Alexandre de Moraes para Homem do Ano de 2021, por Letícia Sallorenzo

Praticamente todas as boas notícias do STF vinham do gabinete de um único ministro: Alexandre de Moraes. Que faz aniversário neste 13 de dezembro.

Alexandre de Moraes para Homem do Ano de 2021

por Letícia Sallorenzo

2021. Um ano ou mais uma bigorna sobre nossas cabeças? Nenhum dos 290 brasileiros que ainda têm algum juízo (e eu não sei se me incluo entre esse seleto grupo) ousa dizer que o ano que está acabando foi bom. Um ano novo estreado dentro de casa, no meio de uma pandemia de Covid que levava gente na casa dos mil a cada 24 horas. A toda hora éramos bombardeados com notícias de amigos ou parentes contagiados, alguns se saravam, outros baixavam no hospital e melhoravam, e vários baixavam hospital e de lá nunca mais saíam.

Era muita notícia ruim, vinda dos amigos, dos parentes, e de Brasília, tomada e dominada pelo neofascismo propagado pelos esquemas de firehosing com sérios indícios de ramificações dentro do Palácio do Planalto.

Houve boas notícias de Brasília? Houve, é verdade. Todas vinham de um inacreditável Supremo Tribunal Federal que tomou para si, como há muito não se via, a tarefa de zelar pela Constituição e pela nesguinha que ainda resta neste país daquela tendência greco-vintage conhecida como democracia. Praticamente todas as boas notícias do STF vinham do gabinete de um único ministro: Alexandre de Moraes. Que faz aniversário neste 13 de dezembro.

O 13 de dezembro de 1968 é uma data inesquecível pra quem a viveu ou pra quem estudou um mínimo de história neste país. Nesse dia foi decretado o AI-5, o mais duro de todos os Atos Institucionais, que cassou mandatos de parlamentares contrários aos militares e suspendeu todas as garantias constitucionais de qualquer cidadão. Foi nesse mesmo 13 de dezembro de 1968 que nasceu Alexandre de Moraes. Definitivamente, o roteirista que está escrevendo a temporada 2021 de Brasil resolveu tirar sarro da cara de todo mundo – inclusive do roteirista da temporada 1968.

2021 ri na cara de 2017

Já perdi as contas de quantas vezes li “imagine que você volta pra 2017 e diz pra você mesma pra não falar mal de Alexandre de Moraes, porque em 4 anos ele será o melhor ministro do STF, e o único brasileiro a combater diretamente o fascismo que vai se instalar neste país”, ou coisas do tipo.

Mas eu fico imaginando o que o Alexandre de Moraes de 2021 avisaria àquele ministro da Justiça do Temer que, em 2017, trocava mensagens de whatsapp com a mulher pra avisar que seria indicado no Diário Oficial daquela noite para o STF na vaga do Teori?

“Mano, vai ser pesado. Você vai carregar este país no lombo sozinho. Vai enfrentar pai presidente, três filhos dele e toda a máquina do estado voltada para o fascismo praticamente sozinho, porque seus colegas vão ficar na tua sombra e o Legislativo vai ficar do lado da grana. E toda essa galera que hoje diz que você será um dos piores ministros do STF vai dizer “nunca critiquei”, na maior cara de pau. Ah, e você ainda vai estar à frente do TSE nas eleições de 2022, vai ser rock and roll!!”

Todos os 290 brasileiros que ainda têm algum juízo, e sabem que a gente tá muito lascado, superaram a incredulidade e vibraram ao ver Moraes assombrando (literalmente) o presidente e seus filhos, e causando uma insônia ao inquilino do Planalto de causar inveja ao mais assombroso dos fantasmas.

