1 de setembro de 2026

A visita de Xi Jinping ao Quirguistão, por Samuel Spellmann

Xi e Japarov assinaram uma declaração conjunta sobre o desenvolvimento da parceria estratégica abrangente para uma nova era.
Xi Jinping e o presidente quirguiz Sadyr Japarov - Reprodução

Xi Jinping visitou o Quirguistão em 2026 e participou da 26ª Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai em Bishkek.
China e Quirguistão ampliaram parceria estratégica, assinando tratados e 20 acordos em comércio, infraestrutura e tecnologia.
SCO aprovou 28 documentos, criou centros permanentes e avançou na institucionalização para fortalecer cooperação regional e global.

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A visita de Xi Jinping ao Quirguistão e a consolidação da Organização de Cooperação de Xangai na ordem multipolar

por Samuel Spellmann

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A visita de Estado do presidente chinês Xi Jinping ao Quirguistão, em agosto de 2026, e sua participação na 26ª Cúpula da Organização de Cooperação de Xangai (SCO), realizada em Bishkek, revelam movimentos importantes na reorganização política e econômica da Eurásia. A agenda demonstrou o esforço da China para fortalecer sua presença regional na Ásia Central e, simultaneamente, ampliar a projeção da SCO como instrumento de cooperação em uma ordem internacional crescentemente multipolar. A Cúpula de Bishkek também marcou uma etapa de maior institucionalização da organização, com a aprovação de 28 documentos, alterações em sua Carta e a regulamentação de novas estruturas permanentes destinadas à segurança e ao combate ao tráfico de drogas.

No plano bilateral, a relação entre China e Quirguistão atravessa período de aprofundamento. Durante os encontros entre Xi Jinping e o presidente quirguiz Sadyr Japarov, os dois governos reiteraram a intenção de ampliar a parceria estratégica, com ênfase em comércio, infraestrutura, conectividade, energia, tecnologia e intercâmbio social. Pequim descreve essa etapa como um “período dourado” das relações entre os dois países. A expressão, embora pertencente ao vocabulário diplomático chinês, traduz uma transformação objetiva: o Quirguistão passou a desempenhar função cada vez mais relevante nas rotas terrestres que conectam a China à Ásia Central e, por extensão, ao restante da Eurásia.

O fato é que a visita conferiu maior densidade jurídica a essa aproximação. Xi e Japarov assinaram uma declaração conjunta sobre o desenvolvimento da parceria estratégica abrangente para uma nova era e um Tratado de Boa Vizinhança, Amizade e Cooperação Permanente, destinado a oferecer uma base jurídica de longo prazo às relações bilaterais. Outros 20 documentos de cooperação também foram celebrados em áreas como ciência e tecnologia, educação, transportes, investimentos, alfândega, cultura e mídia.

Nesse contexto, a ferrovia China–Quirguistão–Uzbequistão ocupa posição central. O projeto possui significado econômico estratégico, ao criar novas possibilidades de circulação de mercadorias. A infraestrutura oferece à China uma alternativa adicional de acesso terrestre aos mercados centro-asiáticos e reforça o papel do Quirguistão como território de interesse chave. Ao mesmo tempo, insere-se na lógica mais ampla da Belt and Road Initiative, por meio da qual Pequim associa investimento em infraestrutura, integração comercial e construção de vínculos políticos de longo prazo. A conectividade, nesse modelo, funciona não apenas como instrumento econômico, mas como componente de influência internacional.

A dimensão multilateral da visita foi igualmente relevante. Criada em 2001 e originalmente concentrada em questões de segurança regional, a Organização de Cooperação de Xangai tornou-se progressivamente mais abrangente. Atualmente, reúne países com elevado peso demográfico, territorial, econômico e energético, entre eles China, Rússia, Índia, Irã e importantes Estados da Ásia Central. Na Cúpula de Bishkek, Xi Jinping apresentou uma agenda fundada no aprofundamento da cooperação econômica, no enfrentamento conjunto de ameaças à segurança, no avanço tecnológico e na reforma da governança internacional.

A segurança permanece como um dos pilares da SCO. Terrorismo, extremismo, separatismo, tráfico de drogas, crimes transnacionais e ameaças cibernéticas permanecem no centro das preocupações dos membros. Contudo, a cúpula de 2026 demonstra que a organização ultrapassou essa agenda inicial. Comércio, energia, infraestrutura, economia digital, inteligência artificial e desenvolvimento sustentável passaram a integrar de maneira crescente seus mecanismos de cooperação. Essa ampliação indica a tentativa de converter a SCO em uma plataforma euroasiática capaz de articular segurança e desenvolvimento.

