alimentar aguda, definida como a falta de alimentos que ameaça imediatamente a vida ou os meios de subsistência de uma pessoa. É diferente da fome crônica, que em 2020 afetou cerca de 811 milhões de pessoas,  e é medida por outro levantamento, O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (SOFI, na sigla em inglês),  que aponta para cerca de 2 bilhões de pessoas afetadas, de maneira moderada, pela fome  no mundo atual.2

Uma combinação de fatores contribuiu para essa realidade: (i) uma recuperação econômica global desigual e lenta, após o pânico que se instalou em decorrência da pandemia do Covid-19. Em muitos emergentes e de baixa renda, a falta de vacinas ameaça a retomada. Na China, a política de `Covid zero’, baseada em rigorosos lockdowns, provocou quedas fortes nos indicadores da atividade econômica. Nos Estados Unidos, a economia está aquecida, mas a inflação persiste; (ii) interrupções nas cadeias globais de suprimentos de produtos agropecuários e em muitas outras, quase de forma generalizada, desorganizaram a produção. Faltam matérias primas e muitas sementes; (iii) eventos climáticos extremos associados ao aquecimento do planeta. O impacto dos desastres relacionados ao clima, na insegurança alimentar aguda, se intensificou desde 2020, quando foi considerado o principal fator para 15,7 milhões de pessoas, em 15 países. Choques climáticos – na forma de prolongadas secas, déficits de chuva, inundações e ciclones – foram prejudiciais, de forma mais severa, na África Oriental, Central e Austral e na Eurásia e, por fim, (iv) conflitos diversos, dentre eles a guerra entre OTAN/UE/Ucrânia e a Rússia.  A guerra foi determinante para a disparada dos preços da energia, dos combustíveis, dos fertilizantes e de commodities como trigo, milho, cevada, óleo vegetal, sementes etc., e se propagou por diversos países do Mundo, dependentes das importações provenientes dos países em guerra e ameaça levar outras milhões de pessoas à fome. A Rússia e a Ucrânia fornecem 28% do trigo comercializado globalmente, 29% da cevada, 15% do milho e 75% do óleo de girassol. As sanções à Rússia e o bloqueio dos portos da Ucrânia comprometem o abastecimento mundial de alimentos.3

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Países em desenvolvimento com moedas fracas, alta dependência das importações de alimentos e aqueles em que o fechamento de fronteiras e conflitos interromperam os fluxos comerciais, sofreram um baque no poder de compra das famílias. Muitas delas ainda estão sofrendo perdas de emprego e renda devido às restrições relacionadas à pandemia e agora se vêm vitimadas em decorrência da alta dos preços dos alimentos. A situação é muito preocupante. Estima-se que o preço dos alimentos atingiu a maior alta, em 10 anos.

O diretor-executivo do PMA, David Beasley, alertou que “já  são milhões de pessoas à ‘beira do abismo’. São 49 milhões de pessoas em 43 países que estão batendo na porta da fome.” Há depoimentos de que a insegurança alimentar tem feito muitas pessoas comerem menos, pular completamente algumas refeições, ou optar por alimentar as crianças ao invés dos adultos. O PMA cita ainda casos extremos, onde as famílias acabam tendo que comer gafanhotos, folhas selvagens ou até cactos para sobreviver, como é o caso em Madagascar. Em outras áreas, há relatos de famílias que retiram as crianças da escola, vendem o pouco gado que têm ou se veem forçadas a casar as crianças para se livrarem da fome. O PMA, que ajuda a combater a insegurança alimentar no mundo, compra cerca de metade do seu trigo da Ucrânia, anualmente, e adverte sobre as consequências se os portos ucranianos não forem abertos.” Pode haver desestabilização e migrações em massa, advertiu o diretor do programa aos chefes de Estado reunidos em Davos, na Suíça, durante o Fórum Econômico Mundial, no mês passado. 4

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, explicou que o aumento da fome no mundo não é um problema isolado, e que os altos custos dos alimentos, associados a níveis persistentemente elevados de pobreza e desigualdade de renda, continuam a manter dietas saudáveis fora do alcance de cerca de três bilhões de pessoas, em todas as regiões do mundo. “Hoje, somos lembrados de que estamos tremendamente fora do caminho para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável até 2030. Dados novos e trágicos nos informam que entre 720 milhões e 811 milhões de pessoas, no mundo, passaram fome em 2020, 161 milhões a mais do que em 2019”, disse Guterres. O secretário-geral da ONU garantiu que acabar com a fome está ao nosso alcance, uma vez que existe “comida suficiente no mundo para todos, se houver ação em conjunto”. 

