Carney rasga a máscara do império: acabou o pacto e a farsa, começou a chantagem
por Gustavo Tapioca
O discurso de Donald Trump, em Davos, expôs ao vivo a falência moral e política do projeto que pretende impor ao mundo. Entre ameaças, chantagens e o velho delírio imperial travestido de “patriotismo”, Trump reafirmou a doutrina do ultimato: obedeça ou sofra as consequências.
Foi exatamente esse mecanismo — a transformação do comércio, da diplomacia e até da soberania em instrumentos de coerção — que Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, denunciou com precisão cirúrgica. Em Davos, Carney anunciou o que muitos evitavam dizer em voz alta: a “ordem baseada em regras” acabou. E, com ela, acabou o teatro.
O Fórum Econômico Mundial, em Davos, foi palco de uma confissão histórica: a ordem internacional “baseada em regras” era, em parte, uma mentira administrada. Um teatro funcional. Um pacto silencioso para manter o mundo operando. Mas, no discurso de Mark Carney encenação é declarada morta. O que entra em seu lugar é a era Trump em estado puro: coerção, tarifas como arma, soberania sob ameaça e um imperialismo que já não precisa fingir que respeita limites.
A “ordem baseada em regras” era uma mentira útil — e nós aceitamos viver dentro dela
Carney não começa com diplomacia. Começa com uma sentença de sinceridade brutal.
Sim: nós sabíamos que a história da “ordem baseada em regras” era parcialmente falsa. Sabíamos que os mais fortes escapariam delas quando fosse conveniente. Sabíamos que as regras do comércio eram aplicadas de forma assimétrica. Sabíamos que o direito internacional era invocado com rigor variável, dependendo de quem era a vítima e de quem era o acusado.
E, mesmo assim, o mundo seguia.
Porque aquela mentira tinha função. Era o “pacto” que permitia previsibilidade mínima. A farsa era o amortecedor. A hipocrisia era a engrenagem que evitava o colapso. Carney diz isso sem floreio: a hegemonia americana — apesar dos abusos — forneceu “bens públicos” ao sistema: rotas marítimas seguras, um sistema financeiro relativamente estável, uma arquitetura de segurança coletiva e um conjunto de mecanismos de resolução de disputas.
Por isso, diz Carney, “pusemos o letreiro na janela”. Participamos dos rituais. E, na maior parte do tempo, evitamos apontar o abismo entre o discurso e a realidade.
Até que veio o trumpismo.
O momento em que o império decide parar de fingir
O que Carney chama de “fim do pacto” é o que o mundo sente como vertigem histórica: não se trata apenas de mais um ciclo político em Washington. Trata-se de uma mutação do próprio comportamento imperial.
Antes, o império precisava do verniz moral. Precisava do idioma da “democracia”, da “liberdade”, das “regras”, da “responsabilidade”. Mesmo quando violava esse idioma, ele o preservava como instrumento de legitimidade.
O trumpismo rompe essa obrigação.
Ele devolve a política internacional ao terreno nu e cru da coerção: manda quem pode, obedece quem precisa. E não pede desculpas. Ao contrário: exibe a brutalidade como virtude.
Carney descreve o presente como o fim de uma “ficção agradável” e o começo de uma “realidade dura”. O que isso significa, na prática? Significa que já não existe nem sequer o teatro que sustentava o sistema.
O mundo saiu da hipocrisia administrada e entrou na arbitrariedade declarada.
Tarifa não é imposto: é ultimato. Comércio não é acordo: é arma
O trecho mais revelador do discurso de Carney é quando ele identifica a mudança de natureza da economia global.
As tarifas deixam de ser política comercial e passam a ser instrumento de coerção. Cadeias de suprimento deixam de ser planejamento e passam a ser mecanismo de submissão. A integração econômica deixa de ser cooperação e passa a ser um sistema de alavancas usado para punir, chantagear e reordenar o tabuleiro a partir do interesse do mais forte.
Essa é a doutrina trumpista em estado bruto: o mundo não é uma mesa de negociação — é um ringue de pressão. E quem controla o acesso a mercados, tecnologia e financiamento controla o destino de países inteiros.
Não há nada de “loucura” nisso, no sentido clínico. Há método. Há projeto. Há cálculo.
A “loucura” trumpista é, na verdade, a racionalidade da chantagem.
Tucídides volta a governar: “os fortes fazem o que podem, os fracos sofrem o que devem”
Carney recorre ao clássico para traduzir a barbárie moderna: o mundo voltou a ser lembrado diariamente do princípio de Tucídides — “os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem”.
Mas ele não recorre a isso para celebrar o cinismo. Pelo contrário: para denunciar o que o cinismo produz.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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+almeida
23 de janeiro de 2026 11:56 amPenso que, se os verdadeiros patriotas norteamericanos, não cassarem o trumpismo mafioso e ditador, do poder, e deixarem de cobrar financeiramente e criminalmente por todos os abusos e prejuízos causados ao país e ao mundo, certamente será mais um império destroçado e sucumbido, como tantos outros que recheiam a história universal.