Rock and roll

Moraes começou a nos surpreender já em fevereiro, quando praticamente interrompeu o paredão do Nego Di do Big Brother Brasil (muita gente vai se lembrar, me deixem!) para deter o deputado bolsonarista Daniel Silveira, numa ordem de prisão que Moraes qualificou como “imprescindíveis medidas enérgicas para impedir a perpetuação da atuação criminosa de parlamentar visando lesar ou expor a perigo de lesão a independência dos Poderes instituídos e ao Estado Democrático de Direito”.

SIlveira ficaria preso por quase sete meses e, se no primeiro dia dizia que só iria passar a noite na cadeia, ao final de sete meses sua defesa já havia apelado à benevolência do ministro. Assim como todo bolsonarista enfiado no xilindró por Xandão, Silveira sacou da carta do atestado médico: “preciso operar o joelho, sou doente!” “papai sofre de câncer, tem que ficar em casa”; “o ministro não permite meu tratamento, se eu morrer a culpa será dele, que malvado; tenho diabetes; preciso operar fimose; estou doente, me tirem daqui!”. Na hora de fazer bosta não tava doente, né?

(Gosto de acreditar que, a cada decisão de manter Silveira na prisão, antes de clicar no botão de assinatura eletrônica de documentos e enviar o material para o sistema do STF, Moraes dava uma risadinha sádica à la Mutley – isso não é verdade, não acreditem em mim. Mas eu quero crer que é, pois deixa tudo ainda mais divertido).

Xandão pegou pesado com Daniel Silveira, e também com Roberto Jefferson e Sérgio Reis. Todos, invariavelmente, usaram a boa e velha carta do atestado médico – Sérgio Reis, mais depressa que rapidamente. Isso rendeu ao ministro em 20 de agosto um pedido de impeachment enviado ao Senado pelo presidente da república, uma inacreditável, indefensável e indescritível peça jurídica que indica que o acusado tem “domicílio profissional (sic) à Praça dos Três Poderes” (pausa pra você imaginar Alexandre de Moraes tocando violão na Praça dos Três Poderes, com o estojo do instrumento aberto pra receber uns trocadinhos). Foi devidamente arquivada pelo presidente do Senado.

A ordem de prisão contra Allan dos Santos (que deve ser lida com pipocas e schadenfreude), tornada pública quando o documento já havia chegado nos Estados Unidos, é um bom exemplo de que Moraes vem fazendo o dever de casa direitinho pra entender que tipo de monstro tem que enfrentar, na defesa do Estado Democrático de Direito e no combate às Fake News. O documento inicia com a melhor e mais sucinta definição de firehosing, algo de que eu já falei aqui no GGN, e essa definição embasa toda a argumentação que culmina com o pedido de prisão do blogueiro bolsonarista. Inclusive, avisem ao ministro que eu vou usar (dando os devidos créditos, é claro) essa definição dele nas minhas aulas de Fake News, pois ficou muito boa.

Em outras ocasiões, o ministro já deu pistas (porque entrevista saindo de lá é difícil!) de que suas leituras têm a ver com meios de compreender esse fenômeno das Fake News e seus efeitos nefastos no mundo. É a leitura básica de qualquer curso universitário sobre Fake News: Os Engenheiros do Caos, de Giuliano da Empoli, A Máquina do Ódio, de Patrícia Campos Melo, e Fascismo, de Madeleine Albright (muito embora esse livro seja de longe o pior para dar conta do fenômeno, melhor os de Robert Paxton ou Michael Mann. Albright tira umas definições nada a ver de regiões mal frequentadas do corpo humano, por assim dizer).

Mas eu tava resumindo o 2021 de Alexandre de Moraes. Flopar foi um verbo muito conjugado pelo nosso ministro preferido em 2021. Pelo que a imprensa divulgou, ele ajudou a flopar a Comissão da Câmara dos Deputados que ia defender o voto impresso; flopou o financiamento das manifestações bolsonaristas do 7 de setembro, flopou as bravatas de Roberto Jefferson e Sérgio Reis, flopou o financiamento e a monetização de canais bolsonaristas no youtube. Rezemos para que em 2022 ele ajude a flopar a sanha fascista que assola este país.