Os números, calculados por uma ou outra instituição, são todos alarmantes. A fome nos envergonha e não é por falta de produção. Somente o Brasil tem condição de produzir grãos e proteínas animais para alimentar mais de 800 milhões de pessoas, sugere estudo recente da Embrapa.6 Éclaro que se trata de uma figura de linguagem, porque colocar no mercado o equivalente a alimentação para 800 milhões de pessoas, não significa que  todos vão ter acesso a esses produtos. A distribuição e o consumo são extremamente desiguais.  No Brasil, enquanto o agronegócio avança, a fome aumenta.

O mundo deve agir agora ou vai assistir aos determinantes da fome e da má nutrição se manifestarem com intensidade crescente, nos próximos anos, muito depois de passado o choque da pandemia. O direito humano à alimentação adequada — também chamado pela sigla DHAA — está ameaçado. Dele depende o direito à vida.7

Parece que a recuperação da economia global será mais lenta do que era esperado. A guerra na Ucrânia deve desencadear uma desaceleração em 2022-2023. O FMI rebaixou sua previsão e estima uma alta mais modesta no PIB mundial de 2022 e 2023, algo em torno de 3,6%, o que é insuficiente para voltarmos aos níveis pré-crise sanitária. O Banco Mundial, também, diminuiu sua estimativa de crescimento para 2022, de 4,1% para 3,2%, antecipando uma significativa redução em relação ao crescimento estimado de 5,5% , em 2021.8

Economistas do mundo inteiro estão tentando realizar prognósticos em resposta à questão: qual será a dimensão da recessão da economia global?  Haverá uma estaglacão? De que proporção? Quando os duas maiores economias do mundo desaceleram, a  economia  global  perde folego. E a disposição de ação conjunta é cada vez menor, na medida em que os Estados Unidos encaram o crescimento e desenvolvimento da China como uma ameaça ao seu poder hegemônico.9

De forma resumida, ao menos sete problemas diferentes, mas muito interligados, afetam negativamente o desempenho da economia mundial: i) as perspectivas de crescimento da China prejudicadas pelos rígidos lockdowns ,  ii) o aumento e a persistência da inflação levando ao aperto da política monetária em diversos países, por meio de elevação de juros; iii) a guerra  interrompendo o comércio internacional, iv) a escassez de oferta de commodities e inúmeras matérias primas; v) crises alimentares e fome em muitos países emergentes e na Europa, vi) a degradação ambiental e os eventos climáticos extremos decorrentes do aquecimento do Planeta e seus impactos sobre a produção agropecuária ; vii) a competição dos Estados Unidos com a China pela hegemonia mundial, embora sejam fortemente interdependentes.

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A moral da história é que as projeções de inflação global estão sendo revistas para cima, enquanto as expectativas de crescimento estão sendo revistas para baixo. Vivemos em situação de estagflação. Isso significará uma corrosão nos lucros das empresas e do poder de compra das famílias, por mais tempo, com o aumento dos preços penalizando, principalmente, as famílias de baixa renda. A inflação alta e o baixo crescimento empurram as taxas de desemprego para níveis elevados em muitas economias em desenvolvimento. As economias avançadas agindo de forma contra-cíclica, desacelerando para conter a inflação com políticas ortodoxas de juros altos, quando a pressão está mais atrelada a custos do que à demanda, agravam a situação.

 Nada nos assegura que o Mundo não reviverá os anos 1970, associando à estagnação dessa segunda década do século XXI, novas crises  de dívidas, de combustíveis e de quedas significativas de emprego e renda.10 Sem deixar de mencionar o ressurgir de uma nova guerra fria por conta do conflito que se desenrola no Leste Europeu, separando a China e a Rússia dos Estados Unidos e dos países membros da OTAN e deixando um rastro de ódio e destruição, sem grandes perspectivas de paz no curto horizonte.

 Em momentos de múltiplas formas de desorganização do aparato politico, social e econômico, ao longo da história, costumam florescer  diferentes formas de  fascismo em resposta a essas crises, e com armas quase sempre semelhantes às já conhecidas pela humanidade: reflorescimento de um nacionalismo exacerbado, militarismo, desprezo pela democracia, ataque a direitos humanos, anticomunismo, negacionismo, conservadorismo nos costumes, busca de mitos salvadores da pátria,  comportamentos irracionais, etc.; oriundas do mesmo caldo cultural e político, constituindo o ambiente propício para ascensão  de certos grupos da sociedade, em geral conservadores e de extrema direita. Um mundo dominado pelo fascismo dificilmente seria um mundo de relações pacíficas entre os Estados Nacionais, haja vista o fascínio pela guerra e pelas `fardas’.

Haja folego para enfrentarmos tantas lutas: contra a fome, contra a concentração de renda e riqueza, contra a degradação ambiental, contra um mundo unipolar, contra a ganância das elites globais, contra ambições neofascistas, contra tentativas de sufocar democracias em favor de regimes autoritários.

Notas:

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

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