5 de junho de 2026

O Sonho Americano (II), por Izaías Almada

A Comissão da Verdade indica mais de 400 mortes, muitas na tortura e os corpos enterrados em lugares que até hoje não se sabe a localização.

O Sonho Americano (II)

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por Izaías Almada

        Beatriz recebe uma carta confirmando que foi aprovada para fazer sua pós-graduação na Universidade de HarvardemMassachusetts. Eufórica, Bia abraça a mãe e o primo Bento, que se ajoelha diante dela depois dos abraços e brincadeiras entre os três personagens. Feliz, Bia deixa-se cair na poltrona da sala enquanto relê a carta.

        O fato, auspicioso é verdade, transforma-se, entretanto, no gatilho de uma nova realidade, realidade essa que põe a nu um dos pilares da ilusão e submissão cultural de grande parte da sociedade brasileira ao sonhar e acreditar no “paraíso” criado e divulgado pela indústria cinematográfica hollywoodiana há mais de 100 anos: a maravilha que são os Estados Unidos da América.

        Após a natural comemoração familiar pela carta recebida, Antonia vai preparar um cafezinho e Bento informa que tem que sair por uns minutinhos, mas que volta em seguida. De repente o silêncio toma conta da cena…

        E se o governo da ditadura e seus policiais descobrirem que Bia tem um primo “terrorista”? Um primo que participa da luta armada contra o governo? Após a saída de Bento e do cafezinho, mãe e filha conversam e avaliam as possíveis consequências do momento em que vivem com a presença de Bento. Assim que a mãe volta para o interior da casa, Beatriz toma uma decisão e sai de cena.

        Ouve-se tocar a campainha da casa. Dois senhores entram com calma pela porta da sala, bem vestidos com terno e gravata e examinam o ambiente, acompanhados e observados por Antonia e Beatriz. Com um papo de “cerca Lourenço”, vão jogando conversa fora até se identificarem como os policiais Tobias e Neto.

        Tobias, o mais velho, vai aos poucos devorando os biscoitos que encontra dentro de um vidro sobre a mesa e Neto procura com calma e linguagem mais comedida ganhar a confiança e quem sabe a simpatia das duas mulheres.

        Depois dos diálogos iniciais e já conscientes e convictos de que o alvo de sua visita ali não estava presente, decidem por colocar as cartas na mesa e interrogar as duas “suspeitas” separadamente.

        Aqui a peça se defronta com uma das maiores dificuldades no fazer teatral: o uso da violência, da tortura física e psicológica, contra pessoas que supostamente inocentes têm que reconhecer de alguma maneira a culpa para fugir da dor física e moral.

        Tobias leva Antonia para um quarto no interior da casa e Neto senta-se ao lado de Bia no sofá da sala. O que esperar de uma situação destas quando se sabe que durante a ditadura civil/militar, que durou 21 anos no Brasil (1964 a 1985), morreram mais de 400 militantes?

        Oficialmente a Comissão da Verdade indica mais de 400 mortes, muitas delas na tortura e os corpos enterrados em lugares que até hoje não se sabe a localização.

        Uma dessas pessoas é Heleny Guariba (morta na tortura e desaparecida política) que dá nome ao teatro na Praça Roosevelt em São Paulo, onde o leitor poderá saber o significado de “O Sonho Americano”.

Elenco

Camila Costa Melo- Bia
Cris Bordin- Antonia
Flávio Passos – Neto
Gabriel Santana- Bento
Ruben Pignatari- Tobias
Texto e direção:  Luiz Carlos Checchia
Produção: Camila Costa Melo, Luiz Carlos Checchia, Lavínia Fernandes
Assistente de Produção: André Pignatari
Luz e som: Iohann Iori Thiago.

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

Izaias Almada

Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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