1 de setembro de 2026

A Indústria dos Golpes e a Projeção do Poder, por Luiz Alberto Melchert

O que define um golpe é vontade de romper a ordem constitucional e articular forças militares, políticas, financeiras e midiáticas.
Hieronymus Bosch - fragmento

Bolsonaro fugiu para a Flórida em 30/12/2022, usando aviões da FAB, custeados pelo erário público, para acompanhar evento político.
Golpes podem ser articulados remotamente; exemplos históricos mostram líderes comandando ações políticas sem estar no país-alvo.
Eduardo Bolsonaro atuou dos EUA para influenciar política brasileira, provando que presença física não é necessária para golpe.

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A Indústria dos Golpes e a Projeção do Poder

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por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

No dia 30 de dezembro de 2022, usando um Airbus A319, precedido por um ERJ 190, ambos da FAB, fugiu para a Flórida, cercado de sua escolta oficial, tudo às custas do erário público. A 2.374 kg/h para o A319 e 1.970 kg/h para o ERJ 190, considerando conservadoramente que ambas as aeronaves tenham voado por vinte horas, ida e volta, sem considerar pousos e decolagens nas escalas, foram oitenta e cinco toneladas somente de combustível, que costuma representar um terço do custo do voo. A US$ 2,00/kg, somente de combustível foram US$ 170 mil. A dita viagem para “cumprimento de agenda particular e descanso” não deve ter custado menos de US$ 500 mil, já incluindo as 720 diárias de US$ 200,00 dos oito assessores. A volta se deu porque o passaporte diplomático com que ele entrou nos Estados Unidos já não era válido e ele teria de voltar por ter-se tornado cidadão comum. Se não houve vácuo no comando das Forças Armadas, deveu-se a Mourão que, por preceito constitucional, ultrapassando o rito de transmissão, tomou posse do governo. Tudo indica que ele se homiziou na Flórida para assistir ao 8 de janeiro de camarote que, se bem-sucedido, traria o candidato derrotado e recalcitrante de volta ao poder nos ombros do povo. Teria sido ele o primeiro a usar esse expediente?

Recentemente, Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, em uma entrevista, disse que Jair Bolsonaro não poderia ser culpado por tentativa de golpe porque não se encontrava no país. O argumento acerca da necessidade de o golpista estar fisicamente presente no país-alvo para promover um golpe de Estado encontra uma resposta clara e definitiva na história e na ciência política: não, não é necessário. O golpe de Estado, em sua essência, é um ato de força ou de subversão da ordem constitucional que pode ser planejado, articulado, financiado e comandado de qualquer lugar do mundo, desde que o golpista tenha acesso a meios de comunicação, recursos financeiros, alianças políticas e capacidade de influenciar os atores que executarão operações no terreno. A geografia, para o golpista, é irrelevante diante da realpolitik, que se exerce por meio de ordens, alianças, financiamento e articulação, tudo por controle remoto, sobretudo na era das comunicações instantâneas e das redes globais de inteligência e de apoio militar, a que se deu o nome de “guerra híbrida”.

A história está repleta de exemplos que demonstram essa tese. No século XIX, o imperador D. Pedro II comandou do Rio de Janeiro a derrubada do ditador argentino Juan Manuel de Rosas, financiando e articulando a invasão de 1851-1852, sem jamais ter posto os pés na Argentina. Da mesma forma, foi do Palácio de São Cristóvão que ele autorizou a invasão do Uruguai em 1864 para colocar os colorados no poder, com suporte naval e financeiro, sem precisar atravessar a fronteira. Na passagem do século XIX para o XX, o presidente americano Theodore Roosevelt articulou de Washington o golpe que separou o Panamá da Colômbia em 1903, apoiando militar e diplomaticamente os separatistas panamenhos para assegurar o controle americano sobre a região do Canal, sem que ele ou seus assessores precisassem estar em solo centro-americano para que a secessão fosse consumada.

No século XX, Charles de Gaulle oferece um dos exemplos mais eloquentes. Depois da ocupação da França pela Alemanha, instalou-se em Londres, de onde exerceu a liderança política da França Livre e articulou a resistência contra o regime de Vichy e a ocupação nazista. Enquanto franceses que permaneceram no território ocupado eram presos, torturados e mortos, a direção política encontrava-se protegida do outro lado do Canal da Mancha. Somente depois da libertação De Gaulle retornou à França, carregado do prestígio político da Resistência, para assumir a chefia do Governo Provisório. É impossível não recordar, nesse contexto, O Sangue dos Outros, de Simone de Beauvoir, cujo dilema moral da Resistência expõe a distância entre quem toma decisões e aqueles cujo sangue paga por elas.

