A figura do líder e o tiro que saiu pela culatra na política brasileira, por Adriana Macedo

O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si

Parte 4 – A figura do líder e o tiro que saiu pela culatra na política brasileira

por Adriana Macedo

Nos textos anteriores sustentamos, a partir de Kilomba1, que os sistemas de dominação funcionam projetando seu lado perverso sobre um inimigo forjado a ser atacado, operando na premissa de que esse combate resultará no fim de problemas sociais inerentes ao sistema. Nesse processo é fundamental silenciar o outro, evitando que os segredos, as entranhas do sistema, sejam revelados. Assim, a dinâmica social e suas formas de dominação permitem que parcelas específicas da população possam ser violentadas e assassinadas sem que isso gere qualquer constrangimento ético2.

Adicionalmente, partimos do conceito de psicopolítica3 e de controle das bocas1, para compreender que o sujeito neoliberal se autodestrói. Alimentando obsessivamente a ideia do inimigo, esse sujeito usa sua voz para defender políticas contrárias a seus interesses de classe, raça, gênero, etc. e pensa estar resolvendo os males sociais ao defender a redução do Estado e dos direitos sociais. Dessa forma, o sujeito neoliberal defende agendas que o colocam em situação de vulnerabilidade e que contribuem para seu adoecimento, enquanto o sistema capitalista não é posto em questão. Sensações de fracasso e exaustão e quadros de ansiedade e depressão são sintomas de um sofrimento que pode, inclusive, estar contribuindo para o aumento dos casos de suicídio na contemporaneidade.

Neste quarto artigo da série, discutiremos como a psicopolítica contribuiu para a eleição de Bolsonaro, gerando a aversão à política e a instituições do sistema capitalista em meio a uma atmosfera de ameaça artificialmente criada. O texto aborda também a construção da massa bolsonarista a partir da mobilização do medo, no sentido de um movimento de ação de combate ao inimigo construído.

Na democracia liberal, as instituições representativas são o campo próprio para as negociações entre os atores sociais e seus diferentes interesses. Os representantes, apesar de majoritariamente alinhados com a pauta dominante de intensificação da expropriação da classe trabalhadora e a manutenção das violências de diversas ordens inerentes ao sistema, encontram-se, em certa medida, submetidos à aprovação popular, devendo ceder num ponto ou outro para manter as tensões populares sob controle. Movimentos feministas, antirracistas, LGBTs, classistas, sindicatos e auto-organização dentro das instituições do Estado, embora em condições de desigualdade, geram feixes de forças que disputam e tensionam políticas públicas. Assim, no Brasil, as pautas sociais têm avançado dentro dos limites do sistema, desde a redemocratização.

Preferencialmente, os representantes políticos das classes dominantes são “civilizados”. Explicamos: a persona do líder é a imagem positiva que o dominador aceita de si mesmo. Esses enunciam a existência do outro – aquele em quem projetam seu lado ruim – a ser eliminado ou expropriado, mas com uma fala mansa, de uma “pessoa de bem”, educada, e que combate o outro para o bem de todos. O liberalismo clássico funciona nessa dinâmica “sádica”, para usar o termo de Kilomba, perversa e violenta, pois defende os interesses dominantes, agindo contra o povo, mas em seu nome; violenta os cidadãos enquanto diz que quer o seu bem e que os está ajudando.

As últimas décadas trouxeram avanços significativos para a classe trabalhadora e para populações negras e LGBT, sem que a classe dominante, todavia, deixasse de ganhar. A corrupção, inerente à relação entre a classe dominante e a classe política, é, contudo, uma das formas de controle e derrubada de políticos indesejados pelo sistema, como relatado por Jessé Souza4. Desde o segundo mandato do presidente Lula, esse movimento de derrubada se iniciou e não mais parou. Entretanto, apesar de todo o esforço da mídia hegemônica, o partido dos trabalhadores conseguiu ainda vencer as duas eleições seguintes, até que, finalmente, foi derrubado num acordo por cima, como enunciou Romero Jucá5, após o governo Dilma se recusar a ir além com as pautas neoliberais de interesse da classe dominante, expressas no Projeto Uma Ponte para o Futuro, da lavra seu vice e sucessor beneficiário do golpe, Michel Temer6.