O 7 de setembro foi uma grande derrota para Jair Bolsonaro, que esperava milhões nas ruas em apoio a ele, em viagens financiadas, principalmente em Brasília, por diversas chaves pix espalhadas Brasil afora. Dinheiro estranho circulando de forma esquisita, por assim dizer. Em meio ao inquérito das Fake News e atentados contra o Estado Democrático de Direito, nosso ministro preferido bloqueou QUASE todas essas chaves pix.

Moraes “deixou passar” algumas, pra que os organizadores desse armagedom da democracia achassem que estava tudo sob controle. No dia sete de setembro, em vez de uma Esplanada abarrotada, Bolsonaro viu uma área apenas razoavelmente cheia de gente. Seus planos para dizer “o povo está do meu lado” floparam – ou foram flopados, como você preferir. Daí vieram Temer, cartinha e, em 48 horas, Alexandre de Moraes foi de “canalha” a “jurista e professor de respeito”, nas palavras do demônio do cercadinho (pausa pra você imaginar novamente a risadinha de Mutley).

Daí que os 290 brasileiros que ainda têm algum juízo, e vivem de galhofa nas redes sociais pra não entrarem em colapso mental de vez, resolveram brincar com a força imparável de Alexandre de Moraes. Em 2021 nasceu o Xandão, ser quase folclórico (“continua falando isso que o Xandão vai te pegar, hein?” – agora troque Xandão por Loura do banheiro, Saci Pererê, mula sem cabeça ou a figura folclórica de sua preferência pra entender do que eu estou falando). Xandão foi ovacionado, exaltado e, sempre que investia contra o fascismo, virava trending topic do Twitter.

E, como só no Brasil o Lex Luthor tem nervos de aço e resolveu lutar do lado dos bons, Alexandre de Moraes ainda suspendeu, em meio à pandemia, não uma, mas três reintegrações de posse. Ele combate o fascismo e, nos intervalos, ainda arranja tempo pra ser fofo:

Operação Quilombo Coração Valente, em janeiro: afetaria 800 pessoas em Jacareí (das quais 70 crianças, 14 idosos e diversas pessoas com deficiência mental);

Cidade Líder, em São Paulo, que afetaria 800 famílias socioeconomicamente vulneráveis, em setembro; e a Comunidade Dubai, em João Pessoa, em novembro, que afetaria 400 famílias. Sem nos esquecermos da mulher presa por mais de 100 dias por furto de água.

(De novo: o que diria o ministro da Justiça Alexandre de Moraes que, em 2016, defendeu a reintegração de posse sem autorização judicial para recuperar prédios públicos?)

É por todos esses motivos daí de cima que eu não vou esperar por nenhuma revista semanal. Decreto Alexandre de Moraes o Homem do Ano de 2021. E que Alexandre de Moraes brilhe, também (e brilhe para o bem, pelo amor de Deus), em anos menos esquisitos. Potencial para isso ele tem.

Publique-se e cumpra-se.

Parabéns, ministro! E se espirrar, saúde!

Este texto não expressa necessariamente a opinião do Jornal GGN

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Cristóvão Gomes de Oliveira

- 2021-12-14 08:49:02

PQP três vezes! Letícia, você fez um desbridamento na minha língua e no meu cérebro! Não estou entre os 290, mas fui um dos que "troceu" o nariz pro careca que treinou sabatina dentro de um barco... Armando Bogus deu vida ao Zé das Medalhas, em Roque Santeiro. O personagem era useiro e vezeiro de caretas as mais variadas. Assim era eu, ao ler sobre os movimentos do careca pra se tornar Ministro do STF... Vivia retorcendo a minha cara, fazendo caretas e mais caretas... Meu voto também irá pra ele ser o Homem do Ano! Quanto a você, voto nesse seu texto como A Crônica do Ano! E tenho dito! Ah, e pqp mais três vezes!!!

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