Peru e Cuba no epicentro da disputa hemisférica
por Alexandre Favaro Lucchesi
A destituição no Peru e o bloqueio energético a Cuba mostram a América Latina no centro da competição entre as grandes potências e lançam dúvida sobre os próximos passos dos EUA
Introdução
O Congresso do Peru destituiu o presidente interino José Jerí em 17 de fevereiro de 2026 após apenas quatro meses no cargo, em meio a acusações de corrupção e influência indevida envolvendo empresários chineses. Este é mais um episódio da longa instabilidade política peruana. O país já teve oito presidentes desde 2016, com frequentes crises entre o executivo e o Legislativo. Além de refletir disputas internas de poder, é parte de uma influência mais ampla de atores externos no Peru, tanto dos EUA quanto da China, especialmente devido ao papel da China em investimentos locais, como o porto de Chancay, e às críticas dos Estados Unidos a essa influência.
A política estadunidense atual combina pressão econômica, diplomática e militar para limitar a influência da China e de aliados de Moscou na região (Venezuela, Cuba, etc.), especialmente após décadas de crescente presença chinesa em comércio e investimentos. O governo russo afirmou apoio a Cuba e planeja fortalecer laços diplomáticos, realizando encontros de alto nível entre os chanceleres de Moscou e Havana em meio às tensões com os EUA. O país considera enviar petróleo e combustível como ajuda humanitária e classificou as ações dos EUA como “bloqueio energético” e criticou as medidas como ilegítimas.
Uma nova configuração de influência global, na qual os EUA tentam reafirmar sua posição no continente, enquanto China e Rússia respondem buscando manter ou reforçar suas alianças estratégicas, identifica a América Latina e Caribe como regiões estratégicas para “competição global de poder”, deslocando o foco da Casa Branca fora do Oriente Médio, e legitima uma postura mais intervencionista para conter a influência de rivais externos como China e Rússia na região. Isso sugere que os Estados Unidos estão dispostos a usar meios além da diplomacia tradicional e de sanções ou pressão política, mas também ações de segurança mais diretas. A operação militar em território venezuelano, que resultou na captura de Nicolás Maduro e sua transferência para os EUA, algo sem precedentes na política hemisférica moderna, foi precedida por um grande buildup militar no Caribe, incluindo implantação de navios-escola, forças especiais e ataques a embarcações suspeitas em uma campanha que o próprio governo americano qualificou como combate a “narco-terroristas”, mas sem divulgação pública de provas claras. O Pentágono tem conduzido, desde agosto de 2025, uma campanha aérea/ naval no Caribe e Pacífico contra embarcações que a administração Trump classifica como envolvidas em tráfico de drogas, matando dezenas de pessoas e sem supervisão clara do Congresso. Isso configura um risco à legalidade internacional, porque os EUA não precisam de autorização formal para operar em águas internacionais quando alegam lutar contra “narcoterrorismo”.
Governo dos EUA agora emite avisos públicos fortes dizendo que certos países como Peru “podem perder soberania” se aceitarem influência econômica da China, sugerindo uso de diplomacia dura para moldar decisões internas de governos latino-americanos. Há também sinais de retomada de coordenação da DEA (agência antidrogas) com países como Bolívia, um movimento que pode ampliar presença americana em temas de segurança interna.
Países que podem enfrentar maiores pressões (politicamente ou em segurança) incluem Cuba, já sob forte pressão econômica e bloqueios de energia, com impactos sociais graves, e alvo de retórica dura do governo dos EUA, a Nicarágua e outros governos anti-estadunidenses que permanecem distantes de Washington, especialmente com alinhamentos a Moscou ou Pequim e Colômbia e outros países do Caribe litorâneos, muito embora sejam aliados tradicionais, porque o envolvimento em segurança regional (luta contra grupos armados e tráfico) pode colocar esses países no centro de novas operações colaborativas ou de pressão política. Não há indicação credível de planos públicos de invasão ampla de países como Brasil ou México no curto prazo. A maior parte das ações recentes dos EUA foi justificada oficialmente sob pretextos de segurança e combate ao tráfico.
A expressão “Doutrina Donroe”, mobilizada por analistas e veículos de imprensa para caracterizar essa inflexão, remete a uma releitura contemporânea da Doutrina Monroe, agora articulada ao contexto de competição sistêmica com China e Rússia. Embora o termo não possua estatuto conceitual consolidado na academia, ele sintetiza a percepção de que Washington passou a enquadrar a América Latina como espaço prioritário de contenção geopolítica, com ênfase em segurança, infraestrutura estratégica e alinhamentos político-diplomáticos.
Essa leitura não pode ser dissociada do diagnóstico mais amplo de transição hegemônica. Gilpin (1987) e Arrighi (1994) sustentaram que ciclos de hegemonia tendem a produzir fases de maior assertividade por parte da potência estabelecida, sobretudo quando a competição econômica se converte em rivalidade geopolítica. Strange (1996) destacou que o poder estrutural, especialmente nas esferas financeira, produtiva e de segurança, é frequentemente exercido por meio de instrumentos que combinam coerção e institucionalização. A América Latina, nesse quadro, reaparece como território sensível para a projeção desse poder estrutural, em particular diante da consolidação da China como principal parceiro comercial de vários países sul-americanos.