O aspecto institucional da Cúpula de Bishkek merece especial destaque. Os Estados membros aprovaram um protocolo de alterações e adições à Carta da SCO e regulamentaram o Centro Universal da SCO para o Enfrentamento de Desafios e Ameaças à Segurança, bem como o Centro Antidrogas da organização. A criação e operacionalização dessas estruturas representam uma mudança qualitativa: a SCO passa a desenvolver órgãos permanentes especializados, ampliando sua capacidade de transformar compromissos políticos em coordenação institucional. Xi também defendeu a rápida abertura de “quatro centros de segurança”, com o objetivo de elevar a capacidade coletiva de resposta a ameaças tradicionais e não tradicionais, incluindo segurança da informação, biossegurança, segurança espacial, crime organizado e fraudes em telecomunicações.

A institucionalização também avançou nas áreas de comércio e novas tecnologias. A A China anunciou a criação de um Centro Internacional de Cooperação em Aplicações de Inteligência Artificial voltado aos países da SCO, de um centro China–SCO para cooperação em economia portuária em Tianjin e de um centro de cooperação em educação básica. A República Popular comprometeu-se ainda a implementar 100 projetos de cooperação tecnológica com membros da organização nos três anos seguintes. Esses mecanismos apontam para a construção gradual de uma arquitetura própria de cooperação econômica, tecnológica, educacional e securitária, que amplia o alcance funcional da SCO.

Há também uma dimensão política mais ampla. Em seu discurso no encontro “SCO Plus”, Xi defendeu uma ordem mundial “multipolar, igualitária e ordenada”, maior representação dos países do Sul Global e o fortalecimento do multilateralismo. Criticou, ainda, unilateralismo, protecionismo e estruturas internacionais dominadas por grupos restritos de Estados. O discurso insere a SCO na estratégia chinesa de promoção de reformas na governança global e de ampliação do espaço político de países que consideram insuficiente sua representação nas instituições internacionais existentes. Nesse sentido, a expansão institucional da SCO adquire significado que transcende a gestão de questões regionais: ela oferece estruturas adicionais de coordenação política estratégica, capazes de fortalecer laços regionais de cooperação e de interconexão.

A aproximação entre China e Rússia também apareceu com destaque. À margem da cúpula, Xi reuniu-se com Vladimir Putin e reafirmou a solidez da parceria sino-russa, associando-a à defesa de uma estrutura internacional mais multipolar. Contudo, seria impreciso compreender a SCO simplesmente como uma aliança homogênea liderada por Pequim e Moscou. A presença da Índia, do Paquistão, do Irã e dos países centro-asiáticos introduz interesses nacionais distintos, rivalidades históricas e diferentes percepções sobre segurança e desenvolvimento. A força da organização reside precisamente em sua capacidade de acomodar essas diferenças sem exigir um grau de alinhamento equivalente ao observado em alianças militares tradicionais. A própria SCO sustenta os princípios de não-alinhamento, não confrontação e não direcionamento contra terceiros, elemento que a diferencia de uma aliança militar convencional.

Essa diversidade, portanto, apoia o processo de consolidação institucional. Ao contrário, a aprovação da Declaração de Bishkek, das mudanças na Carta e de 28 documentos sobre segurança, economia, intercâmbio social e desenvolvimento organizacional mostra uma tentativa de produzir regras, estruturas e mecanismos comuns sem eliminar a autonomia estratégica de seus membros. A passagem da presidência rotativa ao Paquistão para o período 2026–2027 reforça, por sua vez, o caráter intergovernamental e rotativo da organização.

Para o Quirguistão, esse ambiente oferece oportunidades de investimento, infraestrutura e ampliação de sua relevância regional, mas também exige equilíbrio diplomático entre potências com interesses próprios na Ásia Central. Para a China, por sua vez, Bishkek representou uma oportunidade de conectar três dimensões de sua política externa: integração econômica regional, segurança de seu entorno estratégico e defesa de uma reorganização gradual da governança internacional. A visita de Xi Jinping ao Quirguistão e a Cúpula da SCO, portanto, devem ser compreendidas como partes de um mesmo processo. A China fortalece seus vínculos bilaterais enquanto amplia instituições multilaterais nas quais exerce significativa influência. O dado mais relevante da Cúpula de Bishkek talvez seja precisamente a passagem de uma cooperação predominantemente setorial para uma arquitetura gradualmente mais institucionalizada, dotada de centros especializados, instrumentos normativos e mecanismos próprios de coordenação.A Ásia Central deixa, assim, de ser apenas uma região situada entre grandes potências. Ela deve ser encarada como um dos espaços em que se desenha não apenas a disputa por influência, mas a construção concreta de instituições destinadas a sustentar uma ordem internacional multipolar.

Samuel Spellmann – Professor Doutor da UFPA (Universidade Federal do Pará). É pesquisador do China Working Group – International Initiative for Promoting Political Economy (IIPPE), School of African and Oriental Studies, University of London (IIPPE, SOAS).

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