Análise publicada nos EUA reacende debate sobre autoritarismo, uso da força e erosão democrática
Um artigo publicado pela revista norte-americana The Atlantic – “Sim, é fascismo!” reacendeu o debate sobre a natureza do poder exercido por Donald Trump em seu segundo mandato. O autor, o jornalista e pesquisador Jonathan Rauch, sustenta que o conjunto de ações do presidente dos Estados Unidos ultrapassa o autoritarismo tradicional e se aproxima do que a literatura histórica descreve como fascismo — não como rótulo retórico, mas como diagnóstico político .
Rauch afirma que, durante anos, evitou usar o termo por considerá-lo impreciso e excessivamente explorado no debate público. Essa cautela, segundo ele, deixou de fazer sentido diante da acumulação de fatos. “O fascismo não se define por um único ato, mas por uma constelação de características”, escreve. Para o autor, quando essas características passam a operar em conjunto, o fenômeno se torna identificável.
Da personalização do poder ao projeto ideológico
No primeiro mandato, Trump era frequentemente descrito como um governante patrimonialista — alguém que trata o Estado como extensão de seus interesses pessoais e familiares. No segundo, segundo Rauch, o padrão mudou: o governo passou a atuar de forma mais sistemática, ideológica e agressiva, buscando reconfigurar instituições, normas e relações de poder.
Entre os elementos apontados estão a destruição deliberada de padrões de civilidade política, a normalização da violência como linguagem de governo e o uso seletivo da lei para punir adversários e proteger aliados. O autor destaca que Trump nunca escondeu desprezo pelo devido processo legal, pela separação de Poderes e pela própria Constituição.
Polícia, intimidação e espetáculo da força
Um dos pontos centrais do artigo é a expansão do aparato policial federal, especialmente do ICE, transformado em uma força de caráter paramilitar. Segundo Rauch, a agência passou a atuar com grande autonomia, pouca supervisão e uso ostensivo da força — frequentemente documentado e divulgado pelo próprio governo.
A exibição dessas operações teria função política clara: intimidar comunidades, provocar reações e justificar novas repressões. Para o autor, trata-se de uma tática clássica de regimes fascistas, que utilizam o conflito como instrumento de consolidação do poder.
Eleições sob suspeita permanente
Rauch também chama atenção para os ataques sistemáticos ao sistema eleitoral. Trump e o movimento MAGA seguem negando derrotas, questionando a legitimidade do voto e flertando com a ideia de cancelar ou deslegitimar futuras eleições. A tentativa de reverter o resultado de 2020 e o perdão concedido aos envolvidos na invasão do Capitólio são apresentados como marcos desse processo .
Para o autor, a recusa em aceitar a alternância de poder é um divisor de águas entre democracias liberais e regimes fascistas.
Imprensa, universidades e setor privado na mira
O artigo destaca ainda os ataques diretos à imprensa, com ameaças regulatórias, processos judiciais, perseguição a jornalistas e tentativas de controlar o acesso à informação. Rauch observa que, embora Trump não tenha conseguido dominar totalmente a mídia americana, segue um roteiro semelhante ao de líderes autoritários da Europa Oriental.
Universidades, escritórios de advocacia e grandes empresas também teriam sido pressionados a se alinhar politicamente ao governo, corroendo a separação entre esfera pública e privada — princípio central do liberalismo democrático.
Nacionalismo identitário e política externa agressiva
No plano ideológico, Rauch aponta a retomada de um nacionalismo baseado em identidade, com discursos que privilegiam uma América branca e cristã, questionam a cidadania por nascimento e redefinem quem pertence ou não à nação. No exterior, Trump teria abandonado alianças tradicionais, desprezado o direito internacional e se aproximado de líderes autoritários, adotando uma política externa descrita como predatória.
Um país ainda democrático, mas sob risco
Apesar da gravidade da análise, o autor ressalta que os Estados Unidos ainda não são um Estado fascista. Tribunais, imprensa, governos estaduais e parte do Congresso seguem funcionando como freios institucionais. O país viveria, segundo ele, uma situação híbrida: um líder com práticas fascistas operando dentro de uma estrutura constitucional que ainda resiste.
A conclusão é direta: evitar o termo “fascismo” por medo de polarização deixou de ser uma estratégia responsável. Para Rauch, reconhecer o fenômeno é condição necessária para enfrentá-lo. “Nomear o que vemos é o primeiro passo para reagir”, afirma .
Em tempos de erosão democrática global, o artigo funciona como alerta — não apenas para os Estados Unidos, mas para qualquer sociedade tentada a tratar o autoritarismo como folclore passageiro. A história costuma cobrar juros altos de quem ignora os sinais.
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