Das manchetes da Globo aos feeds do Instagram: como a nova geração vê a geopolítica mundial
por Francisco Fernandes Ladeira
Como são formados os imaginários geopolíticos de estudantes do ensino médio a partir das informações que consomem nos diferentes tipos de mídia? Esta foi uma das questões que busquei responder em minha pesquisa de mestrado, realizada em 2017. A pesquisa foi conduzida a partir da exibição de imagens e da aplicação de questionários. Foi constatado que os imaginários geopolíticos desse público (ou seja, as representações mentais e discursivas que orientam a leitura e a interpretação do espaço mundial) eram formados com base nos conteúdos presentes na chamada grande mídia brasileira – veículos como Globo, Folha e Veja.
Assim, atores geopolíticos e sistemas econômicos representados positivamente nos noticiários – como os Estados Unidos e o capitalismo – também foram vistos positivamente pelos participantes de minha pesquisa. Do mesmo modo, a Venezuela e a Civilização Islâmica, por exemplo, estigmatizadas constantemente nas telas da GloboNews ou nas páginas da Folha de São Paulo, foram percebidas de forma negativa pelos alunos. Na época, chamava atenção o fato de a geopolítica ser um assunto secundário nos noticiários, repercutindo no desinteresse do público de maneira geral.
Quase uma década depois, mudanças consideráveis ocorreram, tanto na geopolítica global quanto no ecossistema informacional. A intensificação do genocídio do povo palestino realizada pelo Estado de Israel, como reação à Operação Dilúvio de Al-Aqsa, colocou a geopolítica no centro das discussões da agenda pública global. Consequentemente, também aumentou o interesse das pessoas em saber o que acontece além das fronteiras brasileiras. Outro ponto a se destacar foram as inúmeras matérias, reportagens e artigos de opinião presentes na internet que desconstruíam as narrativas midiáticas sobre “defesa de Israel” e “terrorismo palestino”.
Diante desse inédito quadro, os resultados da pesquisa de mestrado continuam válidos? Para responder a essa pergunta, em 2026, no pós-doutorado, me propus a fazer um estudo semelhante ao de quase dez anos atrás. E os resultados apurados me indicam que os estudantes do ensino médio já não são tão influenciados pelos discursos midiáticos. Especificamente sobre a geopolítica palestina, as imagens e vídeos que nos chegam da Faixa de Gaza não deixam margem para dúvida. É o primeiro genocídio televisionado e instagramável da história. Os alunos têm contato com essas visões alternativas e, assim, as manipulações midiáticas favoráveis à ideologia imperialista não surtem os mesmos efeitos de outrora.
Esse consumo das redes sociais também traz dados inusitados, captados pela pesquisa. Irã e Coreia do Norte – respectivamente rotulados como “ditadura teocrática” e “país mais fechado do mundo” – não estavam no foco dos noticiários internacionais quando finalizei a pesquisa de pós-doutorado, no início deste ano. Assim, as informações sobre essas nações eram escassas na mídia hegemônica (que pauta a agenda geopolítica) e na internet (responsável por repercutir o que é noticiado pelos grandes grupos de comunicação). Resultado: alguns estudantes, em suas respostas ao questionário proposto, reproduziram fake news sobre esses dois países asiáticos, como o serviço militar obrigatório para as mulheres no Irã ou a crença de que, se a casa de um norte-coreano pegar fogo, o morador precisa, antes de tudo, salvar a moldura da foto do presidente.
Essa aparente contradição – entre a eficácia das redes sociais para desconstruir a narrativa hegemônica sobre Gaza e sua ineficácia para corrigir distorções sobre Irã e Coreia do Norte – revela um fenômeno profundo e pouco discutido. Enquanto o genocídio em Gaza gera imagens contundentes, de alto impacto visual e fácil compartilhamento, que rompem a barreira editorial da mídia tradicional, os estereótipos sobre os países asiáticos são mais abstratos, consolidados historicamente no imaginário ocidental há décadas e, portanto, mais resistentes ao esforço de desinformação, o que torna as fake news sobre eles particularmente eficazes e difíceis de desmontar apenas com o acesso a dados alternativos.
Apesar das divergências, as conclusões das pesquisas de mestrado e pós-doutorado convergem para um ponto em comum: a importância das diferentes mídias na construção de imaginários sobre outros países, povos, religiões, civilizações e sistemas econômicos. Dessa forma, é importante que o professor de Geografia, ao abordar a temática geopolítica, também realize procedimentos de análise do discurso midiático em sala de aula. Isso demonstra que, no presente contexto, o Letramento Midiático e Informacional nas escolas é cada vez mais urgente e necessário, pois é preciso formar uma nova geração de leitores, ouvintes, telespectadores e internautas críticos e conscientes, menos vulneráveis às diversas manipulações sobre a geopolítica global e outros assuntos.
Afinal, como evidenciam os contrastes entre a cobertura de Gaza e a dos países asiáticos aqui citados, o problema não reside apenas no que a mídia hegemônica mostra, mas também no que ela silencia – e as redes sociais, por si sós, não resolvem essa equação sem uma mediação crítica e escolarizada que ensine os jovens a ler nas entrelinhas de ambos os ecossistemas informacionais.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto
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