A arquitetura do racismo, por Beatrice Papillon

A trágica morte do menino Miguel, no Recife, de muitas maneiras, começa já na construção, autorizada pelo STJ após ação em contrário do MPF, das "torres gêmeas" do cais Santa Rita.

A arquitetura do racismo

por Beatrice Papillon

A construção de um opulento arranha-céu requer obra de engenharia bastante complexa. Para vermos pronto um edifício como os da foto, de indestrutível solidez, o mais importante entretanto está invísivel: sua fundação. Um imenso trabalho para garantir uma estrutura capaz de sustentá-lo. Está debaixo da terra, cavada a muitos metros abaixo do chão, afixada em rocha firme. Ali se constrói as chamadas “sapatas”, imensos blocos de concreto que ficam sob os alicerces do prédio. Sem uma base sólida, nenhum projeto sai do papel.

É assim com o racismo brasileiro.

A trágica morte do menino Miguel, no Recife, de muitas maneiras, começa já na construção, autorizada pelo Superior Tribunal de Justiça após ação em contrário do Ministério Público Federal, das “torres gêmeas” do cais Santa Rita. Uma rápida olhada na foto e já se percebe a violência iminente. Os edifícios em si são simbolicamente violentos. Sua opulência brutal, fruto de disputas em que o capital, como de trágico costume, saiu vencedor, ‘autoriza’ Sari Gaspar Costa Real e tantas como ela, proprietárias ou inquilinas de apartamentos ali, a desprezarem a vida de um menino negro e pobre, “filho de empregada”.

Há uma arquitetura complexa no processo que culmina com a queda de Miguel no vão do ar condicionado. Um sistema de apartheid social e, por histórica e óbvia extensão, racial que se manifesta dos maiores aos menores detalhes, da arquitetura ao esmalte de unhas.

Por que a mãe do menino estava trabalhando durante a pandemia? Por que ela teve que levar o filho consigo ao trabalho? Por que a patroa não cuidou da criança? Por que levar o cachorro para cagar era mais importante? E, por fim, que desprezo move um ser humano a deixar uma criança de cinco anos procurar sozinha por sua mãe num edifício de 41 andares? As respostas para essas perguntas, cada uma, é um tijolo na torre do ódio racial brasileiro. É disso que nos falam as lideranças do movimento negro quando apontam o racismo estrutural brasileiro, algo um tanto difuso à percepção da maioria das pessoas não negras no Brasil, seja por ignorância ou mesmo má fé. Enxergam o edifício (quando enxergam), mas não percebem a fundação.

Hoje, em vídeo nas redes sociais, a atriz Taís Araújo chama a atenção de quem está se dizendo anti racista, levado talvez por uma comoção inevitável de um momento mundial, que não se trata somente de uma afirmação vazia, embora louvável, mas de um conjunto de posturas e ações efetivas no combate à essa estrutura, por vezes evidente e gritante como as torres da foto, noutras sutil como ocultar-se na imprensa o nome de Sari Gaspar.

O problema de puxar o fio de responsabilidades coletivas sobre a morte de Miguel é justamente que a estruturação que antecede a morte, passando pela patroa, o marido da patroa, a empreiteira, o STJ, os políticos que precarizaram as relações trabalhistas para empregados domésticos, o presidente, podemos chegar enfim em outras responsabilidades: a minha e a sua. Estamos todos no projeto desde a planta baixa. Para fazer ruir essa construção é preciso perceber que cada um de nós pode ser potencialmente uma viga de sustentação.

Mas não basta não ser um dos pilares, é preciso destruir o edifício.

É disso que trata o anti racismo.

Beatrice Papillon é drag queen

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora