17 de agosto de 2026

Como a nova geração vê a geopolítica mundial, por Francisco Ladeira

Os imaginários geopolíticos da nova geração foram formados com base nos conteúdos presentes na chamada grande mídia brasileira
Reprodução

Pesquisa mostra que estudantes formam imaginários geopolíticos influenciados pela grande mídia brasileira, como Globo e Folha.
Conflito em Gaza aumentou interesse pela geopolítica e reduziu efeito das narrativas midiáticas tradicionais entre jovens.
Redes sociais ajudam a desconstruir narrativas sobre Gaza, mas fake news sobre Irã e Coreia do Norte persistem entre estudantes.

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Das manchetes da Globo aos feeds do Instagram: como a nova geração vê a geopolítica mundial

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por Francisco Fernandes Ladeira

Como são formados os imaginários geopolíticos de estudantes do ensino médio a partir das informações que consomem nos diferentes tipos de mídia? Esta foi uma das questões que busquei responder em minha pesquisa de mestrado, realizada em 2017. A pesquisa foi conduzida a partir da exibição de imagens e da aplicação de questionários. Foi constatado que os imaginários geopolíticos desse público (ou seja, as representações mentais e discursivas que orientam a leitura e a interpretação do espaço mundial) eram formados com base nos conteúdos presentes na chamada grande mídia brasileira – veículos como Globo, Folha e Veja.

Assim, atores geopolíticos e sistemas econômicos representados positivamente nos noticiários – como os Estados Unidos e o capitalismo – também foram vistos positivamente pelos participantes de minha pesquisa. Do mesmo modo, a Venezuela e a Civilização Islâmica, por exemplo, estigmatizadas constantemente nas telas da GloboNews ou nas páginas da Folha de São Paulo, foram percebidas de forma negativa pelos alunos. Na época, chamava atenção o fato de a geopolítica ser um assunto secundário nos noticiários, repercutindo no desinteresse do público de maneira geral.

Quase uma década depois, mudanças consideráveis ocorreram, tanto na geopolítica global quanto no ecossistema informacional. A intensificação do genocídio do povo palestino realizada pelo Estado de Israel, como reação à Operação Dilúvio de Al-Aqsa, colocou a geopolítica no centro das discussões da agenda pública global. Consequentemente, também aumentou o interesse das pessoas em saber o que acontece além das fronteiras brasileiras. Outro ponto a se destacar foram as inúmeras matérias, reportagens e artigos de opinião presentes na internet que desconstruíam as narrativas midiáticas sobre “defesa de Israel” e “terrorismo palestino”.

Diante desse inédito quadro, os resultados da pesquisa de mestrado continuam válidos? Para responder a essa pergunta, em 2026, no pós-doutorado, me propus a fazer um estudo semelhante ao de quase dez anos atrás. E os resultados apurados me indicam que os estudantes do ensino médio já não são tão influenciados pelos discursos midiáticos. Especificamente sobre a geopolítica palestina, as imagens e vídeos que nos chegam da Faixa de Gaza não deixam margem para dúvida. É o primeiro genocídio televisionado e instagramável da história. Os alunos têm contato com essas visões alternativas e, assim, as manipulações midiáticas favoráveis à ideologia imperialista não surtem os mesmos efeitos de outrora.

Esse consumo das redes sociais também traz dados inusitados, captados pela pesquisa. Irã e Coreia do Norte – respectivamente rotulados como “ditadura teocrática” e “país mais fechado do mundo” – não estavam no foco dos noticiários internacionais quando finalizei a pesquisa de pós-doutorado, no início deste ano. Assim, as informações sobre essas nações eram escassas na mídia hegemônica (que pauta a agenda geopolítica) e na internet (responsável por repercutir o que é noticiado pelos grandes grupos de comunicação). Resultado: alguns estudantes, em suas respostas ao questionário proposto, reproduziram fake news sobre esses dois países asiáticos, como o serviço militar obrigatório para as mulheres no Irã ou a crença de que, se a casa de um norte-coreano pegar fogo, o morador precisa, antes de tudo, salvar a moldura da foto do presidente.

Essa aparente contradição – entre a eficácia das redes sociais para desconstruir a narrativa hegemônica sobre Gaza e sua ineficácia para corrigir distorções sobre Irã e Coreia do Norte – revela um fenômeno profundo e pouco discutido. Enquanto o genocídio em Gaza gera imagens contundentes, de alto impacto visual e fácil compartilhamento, que rompem a barreira editorial da mídia tradicional, os estereótipos sobre os países asiáticos são mais abstratos, consolidados historicamente no imaginário ocidental há décadas e, portanto, mais resistentes ao esforço de desinformação, o que torna as fake news sobre eles particularmente eficazes e difíceis de desmontar apenas com o acesso a dados alternativos.

Apesar das divergências, as conclusões das pesquisas de mestrado e pós-doutorado convergem para um ponto em comum: a importância das diferentes mídias na construção de imaginários sobre outros países, povos, religiões, civilizações e sistemas econômicos. Dessa forma, é importante que o professor de Geografia, ao abordar a temática geopolítica, também realize procedimentos de análise do discurso midiático em sala de aula. Isso demonstra que, no presente contexto, o Letramento Midiático e Informacional nas escolas é cada vez mais urgente e necessário, pois é preciso formar uma nova geração de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas críticos e conscientes, menos vulneráveis às diversas manipulações sobre a geopolítica global e outros assuntos.

Afinal, como evidenciam os contrastes entre a cobertura de Gaza e a dos países asiáticos aqui citados, o problema não reside apenas no que a mídia hegemônica mostra, mas também no que ela silencia – e as redes sociais, por si sós, não resolvem essa equação sem uma mediação crítica e escolarizada que ensine os jovens a ler nas entrelinhas de ambos os ecossistemas informacionais.

***

Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto

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