Beemote, por Jorge Alexandre Neves

Beemote, por Jorge Alexandre Neves

Em um artigo recente (http://justificando.cartacapital.com.br/2018/08/15/a-emergencia-do-autoritarismo-pluralista/), Luis Felipe Miguel propôs o interessante conceito de “autoritarismo pluralista”, para descrever a situação que vivemos hoje no Brasil, na qual:

“Diversos braços do Judiciário e do Executivo, as casas do Legislativo, o Ministério Público, as polícias: cada grupo que se julga provido de certo poder se esforça por exercê-lo de forma incontrolada.”

Talvez devêssemos utilizar um velho conceito para definir essa situação: Beemote! Em Hobbes, o Estado pode assumir a figura de dois monstros bíblicos, o Leviatã (um dragão ou serpente das águas, que representa o poder soberano do estado e que promove a paz e a coesão social e política) e o Beemote (algo como um hipopótamo gigante que provoca a divisão e o enfraquecimento do estado).

Franz Neumann – em seu livro “Behemoth: Estrutura e Prática do Nacional Socialismo” – identificou o estado nazista com o Beemote (ou Behemoth, como é comumente nominado em inglês). Ele mostrou que durante a República de Weimar, foi-se formando um estado de exceção por um caminho, em vários aspectos, muito semelhante ao trecho reproduzido do artigo de Luis Felipe Miguel. Por exemplo:

“Uma lei natural não expressa veio a ser aplicada sem restrição ou inibição. O período de 1918 a 1932 foi caracterizado pela aceitação quase universal da doutrina da livre discricionariedade… Se deu aos juízes poderes discricionários inacreditavelmente amplos.”

Em um artigo publicado na revista [email protected] (https://periodicos.ufsc.br/index.php/ethic/article/viewFile/1677-2954.2012v11n3p299/23928), Diogo Ramos traz um apanhado de descrições que o livro de Neumann faz do regime nazista alemão. Nele, teria havido “uma verdadeira autonomização dos vários aparelhos burocráticos.” Uma situação na qual “a lei agora nada mais é do que um meio técnico de realização de objetivos políticos específicos.”

Para Giorgio Agamben, um regime de exceção é um “patamar de indeterminação entre democracia e absolutismo.” Se continuarmos na atual toada, chegaremos ao cenário descrito por Neumann e citado por Ramos, no qual “nada resta senão lucro, poder, prestígio e, acima de tudo, medo”.

As eleições deste ano podem nos aproximar mais ou nos afastar do Beemote. Todavia, até aqui, os ocorridos não são muito alvissareiros. Por um lado, esse estado de “autoritarismo pluralista” não tem sido tema do debate político posto pelas candidaturas, com exceção de Ciro Gomes e, em menor grau, do PT. De outro lado, vemos o Beemote crescendo no estamento militar, o que configura uma péssima notícia!

O Golpe de 2016 foi, a meu ver, fundamentalmente estamental e teve como fato crítico um ato indiscutivelmente ilegal (pois sua ilegalidade foi reconhecida pelo próprio autor) de um juiz de primeiro grau, qual seja, quando Sérgio Moro gravou e divulgou a áudio das conversas entre a então presidenta Dilma e o ex-presidente Lula. A total incapacidade das instituições do Estado brasileiro de reagir de forma enérgica contra tal barbaridade legal, bem como o fato de que o referido juiz não foi até hoje julgado pelo CNJ e que se manteve como responsável pelos processos do ex-presidente Lula, mesmo após essa prova inconteste de sua predisposição à parcialidade no julgamento do réu, mostram o estrago feito por Beemote e a fragilidade institucional do Brasil hoje.

Várias novas evidências do ataque do Beemote têm aparecido a todo tempo, como as inaceitáveis ameaças e manifestações políticas do comandante do exército e a determinação do nosso judiciário de transformar o Estado brasileiro em um pária internacional, ao não se submeter a decisões com base em tratados internacionais da ONU dos quais é signatário. Se continuarmos nessa passada, o Beemote conseguirá a total destruição do Leviatã brasileiro.

Jorge Alexandre neves – Ph.D. em Sociologia pela Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), Professor Titular do Departamento de Sociologia da UFMG, Professor Visitante da Universidade do Texas-Austin (EUA) e da Universidad del Norte (Baranquilla, Colômbia), pesquisador do CNPq e articulista do jornal Hoje em Dia. Especialista em desigualdades socioeconômicas, análise organizacional, políticas públicas e métodos quantitativos.

 

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2 comentários

  1. Quero ver a coragem desses projetos de ditadores “pluralistas”

    … quando as baionetas estiverem na cara deles.

    Foi muito fácil bater no PT, que não se defendia. Queria ver se tinham coragem de bater no Castelo Branco!

  2. A quem a filosofia é tributária

    Sempre os arquétipos! São eles que, sob uma linguagem pré-filosófica, revelam as forças universais da natureza humana e do mundo natural que regem toda nossa existência enquanto espécie. Isto porque, em todas as culturas, as categorias arquetípicas se mostram íntegras em seus mitos e representações, capazes de nos ativar – consciente ou inconscientemente – os insights que nos revelam o contexto. É um instrumento universal, acessível e compreensível a todos. Isto é o que torna a preservação da memória tão ou mais eficiente do que a própria História. Independente da equação mitológica da qual dispomos, os resultados são muito semelhantes e análogos.

    Os mitos bíblicos do Leviatã e do Beemonte são um intrumento poderoso que nos permite avaliar riscos e possibilidades. Igualmente a estes, a mitologia grega também nos dá suporte de análise quanto à fragmentação do poder e suas eventuais consequências e, quiçá, soluções. No mito da Teomaquia, os deuses do Olimpo estavam em conflito aberto. De um lado, Apolo, seu tio Poseidom, Ares e Juno; de outro Zeus e todos os outros deuses, incluindo Atena, Dionísio, Pã, Ceres e outros. 

    Neste mito, vemos a junção de Apolo (a beleza e o poder solar), Poseidom (a violência destruidora de terremotos e do mar), a geurra injusta pela força (Ares) e a tradição (Odilo Cherer, ops! Juno). Ocorre também a junção entre Zeus (a Ordem), Atena (a razão), Dionísio (a temperança), Pã (a generosidade representada pelo pão, seu alimento) e Ceres (o mundo agrário) entre outros.  Sugestivo, este jogo de forças e a aglutinação ocorrida! Não me estendendo muito mais, Zeus e seus aliados venceram, obviamente. À esposa de Zeus, Juno – a Tradição – restou submeter-se, amarrada de ponta cabeça e invertida em sua força. Apolo e Poseidon ganharam serviço pra largar de ser desocupado e pensar bobagem: tiveram que construir com as próprias mãos os murs de Troia. Um como perdreiro e o playboy Apolo como servente, pra aprender a ser gente (desde aquele tempo era assim). Ares, o machão, terminou derrotado por Atena, humilhado pelo feminino sagrado. Interessante…

    Enfim, se o mito bíblico nos revela as forças no jogo de poder e a que cada uma se presta. O mito greo complementa, revleando a equação complexa que motiva e movimenta cada uma das potências políticas em conflito.

    Só pra ficar mais interessante, com lembrar que Dionísio era a bicha do Olimpo. Fincou pé nas bases do Olimpo e (!) transformando-se em tigre impediu a chegada de Apolo e os outros ao trono de seu Pai. Zeus, espantado, declarou que não haveria em todo o Olimpo divindade mais poderosa que Dionísio.

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