Décadas depois, o aiatolá Khomeini reproduziu mecanismo semelhante. Passou anos no exílio e, sobretudo de sua casa em Neauphle-le-Château, na França, trabalhou intensamente para a derrubada do Xá. Gravava mensagens, mantinha comunicação com seus seguidores, articulava a rede religiosa e política iraniana e contribuía para organizar o movimento que paralisaria o país. Enquanto seus seguidores enfrentavam o regime dentro do Irã, sua liderança permanecia no exterior. Khomeini somente retornou a Teerã quando a monarquia já estava em colapso e o Xá havia deixado o país. Em 2019, Evo Morales, após a crise pós-eleitoral na Bolívia, renunciou e foi para o exílio no México e depois na Argentina, de onde seguiu articulando politicamente com suas bases e com o Movimento ao Socialismo, influenciando diretamente os rumos do país e pavimentando seu retorno político, sem que sua presença física na Bolívia fosse necessária para manter influência sobre seus seguidores.

Do outro lado do mundo, os exemplos se multiplicam. Em 2003, George W. Bush e seus assessores comandaram de Washington a invasão do Iraque e a derrubada de Saddam Hussein, sob a alegação de armas químicas que nunca foram encontradas, e Colin Powell, que apresentou as supostas provas na ONU, anos depois admitiu ter sido usado num episódio que considerou uma mancha em sua carreira. No Levante Árabe, a derrubada de Kadhafi na Líbia foi comandada pela OTAN a partir de Bruxelas, Paris, Londres e Washington, com ataques aéreos e apoio a rebeldes, enquanto na Síria, desde 2011, EUA, Turquia, Arábia Saudita e Catar financiaram e armaram grupos oposicionistas de suas respectivas capitais, numa clara tentativa de mudança de regime comandada remotamente.

O caso venezuelano torna o mecanismo ainda mais evidente porque reúne as duas pontas da operação. De um lado, o governo de Donald Trump e seus enviados atuando a partir dos Estados Unidos; de outro, a oposição venezuelana, liderada por Maria Corina Machado, mantendo articulação política com Washington e buscando apoio externo para provocar uma mudança de regime dentro da Venezuela. A rapidez com que se desenvolveu a operação contra Nicolás Maduro não se explica apenas por uma ação concebida no exterior e executada de improviso: pressupõe articulação prévia com forças e colaboradores internos. O golpe vinha sendo engendrado por dentro ao mesmo tempo em que era apoiado e articulado por fora. A localização geográfica de cada participante não elimina sua participação; constitui parte do próprio método.

Mais recentemente, a tentativa de decapitação do Irã em fevereiro de 2026, ordenada por Trump, partiu da Sala de Situação da Casa Branca, com mísseis e drones lançados de bases no Golfo, sem que qualquer articulador americano precisasse estar em Teerã. E, no plano dos chamados golpes coloridos, a Revolução Laranja na Ucrânia em 2004 foi financiada e estrategicamente dirigida por organizações não governamentais e fundações americanas e europeias sediadas em Washington e Bruxelas, as mesmas que atuaram na Revolução Amarela no Brasil, treinaram ativistas e manipularam a opinião pública ucraniana a distância, com pleno sucesso.

Eduardo Bolsonaro, imitando Corina Machado, instalou-se nos Estados Unidos e, depois de o leite derramado, passou a articular junto ao governo Trump medidas destinadas a produzir efeitos políticos dentro do Brasil.  Sua atuação posterior prova sua participação junto à de seu pai nos acontecimentos de janeiro de 2023, e demonstra concretamente a viabilidade do expediente: um ator político brasileiro pode permanecer nos Estados Unidos, buscar apoio de autoridades estrangeiras e trabalhar para que decisões tomadas lá produzam consequências políticas aqui.

Se a regra geral é inequívoca, sua aplicação ao caso brasileiro é inevitável. A alegação de que um golpista precisa estar no país para articular um golpe é um sofisma que não resiste ao confronto com os fatos. O que define um golpe é a vontade de romper a ordem constitucional e a capacidade de articular forças militares, políticas, financeiras e midiáticas para esse fim. Essas duas condições podem ser perfeitamente satisfeitas a milhares de quilômetros de distância, como demonstram todos os exemplos citados, que abrangem desde o século XIX até o século XXI e ocorrem nos quatro cantos do planeta.

Há, ainda, uma vantagem para quem articula de fora: a distância separa o poder do risco. Os que permanecem no território enfrentam a repressão, a prisão, o ferimento e até a morte; quem articula do exterior assiste a operação de camarote. Se fracassar, fica imune; se for bem-sucedida, volta com os louros da vitória conquistada pelo sangue dos outros. Portanto, a tese da presença física como condição sine qua non para a ação é insustentável. O golpe não decorre da proximidade do líder, mas pela eficácia de sua articulação e pelo resultado de suas ordens, ainda que dadas do outro lado do mundo.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Affairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Depois de aposentado como professor universitário, atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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