“Aonde querem chegar” vocês, excelentíssimo senhor vice-presidente?, por Roberto De Martin

O artigo de Mourão é, nesse sentido, mais uma peça da engrenagem da retórica bolsonarista. Em resumo: mais um braço do chamado "gabinete do ódio". 

“Aonde querem chegar” vocês, excelentíssimo senhor vice-presidente?

por Roberto De Martin

Em artigo publicado no jornal O estado de São Paulo, no último dia 3 de junho, sob o título “Opinião e princípios”, o vice-presidente, general Antonio Hamilton Martins Mourão, tentou jogar sobre os ombros dos manifestantes que foram às ruas contra o governo Bolsonaro a culpa pelos episódios de violência ocorridos, taxando os protestos antifascismo e antirracismo de não democráticos. Tal atitude é cínica e autoritária.

Primeiro, porque finge ignorar o fato de as manifestações, pacíficas e genuínas, terem surgido justamente como reação aos constantes ataques à democracia praticados pelo presidente da República, membros e apoiadores de seu governo; segundo, porque, na busca por confirmar seu ponto de vista, acusando os brasileiros de importarem o “ódio racial” dos Estados Unidos, deslegitima séculos de luta contra o racismo em uma sociedade historicamente escravocrata.

Reduzir a questão racial brasileira a mero modismo contemporâneo, “made in USA”, é fechar os olhos para o racismo estrutural que existe e que pode ser facilmente comprovado quando observada a imensa diferença entre o número de pretos e de brancos assassinados no País. Segundo o Atlas da Violência, em 2017, foram 33 mil e quinhentos homicídios a mais de pessoas negras. Não foram em vão os gritos de “não consigo respirar” ouvidos nas ruas do Brasil nos últimos finais de semana, ecos da voz de George Floyd, mas também de tantos outros, brasileiros, negros, assassinados anualmente.

Portanto, Mourão, ao contrário do que disse o senhor, não “é forçar demais a mão associar mais um episódio de violência e racismo nos Estados Unidos à realidade brasileira”. Forçar demais é ignorar tal episódio, ainda mais quando comparado à realidade cinicamente racista que impera no País e que o senhor, como voz de autoridade pública, autentica ao reproduzi-la, em vez de denunciá-la.

Mas a opinião do vice-presidente não é apoiada em convicções apaixonadas e patrióticas, em atos intempestivos. Longe disso. O “malabarismo retórico”, do qual ele acusa seus opositores políticos no artigo em questão, o modismo e a artificialidade, estão, na verdade, no incoerente e fabricado discurso dos que chamam de antidemocrático o lado que defende a democracia.

Diretamente importada dos tuítes de Donald Trump, que prometeu na última semana, via rede social, designar o movimento antifascismo como “terrorista”, a paranoica narrativa de criminalização das manifestações antifascistas e antirrascistas tem sido exaustivamente disseminada por integrantes do alto escalão do governo federal, influenciadores digitais e emissoras de TV amigas, como SBT, Record e, agora, CNN.

O artigo de Mourão é, nesse sentido, mais uma peça da engrenagem da retórica bolsonarista. Em resumo: mais um braço do chamado “gabinete do ódio”.

Ou não soa como produto de milícia digital um artigo publicado pelo segundo homem na linha de sucessão presidencial, chamando de “irresponsável” e “intelectualmente desonesta” associação feita pelo decano Celso de Mello entre Hitler e Bolsonaro, dias depois de o presidente da República usar um símbolo nazista de supremacia racial, o leite, em resposta a um desafio para agradar aos empresários do ramo de laticínios?

Sobre isso, vale lembrar que o site disseminador de fake news Terça Livre, uma das maiores audiências dos apoiadores do governo Bolsonaro, fez questão de realizar, em uma Live, minutos depois do presidente, o tal “desafio do leite”. O comandante da ação, o blogueiro Allan dos Santos, alvo da última operação da PF contra propagadores de notícias falsas, proferiu as seguintes palavras ao levantar o copo para o brinde: “entendedores entenderão”, ato que foi seguido de risos por parte de seus companheiros de bancada. Ora, se isso não é alusão a um símbolo nazista, é, no mínimo, este sim, um gesto irresponsável e dúbio, que não colabora em nada para o aumento do consumo de leite no Brasil, e dá margem para associações perigosas.

Finalmente, também é cinismo de Mourão tentar fechar os olhos para as faixas com dizeres que atacam as instituições democráticas, presentes desde sempre nas manifestações pró-Bolsonaro. Minimizar mais esses gestos, taxando-os de “exageros retóricos impensadamente lançados contra as instituições do Congresso e do Supremo Tribunal Federal” é chamar o povo de burro. Ainda mais vindo de um militar, general, subordinado a um presidente capitão que já defendeu de forma explícita a tortura e os torturadores.

Será que Mourão não viu o discurso, na tribuna da Câmara, da deputada federal Bia Kicis, uma das articuladoras do governo no Parlamento, defendendo intervenção militar “constitucional” a partir de uma interpretação desonesta do artigo 142 da Constituição Federal? Será que o vice-presidente não tem acompanhado os desdobramentos deste comentário antidemocrático, que obrigou o jurista Ives Gandra Martins, apontado por bolsonaristas disseminadores de fake news como defensor da interpretação errônea, a ter de ir a público desmentir a insinuação, afirmando que só um “ignorante em direito” poderia supor que o artigo 142 autoriza um golpe? Será?

“Aonde querem chegar” vocês, excelentíssimo vice-presidente, com esse festival de desinformação e ameaças veladas? Se, como sugere o senhor, os “sessentões e setentões nas redações e em gabinetes da República resolveram voltar aos seus anos dourados de agitação estudantil, marcados por passeatas de que eventualmente participaram”, tenha certeza, não é por romantismo ou saudosismo das “barricadas em que sonhavam estar”, mas, sim, porque agora, como em tempos de ditadura militar, as cadelas do fascismo estão no cio.

Roberto De Martin é ator e jornalista.

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