
Por André Muniz Cavalcanti e Thiago Muniz Cavalcanti
Na sociedade criada por George Orwell em sua notável obra 1984 – traduzida para diversos idiomas e transformada em filme –, o Estado, além de ditar as regras de conduta, preocupava-se em manipular os fatos com o fito de impedir interpretações que não a oficial. Qualquer modo de traduzir a realidade que não se coadunasse com o estatal deveria ser delatado e sumariamente punido.
Apesar de fictício, pode-se vislumbrar ínsita relação do enredo – no que diz respeito à manipulação dos fatos pelas fontes oficiais – com o Brasil hodierno, em que a repulsiva conjuntura política não tem sido capaz de comover a opinião pública.
A atual indiferença em relação à verdade traz alguns fortes elementos de Orwell. Embora a “pós-verdade” descarte o autoritarismo típico das ditaduras militares e dos estados totalitários, é severamente marcada pelo desarranjo entre a realidade dos fatos e aquilo que vem a substituí-la: a propaganda. Nesse sentido, em se tratando da proposição das reformas e dos projetos de seu interesse, o governo se favorece de “verdades” oficiais desconectadas da realidade. Analisem-se as reformas trabalhista e previdenciária e as propostas de massivos cortes nos gastos estatais. Prefere-se o boato ao fato; o tecnicismo à franqueza; a emoção à razão.
A reforma da legislação trabalhista, anunciada pelo governo federal como um “belíssimo presente de Natal”, promete modernizar as leis laborais e, com isso, proporcionar condições vantajosas para a geração de empregos. Todavia, além de não estimular a elevação do nível de empregabilidade, o plano governista, ao tornar prevalecente o negociado sobre o legislado, corrói direitos históricos e dissolve a proteção trabalhista característica da legislação estatal. Permitir a livre negociação em detrimento da lei esconde uma verdade secular: disputas entre Davi e Golias tendem a produzir resultados opostos ao milagre bíblico.
O “rombo” da Previdência é mais um caso de “pós-verdade” axiomática a qual alicerça as pretensões governistas. O slogan oficial dela se aproveita: “é preciso reformar para manter“. Trata-se de uma suposta verdade, oriunda de fontes oficiais, mas contestada até mesmo por órgãos e entidades conectadas ao governo: a Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) afirma que a Previdência não é deficitária; pelo contrário, opera em condição superavitária, conforme estudo publicado anualmente (Análise da Seguridade Social 2016/2017). Ademais, a reforma, nos moldes aventados, apresenta-se de todo injusta para os mais pobres. Afinal, a Previdência – notório instrumento de distribuição de renda e de controle das desigualdades sociais – será transformada num imposto sobre a vida: paga-se enquanto se respirar.
Não custa lembrar que até mesmo a nomenclatura das repartições estatais é paradoxal: assim como na ficção de 1984, onde o Ministério da Paz concebe a guerra, e o da Verdade, a censura, no Brasil de 2017 o Ministério do Trabalho deteriora a proteção laboral, e a Secretaria da Previdência, a aposentação.
A “pós-verdade” não para por aí. A imposição de limites rígidos aos gastos públicos soa bastante audível à opinião pública, sobretudo em tempos de recessão e reverberação midiática de corrupção sistemática no setor público. Essa meia-verdade serviu de pretexto para a aprovação da Emenda Constitucional nº 95, cuja política de redução de despesas e investimentos por duas décadas vai de encontro à rejeição mundial ao regime de arrocho fiscal, comprovadamente uma das maiores causas da estagnação econômica. Trata-se de uma restrição severa que acomete direitos sociais, atrofia o Estado e sacrifica os mais pobres.
Claro está, portanto, que o governo federal vem capitulando o desmonte do estado social por meio de um processo de desconstitucionalização de direitos fundamentais estatuídos a duras penas na Constituição de 88. O que surpreende, porém, é a facilidade com que os fatos são manipulados e falsamente propagados pelos veículos oficiais, bem como pela grande mídia, principal advogada da ideia de que pobres devem suportar o ônus da crise econômica. Talvez Orwell não tenha imaginado que, em 2017, a coerção e o açoite seriam desnecessários.
André Muniz Cavalcanti é Servidor Público Federal e Tiago Muniz Cavalcanti é Procurador do Trabalho.
Julião
16 de março de 2017 9:12 pmManifestações de 15/03/2017
Artigo excelente!
As manifestações de ontem, que foram totalmente ignoradas pela “midia brasileira”, o PIG, representa o contexto completo do artigo.
Teremos que pegar estes FDP e acabar com eles, antes que eles acabem conosco e com o país!