Embora o sistema quisesse retomar os rumos da implementação de suas agendas com seus representantes “civilizados”, uma grande parcela da população, frustrada ou desiludida em decorrência do processo de desqualificação moral dos representantes políticos e da política, optou por um discurso de “acabar com isso tudo que está aí”. A partir da produção do ódio e da rejeição, houve identificação com as palavras enunciadas por alguém que se apresentava como de fora do sistema, embora tivesse trabalhado a maior parte do tempo dentro dele. A mesma estratégia psicopolítica usada para evitar o retorno do PT ao Governo Federal, gestando, além da aversão aos grupos e a muitas pautas progressistas, um sentimento antipetista via discurso anticorrupção, atingiu também alvos indesejados, como o PSDB, o que resultou na eleição de Bolsonaro. O enorme descrédito em relação às instituições políticas se estendeu ao Estado capitalista, mas não ao sistema capitalista.

A tentativa massiva de construir um inimigo para garantir apoio popular ao impeachment da Presidenta Dilma e para evitar uma nova vitória do Partido dos Trabalhadores levou ao descrédito das instituições e produziu o medo no interior da sociedade. A partir da realização da sensação de ameaça e da emergência de afetos como o medo, formou-se uma massa reacionária, ao redor da figura do Líder, disseminadora de informações fraudulentas produzidas com apoio empresarial. A expressão máxima desse fenômeno foi a corrente “eu sou o robô do Bolsonaro”7.

Em A Psicologia das Massas e análise do Eu, Freud8 contrapõe dois tipos de “massa”: há a massa criada pela própria ordem e aquela temida pela ordem, a revolucionária (construída por Le Bon9 como composta por indivíduos que, em situação de massa, agem irracional e instintivamente, com máxima violência e movidos por um instinto de destruição). Para Safatle10, é aqui que Freud inverte o ponto de Le Bon, ao apontar que há uma massa artificial criada pelas próprias instituições da ordem, também capazes de agir dessa forma irracional e violenta. Tais instituições – igreja e exército, no exemplo de Freud – e acrescentaríamos a polícia militar – compõem a base de sustentação do governo Bolsonaro. Para Freud, pelo fato de serem artificiais, tais massas são submetidas à coação no sentido de evitar a sua dissolução. Assim, ou a pessoa está dentro e aceita suas regras, ou está fora, é expulsa, difamada, o que impede que o contraditório entre no grupo8. Tal prática está presente nas dinâmicas dos grupos bolsonaristas11,12. A massa, incontrolável, guiada por seu líder, não só afronta as instituições do Estado burguês, como cegamente se lança à autodestruição sob seu comando.

O líder, agora, ao invés de ser um modelo ideal a ser seguido – o violento “civilizado”-, tornou-se o próprio “eu” em processo de autodefesa, através do sentimento de ameaça forjado. Entre líder e liderados, não há representação, mas identificação e idealização. Quanto mais o dominador é acusado, mais violenta é sua reação. Essa resposta se caracteriza pela potencialização e explicitação das práticas da violência, e pelo desespero em silenciar o outro. Afastou-se a persona do líder civilizado, substituída pela persona do líder que expõe o que há de pior no eu, poupando-se ao localizar esse pior no outro e combatê-lo. Dessa maneira, produz-se a identificação com a figura do sádico, do perverso, que abertamente defende a tortura e exalta torturadores, sem que, no entanto, essa figura seja tida como perversa pelos que a defendem. Ao contrário, ela aparece como a vítima, ela é o eu. O líder insufla a massa contra o outro, num movimento de autopreservação e autoproteção e a massa ataca os outros concretos com base na imagem fantasmagórica desses como inimigos.