Peru
O caso peruano, à luz dessa moldura analítica, assume relevância singular. A reiterada instabilidade institucional no Peru, marcada por sucessivas destituições presidenciais e crises entre Executivo e Legislativo, ocorre em paralelo à intensificação da presença chinesa no país, sobretudo em projetos de infraestrutura portuária e mineração. A advertência pública de autoridades estadunidenses quanto ao risco de “perda de soberania” do Peru diante da China insere-se em um repertório discursivo que associa investimentos estratégicos a vulnerabilidades de segurança. Tal enquadramento dialoga com a noção de securitização formulada por Buzan, Wæver e de Wilde (1998), segundo a qual determinados temas passam a ser tratados como ameaças existenciais que justificam medidas excepcionais.
A preocupação estadunidense com a infraestrutura portuária peruana pode ser interpretada como disputa por “nós logísticos” em cadeias globais de valor. Strange (1996) já advertia que o controle sobre fluxos financeiros e comerciais constitui dimensão central do poder estrutural. O porto de Chancay, frequentemente citado como símbolo da presença chinesa no Pacífico sul, adquire assim significado que ultrapassa a economia doméstica peruana, integrando-se à competição sino-americana por rotas comerciais e projeção marítima.
A instabilidade política no Peru, ainda que ancorada em dinâmicas internas complexas, passa a ser lida, no debate público regional, como variável sensível nesse tabuleiro geopolítico. A possibilidade de que crises institucionais criem oportunidades para reorientações de política externa alimenta a apreensão em setores progressistas latino-americanos, que observam a articulação entre pressão diplomática, cooperação em segurança e advertências estratégicas emitidas por Washington. Não se trata de afirmar causalidade direta entre destituições presidenciais e ingerência externa, mas de reconhecer que, em contextos de competição sistêmica, crises domésticas adquirem ressonância internacional ampliada.
A destituição do presidente interino peruano decorreu formalmente de reuniões não divulgadas com empresários chineses, realizadas fora da agenda oficial. A associação direta entre encontros com agentes econômicos vinculados à China e a deflagração de um processo de censura parlamentar sugere que o tema da influência estrangeira deixou de ser apenas objeto de debate estratégico externo para se tornar variável politicamente mobilizável no interior das disputas institucionais nacionais.
Nesse sentido, a crise peruana não se resume a mais um episódio da instabilidade crônica do país, mas pode ser lida como manifestação concreta da crescente interpenetração entre a competição sistêmica e a governança doméstica. A presença chinesa, particularmente em projetos de infraestrutura e mineração, passa a operar como elemento discursivo de legitimação de medidas excepcionais, aproximando-se do que Buzan, Wæver e de Wilde (1998) conceituam como processo de securitização.
Tal dinâmica reforça a percepção, difundida em setores progressistas latino-americanos, de que a margem de autonomia decisória dos Estados da região encontra-se condicionada não apenas por constrangimentos econômicos estruturais, mas também por narrativas estratégicas que enquadram determinadas parcerias externas como riscos à soberania. A consequência não é necessariamente a intervenção direta, mas a ampliação do campo de incerteza quanto aos limites aceitáveis de diversificação geopolítica.
Cuba
Se o Peru simboliza a dimensão infraestrutural e comercial da disputa, Cuba concentra a dimensão energética e político-ideológica. A crise energética enfrentada pela ilha, agravada por sanções e restrições de financiamento, tem sido parcialmente mitigada por cooperação com Rússia e outros parceiros extra-regionais. Do ponto de vista da teoria da dependência “associada” (Cardoso, Faletto, 1970), tal dinâmica poderia ser interpretada como tentativa de diversificação de vínculos externos para reduzir vulnerabilidades estruturais. Contudo, no contexto atual, essa diversificação é imediatamente incorporada à narrativa de competição estratégica entre grandes potências.
A ajuda russa a Cuba, especialmente no campo energético, ocorre em paralelo ao recrudescimento da retórica estadunidense sobre segurança hemisférica. Potências estabelecidas tendem a reagir de forma mais intensa quando percebem a presença de rivais em áreas historicamente consideradas de influência privilegiada (Mearsheimer, 2001). A analogia com a Doutrina Monroe, ainda que anacrônica em termos institucionais, reaparece como metáfora para descrever essa sensibilidade geopolítica. Uma contextualização da situação dramática vivida pela ilha de resistência socialista está descrita por Maringoni (2026).
A Doutrina “Donroe”
No plano discursivo, a designação de governos como “ameaças” ou “regimes hostis” reforça a lógica de alinhamento binário, típica de contextos de polarização sistêmica. Buzan (2014) argumenta que a emergência de uma ordem internacional pós-unipolar tende a gerar zonas de fricção regional nas quais disputas globais se manifestam de maneira concentrada. A América Latina, historicamente situada em posição periférica no sistema mundial, passa a ocupar lugar mais visível na medida em que recursos estratégicos como energia, minerais críticos e rotas marítimas são revalorizados.