Frederico69
16 de março de 2017 10:54 pmé verdade!
CB
16 de março de 2017 9:25 pmDesde os tempos da farsa do
Desde os tempos da farsa do Mensalão, lá em 2005, eu estou enchendo o saco de todo mundo comparando a situação com o 1984, por conta do uso que a classe dominante faz da mídia, do controle e manipulação das informações e até da história para controlar a sociedade. Aquilo que aconteceu ontem, especialmente na av Paulista, seria capa de todos os jornais e assunto principal dos telejornais se a avenida estivesse tomada por midiotas com camisetas da cbf.
Nick
16 de março de 2017 9:44 pmA cada dia, o Brasil esta
A cada dia, o Brasil esta parecendo-se com o fime o ficticio ”Brazil” do filme Brazil de Terry Gilliam. Lula que o diga. Filme profético.
O. Lima Duartte
16 de março de 2017 9:55 pmA grande imprensa, tambem
A grande imprensa, tambem chamada por PIG por aqueles que discordam de suas filosofias de trabalho, é formada por várias empresas, dentre elas as mais famosas são a Globo, Band, SBT, RedeTV, TV Cultura, O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo, Veja. Isto é etc… Vamos pegar a Globo, taxada de ser a principal empresa de comunicação responsável por uma série de gravíssimos problemas, dentre deles o relacionado com questionável golpe de estado. Muito bem. O que é uma empresa senão mais do que todos os cidadãos que lá trabalham / colaboram e dão força, no caso ao conglomerado Globo? Vejamos então quem são essas pessoas, pelo menos as mais ícones: Francisco Cuoco, Débora Secco, Camila Pitanga, Faustão, Glória Menezes, Regina Duarte e família, William Bonner, Fátima Bernardes, Miriam Leitão, Jô Soares, Tarciso Meira e família, Mário Lago, Fernanda Montenegro e toda a sua família, Paulo Autran, Stenio Garcia, Nicetti Bruno e família, Miguel Falabella, Christiane Torloni, José Mayer, Claudia Raia, Antonio Fagundes, Laura Cardoso, Lima Duarte, Elizabeth Savalla, Gloria Pires, Tony Ramos, Fulvio Stefanini, Ney Latorraca, Jose de Abreu, Lilia Cabral, Eva Wilma, Marco Nanine, Reginaldo Faria, Chico Anisio, Francisco Milani, Paulo Betti, Carlos Vereza, Malu Mader, Osmar Prado, Vera Fisher, Marieta Severo, Eva Todor, Marilia Pera, Susana Vieira, Ary Fontoura, Betty Faria, Mauro Mendonça, Yoná Magalhães, Beatriz Segall, Elias Gleizer, Giovanna Antonelli, Juca de Oliveira, Milton Gonçalves, Irene Ravache, Ivete Sangalo, Vitor e Léo, Chitãozinho e Xororó, Sérgio Mamberti, Herson Capri, Araci Balabanian, Adriana Esteves… etc etc etc… Será que esses artistas, a maioria intelectuais sabedores de suas funções numa sociedade democrática, doariam seus nomes, suas vidas práticamente a uma empresa altamente perniciosa mais parecida com uma gang como dizem por ái? Não seriam artistas então. Seriam aberrações da natureza apoiando um conglomerado empresarial inbuído em deteriorar uma nação? Ou será que existe alguma coisa exageradamente desvirtuada nas análises de seus não admiradores?
mauro silva 1
16 de março de 2017 10:15 pmfalência moral das instituições
de que serve um judiciário composto por marajás vagabundos, que só pensam no contra-cheque do próximo mês, recheado de ‘indenizações’ isentas de imposto de renda, e na próxima viagem a miami onde vão esconder as propinas recebidas?
de que serve uma polícia política de inspiração fascista?
de que serve um legislativo que não passa de um balcão das mais torpes negociatas?
de que serve um executivo formado, na sua quase totalidade, por bandidos?
de que servem polícias repressivas formada, basicamente, por jagunços fardados?
se o povo não tomar as ruas, e delas as rédias do seu destino, da forma que for, pagará caro sua omissão com a própria escravidão.
ou a liberdade ou a canalha. uma é impossível com a existência da outra.
J.Conselheiro
16 de março de 2017 10:39 pmMídia
A mídia brasileira representada pela Globo sites como UOL e jornalões são tão parciais que sinto medo de verdade em abrir um jornal ou um site para ler uma notícia lá publicada. É inexplicável mais verdadeiro meu medo é real porisso tenho evitado lê-los.