10 de junho de 2026

Tipologia do Rentismo Brasileiro, por Fernando Nogueira da Costa

O mercado acionário brasileiro deixou de ser um espaço central de formação doméstica de riqueza financeira
William Gropper

O mercado acionário brasileiro em 2025 é dominado por capital externo, com agentes internos focados em renda fixa pública e bancária.
Identificam-se cinco tipos de rentistas no Brasil: externo oportunista, institucional doméstico, individual, bancário e estatal, com funções distintas.
A alta da bolsa em 2025 reflete um arranjo funcional integrado, sem fortalecimento do capitalismo nacional, com risco externalizado e liquidez estrangeira.

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Tipologia do Rentismo Brasileiro

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por Fernando Nogueira da Costa

A tipologia do rentismo periférico precisa partir de um dado estrutural. Os números da bolsa de valores, em 2025, tornaram-na explícita. O mercado acionário brasileiro deixou de ser um espaço central de formação doméstica de riqueza financeira e passou a operar como plataforma de valorização oportunista de capital externo, enquanto os agentes internos se rearranjam majoritariamente em torno da renda fixa pública e bancária.

A partir disso, é possível construir uma tipologia comportamental-sistêmica, não psicológica individual. Articula posição estrutural, horizonte temporal, relação com o Estado e forma de racionalidade econômica.

O rentista externo oportunista (foreign carry – equity hybrid), em uma posição estrutural, detém 58,3% da participação na B3 e responde por R$ 2,68 trilhões do volume negociado. Não depende do mercado brasileiro para reprodução patrimonial. Opera em portfólios globais, nos quais o Brasil é ativo satélite.

Seu comportamento típico é a entrada e a saída serem rápidas, orientadas por diferencial de juros, câmbio e ciclos globais de liquidez. Combina carry trade implícito (captar onde o dinheiro está barato e aplicar onde está caro) e valorização acionária concentrada (blue chips, commodities, bancos).

Possui a racionalidade de arbitragem, não de desenvolvimento nacional. Tem baixa aversão à volatilidade local, mas alta diante de mudança de regime macro. Trata a bolsa de valores brasileira como ativo financeiro, não como economia real.

Sua função sistêmica sustenta altas expressivas do índice Bovespa, como os +33,4% de 2025. Produz efeito riqueza puramente estatístico, sem socialização interna. Impõe disciplina indireta à política macroeconômica via “confiança”.

O rentista institucional doméstico defensivo, incluindo fundos de ações, seguradoras, previdência aberta e fechada, é um gestor regulado. Em 2025, alterou sua posição estrutural, porque sua participação caiu para 25,4%, segundo menor nível da série. Seu volume nominal (R$ 1,17 trilhão) foi o menor desde 2019.

Seu comportamento típico caracteriza-se por uma progressiva migração da renda variável para títulos públicos indexados e crédito privado de baixo risco. A atuação na Bolsa está cada vez mais residual e tática.

Possui uma racionalidade fiduciária defensiva para preservação de capital, aderência regulatória e leva em conta principalmente o benchmark Selic como custo de oportunidade. A Bolsa deixa de ser eixo de estratégia de longo prazo.

Sua função sistêmica reforça a dominância da dívida pública como ativo central. Ajuda a legitimar juros altos como “prudência”. Abandona o papel histórico de investidor em infraestrutura para o desenvolvimento nacional.

O rentista doméstico individual encontra-se retraído, apesar de ser um poupador disciplinado. A posição estrutural das pessoas físicas na bolsa de valores brasileiroa está com apenas 12,4% de participação no total e R$ 571,6 bilhões de volume — o mínimo histórico. Houve seu deslocamento quase total para renda fixa bancária (CDB) e Tesouro Direto.

O comportamento típico foi a saída da bolsa após suas experiências de perda e volatilidade. Possui forte ancoragem mental ou comportamental em previsibilidade, liquidez imediata e rendimento nominal

Trata-se de um racionalidade de sobrevivência financeira com aversão extrema a drawdowns. Este é um indicador financeiro capaz de medir a maior perda percentual de um investimento ou estratégia, desde seu pico de valor (topo) até o ponto mais baixo (vale) subsequente, antes de uma possível recuperação, revelando o risco e a volatilidade de um ativo.