Operações de segurança conduzidas sob a justificativa de combate ao narcotráfico e ao terrorismo são percebidas por parte da opinião pública latino-americana como sinais de disposição para ações mais diretas. A ambiguidade entre cooperação em segurança e projeção de poder reforça a incerteza quanto aos limites da atuação estadunidense.
Nesse cenário, a chamada “Doutrina Donroe” deve ser compreendida como construção interpretativa que articula a reafirmação do hemisfério ocidental como prioridade estratégica, a contenção da influência chinesa e russa e a utilização combinada de instrumentos diplomáticos, econômicos e de segurança. Para o espectro progressista latino-americano, a questão central é a imprevisibilidade dos mecanismos de pressão. Sanções financeiras, restrições tecnológicas e condicionamentos institucionais podem exercer impacto significativo sem recorrer à força armada (Hufbauer et al., 2007). Assim, a incerteza desloca-se do terreno da invasão convencional para o da coerção econômica e diplomática.
O Peru, com sua instabilidade institucional e posição estratégica no Pacífico, e Cuba, com sua vulnerabilidade energética e simbolismo político, tornam-se casos emblemáticos dessa tensão. Ambos ilustram como dinâmicas domésticas se entrelaçam com disputas sistêmicas, produzindo ambiente de incerteza que transcende fronteiras nacionais. A percepção de que cada crise pode ser reinterpretada à luz da competição entre grandes potências contribui para a sensação de que o próximo movimento é imprevisível.
Do ponto de vista normativo, a Carta das Nações Unidas estabelece princípios de soberania e não intervenção que continuam a orientar o direito internacional. Contudo, como argumenta Krasner (1999), a soberania sempre foi “organizada hipocritamente”, sujeita a exceções e interpretações estratégicas. A tensão atual na América Latina reativa esse debate sobre interdependência econômica, intensificada nas últimas décadas, o que reduz a plausibilidade de soluções unilaterais duradouras. Ao mesmo tempo, a rivalidade sistêmica aumenta a propensão a políticas de contenção. A região encontra-se, assim, em posição delicada, na qual a diversificação de parcerias externas pode ser interpretada como desafio estratégico por uma potência estabelecida.
Na narrativa da “Doutrina Donroe”, advertências diplomáticas, operações de segurança, disputas por infraestrutura e apoio energético a aliados no Peru e em Cuba funcionam como prismas através dos quais essa leitura se materializa. Em contextos de transição hegemônica, a incerteza tende a ser componente estrutural da ordem internacional.
Referências
ARRIGHI, Giovanni. O longo século XX. Rio de Janeiro: Contraponto, 1994.
BUZAN, Barry. An introduction to the English School of International Relations. Cambridge: Polity, 2014.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: a new framework for analysis. Boulder: Lynne Rienner, 1998.
CARDOSO, Fernando Henrique; FALETTO, Enzo. Dependência e desenvolvimento na América Latina. Rio de Janeiro: Zahar, 1970.
GILPIN, Robert. The political economy of international relations. Princeton: Princeton University Press, 1987.
HUFBAUER, Gary et al. Economic sanctions reconsidered. Washington: Peterson Institute, 2007.
KRASNER, Stephen. Sovereignty: organized hypocrisy. Princeton: Princeton University Press, 1999.
MARINGONI, Gilberto. Totalmente ilhados. CartaCapital, Mundo, 12 fev.2026
MEARSHEIMER, John. The tragedy of great power politics. New York: Norton, 2001.
STRANGE, Susan. The retreat of the state. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.
Alexandre Favaro Lucchesi – Economista e doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), fez mestrado no Programa de Economia Política da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Atualmente, é professor visitante no Bacharelado de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), onde participa do Grupo de Estudos da América Latina Contemporânea (GEALC) e coordena o Grupo de Trabalho de América Latina no Observatório de Política Externa Brasileira (OPEB). Tem experiência no universo acadêmico e corporativo, que se destaca por sua visão analítica combinada a uma formação humanista. Recebeu menção honrosa no XXX Prêmio Brasil de Economia em 2024, na categoria livro, por sua obra sobre a integração financeira e a regulação bancária na zona do euro. Possui interesse especial em expandir o ensino da economia para a inclusão social, direcionando seus esforços para cursos técnicos e profissionalizantes no setor público, planejamento estratégico, economia solidária e políticas públicas.
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Cidadão sem cidadania
20 de fevereiro de 2026 1:56 pmSerá um erro estratégico , o brasil fazer a ligação com o peru com as estradas, o brasil tem que ser soberano e não depender de ninguém para escoar seus produtos, o certo é , os próprios portos brasileiros fazerem esse escoamento, mas lula tem essa síndrome de grandeza, e não pensa que os EUA são ficar vendo o brasil e peru se aliando e vão ficar parados , provas mais uma vez lula e Cia não são estratégistas que a tal esquerda pensa , a esquerda tá cega , com lula . Nós os nacionalista de verdade já sabemos quem lula é, apenas mas um , vai pra 20 anos de pt no poder e nunca nem pensou em reendustrializar a nação.