Outro grupo de eleitores de Bolsonaro, desiludido, afirma que votaria nele novamente, por falta de opção13. Tais eleitores continuam operando na chave de leitura do perigo do inimigo forjado, agindo também na direção de sua vulnerabilização e auto-destruição14.

O próximo artigo avançará nesse debate da relação entre fakenews, produção de medo e interrupção da troca entre vozes dissonantes. Perpassará o debate sobre os algoritmos na produção e direcionamento de mensagens capazes de manipular as emoções, controlando ações e reações, ou seja, agindo sobre a mente humana. A confusão gerada pelas mensagens fraudulentas leva ao descrédito das vozes dissonantes e ao fortalecimento do discurso interno produzido nos grupos. O silenciamento das vozes incômodas se dá mais pelo fechamento da escuta que pela eliminação da fala, embora essa estratégia também se faça presente nos ataques à ciência e à educação.

1KILOMBA, Grada. A máscara. In: Memórias da plantação: episódios do racismo cotidiano. Rio de janeiro: Copogó, 1.ed, p. 22-46, 2019.

2ZIZEK, Slavoj. Violência. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.

3HAN, Byung-Chul. Psicopolítica – o neoliberalismo e as novas técnicas de poder Belo Horizonte: Editora ÂYINÉ. 2018. Tradução de Maurício Liesen.

4SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. 1.ed. Rio de janeiro: Leya. 2017.

5EL PAÍS. A solução mais fácil era botar o Michel”: os principais trechos do áudio de Romero Jucá. 2016. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/24/politica/1464058275_603687.html>.

6CARTA CAPITAL.  Temer: impeachment ocorreu porque Dilma recusou “Ponte para o Futuro”. 2016. Disponível em:< https://www.cartacapital.com.br/politica/temer-impeachment-ocorreu-porque-dilma-recusou-ponte-para-o-futuro/>.

7CIPRIANI, Juliana. Exército de ‘robôs’ de Bolsonaro viraliza nas redes sociais. Estado de Minas. 2018. Disponível em: < https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2018/04/26/interna_politica,954472/exercito-de-robos-de-bolsonaro-viraliza-nas-redes-sociais.shtml>.

8FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu e outros textos (1920-1923). São Paulo: Companhia das letras. 2011.

9LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões. São Paulo: Martins Fontes. 2016.

10SAFATLE, Vladimir. Psicologias do fascismo: curso completo. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo. 2019.

11SIMÕES, Mariana. Grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp orquestram notícias falsas e ataques pessoais na internet, diz pesquisa. El País. 2018. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/23/politica/1540304695_112075.html>.

12MENDES, Guilherme. A anatomia do vídeo de bolsonaristas que defendem tratamento precoce. Congresso em foco. 2021. Disponível em: < https://congressoemfoco.uol.com.br/saude/video-tratamento-precoce-bolsonaristas/>.

13ESTÚDIO FLUXO. O Bolsonarismo conformado: entrevista com Esther Solano. Estúdio Fluxo, 2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uFtF9owt70s>.

14CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS DE DIREITO SANITÁRIO – CEPEDISA. Disponível em: < https://cepedisa.org.br/publicacoes/?fbclid=IwAR3P1qogaIqc9ukWdQB6MThcwtqosBDgLNh5m1oNv70KpnMJmUQLLT142ac>.

Adriana Macedo é Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro, Pesquisadora do Laboratório Interdisciplinar de Extensão e Pesquisa Social (LIEPS/IFRJ) e do Núcleo de Estudos do Movimento Humano (NEMOH/UFRJ). É especialista em Biomecânica, Mestre e Doutora em Engenharia Biomédica (COPPE/UFRJ) e graduanda em Ciências Sociais na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

Os três primeiros foram publicados no GGN nos seguintes links:
Parte 1 – O movimento bolsonarista: o neoliberalismo e a defesa do autoritarismo, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 2 – O movimento bolsonarista: o processo de destruição do outro e de si II, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)
Parte 3 – O sujeito neoliberal, a vulnerabilização de si e o autoritarismo, por Adriana Macedo | GGN (jornalggn.com.br)

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