Mostra o quanto um investimento “afundou”, sendo crucial para avaliar a estabilidade e o esforço necessário para retornar ao ponto máximo anterior. Ajuda os investidores a gerenciar riscos e evitar decisões impulsivas.

Daí a preferência generalizada das Pessoas Físicas no Brasil por juros compostos previsíveis… e disparatados! Têm um horizonte temporal curto, condicionado por endividamento e renda instável.

Sua função sistêmica legitima socialmente o rentismo público. Internaliza a ideia de os “juros altos protegerem o patrimônio financeiro”. Converte a educação financeira em uma disciplina passiva.

O rentista bancário implícito, como intermediador financeiro dominante, tem sua posição estrutural diluída nos 3,9% restantes, mas com poder desproporcional. Controla canais de poupança, crédito e acesso à renda fixa.

O comportamento típico da administração de recursos de terceiros pelos bancos, porque os recursos próprios dos clientes são aplicados predominantemente em títulos de dívida pública, incentiva a saída da Bolsa e a migração para produtos indexados (pós-fixados), estruturados e/ou com spread elevado em carteiras de fundos com risco privado. Captura renda via intermediação, não via risco patrimonial.

Tem a racionalidade de margem, não de valorização. Prefere juros altos e volatilidade controlada. Opera como mediador entre Estado e poupadores.

Sua função sistêmica traduz a política monetária do Banco Central do Brasil em rentabilidade privada. Consolida o regime de endividamento bancário. Reduz o mercado de capitais a função acessória.

O rentismo estatal, internalizado pelo fato de o Estado ser emissor do principal ativo, tem uma posição estrutural peculiar. Afinal, os títulos de dívida pública do Estado são a forma de manutenção de riqueza financeira central em todo o sistema. Sua dívida organiza expectativas, portfólios e discursos.

O comportamento típico é de market-maker estatal, porque a política econômica está orientada à manutenção da atratividade financeira. Prioriza a credibilidade diante bancos e investidores institucionais brasileiros, correspondentes a cerca de ¾ dos detentores de títulos de dívida pública, e cerca de 10% para não residentes, para a rolagem confortável da dívida. Tolera desindustrialização e financeirização.

Adota a racionalidade de governança financeira. O crescimento macroeconômico da renda está subordinado à estabilidade rentista de juros.

Sua função sistêmica unifica os demais tipos de rentismo. Garante lastro simbólico e institucional ao sistema financeiro nacional.

Síntese Tipológica

TipoBaseHorizonteRacionalidadeFunção
Rentista externoEquity + carryCurtoArbitragemValoriza índice
Rentista institucionalDívida públicaMédioFiduciáriaEstabiliza regime
Rentista individualRenda fixaCurtoSobrevivênciaLegitima socialmente
Rentista bancárioIntermediaçãoContínuoMargemExtrai renda
Rentismo estatalDívida soberanaEstruturalGovernançaReproduz sistema

Essa tipologia revela o rentismo periférico não ser homogêneo, mas funcionalmente integrado. A alta histórica da bolsa de valores no Brasil, em 2025, não sinaliza fortalecimento do capitalismo nacional, mas sim a consolidação de um arranjo no qual o risco é externalizado, a liquidez (via Investimento Direto no País para contrabalançar o déficit no balanço de transações correntes) é estrangeira, a poupança doméstica é disciplinada e o Estado opera como eixo de rentabilidade financeira.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. alfredo machado

    12 de janeiro de 2026 5:28 pm

    A sociedade brasileira sempre foi avessa ao risco, “assiste a banda passar” preferindo permanecer em um dos mil fundos de renda fixa. Este comportamento é consequência direta do desconhecimento da maioria sobre o assunto matemática financeira, cujo conhecimento é indispensável num mercado como brasileiro, no qual a história mostra que pode ocorrer de tudo.

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