A guerra, o desmanche da Petrobras e o tiro no pé concretizado
por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva
A guerra em curso no Golfo Pérsico produziu um choque energético de grandes proporções. A redução do fluxo de petróleo e gás natural liquefeito no mercado internacional elevou os preços da energia e reacendeu uma questão estratégica que o Brasil parecia ter esquecido: a relação entre soberania energética e competitividade econômica.
Em particular, a agricultura mundial tende a ser uma das primeiras vítimas de um choque energético prolongado. Tratores, colheitadeiras, transporte rodoviário, fertilizantes nitrogenados e toda a cadeia logística dependem direta ou indiretamente do petróleo e do gás natural. Em países altamente mecanizados, o aumento do preço da energia se transmite rapidamente aos custos de produção agrícola.
O Brasil, entretanto, entra nesse cenário com uma característica singular. O calendário agrícola nacional cria uma defasagem importante na transmissão do choque energético. Tradicionalmente, os produtores travam seus contratos de insumos no primeiro trimestre do ano, frequentemente em março, utilizando instrumentos de mercado futuro tanto para câmbio quanto para fertilizantes e defensivos. Esses insumos permanecem estocados junto a tradings, fornecedores ou produtores até o momento de sua utilização, num sistema logístico próximo do “just in time”.
Isso significa que a safra brasileira 2026–2027 já possui grande parte de seus custos energéticos e químicos previamente contratados. A guerra, portanto, não se transmite imediatamente ao custo de produção agrícola nacional. Em outras palavras, a agricultura brasileira dispõe de um colchão temporal que protege o ciclo produtivo corrente.
Mas essa proteção parcial revela uma contradição muito mais profunda.
Até a metade da década passada, o Brasil possuía capacidade de refinar praticamente todo o petróleo necessário ao seu consumo interno e ainda planejava ampliar esse parque industrial. Refinarias como Paulínia, Duque de Caxias, Cubatão, Gabriel Passos e Landulpho Alves formavam um sistema integrado que garantia autonomia relativa na produção de derivados, especialmente diesel, o combustível vital da agricultura e da logística nacional.
Esse quadro começou a mudar a partir do golpe de 2016. O desmonte progressivo do sistema integrado da Petrobras levou à venda ou à paralisação de unidades de refino. A refinaria Landulpho Alves, na Bahia, foi vendida ao fundo Mubadala, ligado ao capital dos países produtores de petróleo do Golfo.
O resultado criou uma situação curiosa e extremamente reveladora.
Enquanto a Petrobras abandonou recentemente a política de paridade de preços de importação, substituindo-a por um sistema mais flexível de formação de preços internos, a refinaria privatizada continua praticando um modelo equivalente ao antigo PPI.
Isso produz um experimento econômico involuntário dentro do próprio território brasileiro.
De um lado, combustíveis formados segundo uma lógica estratégica nacional.
De outro, combustíveis precificados como se fossem integralmente importados.
A consequência aparece imediatamente nas bombas de combustível da Bahia. Os preços praticados pela refinaria privatizada frequentemente permanecem mais elevados e mais sensíveis às oscilações internacionais.
Esse fenômeno permite duas observações em tempo real.
Primeiro, torna-se possível comparar diretamente dois regimes de formação de preços de energia operando simultaneamente no mesmo país.
Segundo, e mais importante, revela-se o impacto econômico dessa política sobre a competitividade regional.
Em regiões agrícolas dependentes dessa oferta de combustíveis, o diesel mais caro se traduz imediatamente em fretes mais elevados, custos maiores de colheita e transporte e perda de competitividade das commodities exportadas.
Em outras palavras, a venda de refinarias não produziu apenas uma mudança patrimonial. Ela alterou o mecanismo de transmissão dos preços internacionais de energia para a economia real brasileira.
Num momento de relativa estabilidade internacional, essa diferença pode parecer apenas uma nuance técnica. Em contexto de guerra energética global, ela se transforma em fator de competitividade nacional.
A agricultura brasileira desenvolveu um sistema produtivo altamente sofisticado: plantio direto, rotação leguminosa-gramínea, integração lavoura-pecuária e forte base de pesquisa pública liderada pela Embrapa. Esse modelo tornou o país uma potência agrícola tropical capaz de produzir duas safras anuais e manter o solo produtivo praticamente o ano inteiro.
Entretanto, toda essa eficiência agronômica pode ser corroída se o principal combustível da produção e da logística agrícola estiver sujeito a uma formação de preços definida fora do país.
A guerra atual torna essa contradição visível.
O Brasil é simultaneamente grande produtor de petróleo, grande produtor de alimentos e líder mundial em biocombustíveis. Em tese, possuiria todos os elementos para amortecer choques energéticos internacionais.
Mas a fragmentação do sistema de refino reduziu essa capacidade de proteção.
Assim, aquilo que foi apresentado como modernização do setor energético acabou produzindo um paradoxo: uma economia altamente eficiente na produção de alimentos, porém parcialmente exposta à volatilidade externa do combustível que sustenta essa produção.
Em tempos de energia abundante e barata, essa fragilidade permanecia disfarçada. Com a guerra no Golfo Pérsico, ela se torna evidente.
E é nesse ponto que se revela o verdadeiro significado econômico das decisões tomadas na última década.
A tentativa de desmontar a Petrobras, apresentada à época como política de eficiência e abertura de mercado, começa agora a mostrar seu custo estratégico.
Num país cuja maior vantagem competitiva global é o agronegócio, fragilizar o sistema energético nacional talvez tenha sido exatamente aquilo que a linguagem popular descreve com precisão brutal: um tiro no pé.
Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.
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