Ódio à Argentina, algoritmos e “xenofobia do bem”
por Francisco Fernandes Ladeira
Na última edição da Copa do Mundo, a torcida mais estridente, pelo menos nas redes sociais, não foi pela seleção brasileira, eliminada já nas oitavas de final, mas sim contra a Argentina. O principal argumento é que os argentinos (de maneira generalizada mesmo) são racistas. Além disso, via internet, circularam várias teorias da conspiração, desde sobre o Mundial ser armado para o time de Messi ser campeão até a Argentina ser uma seleção a serviço do lobby sionista – e, o que é pior, trata-se de um delírio elaborado por quem se diz à esquerda do espectro político.
Dessa forma, impulsionado e estimulado por algoritmos com o objetivo de “ver o circo pegar fogo”, foi alimentado um discurso de ódio aos argentinos, o que chamo de “xenofobia do bem”. Ao contrário dos discursos de ódio clássicos, que se vendem enquanto tal, a “xenofobia do bem” se coloca como a serviço da justiça social, travestida de bom senso.
Até sua própria novilíngua esse discurso possui. Numa postagem no Instagram que ressaltava o engajamento do músico argentino Charly García contra a ditadura militar em seu país, um adepto da “xenofobia do bem” comentou: “sem argentinawashing aqui, por favor”. Como se o país tivesse cometido as maiores atrocidades da história e agora estivesse querendo limpar sua barra.
No aspecto esportivo, não é difícil entender os motivos para essa onda de “xenofobia do bem”, evidentemente sem querer justificá-la. Quando a seleção argentina ficou três décadas sem conquistar um título de expressão, eles não eram “sujos”, “racistas” ou “antidesportivos”. Bastou ganharem uma Copa do Mundo e chegarem à final em outra.
Mas a “xenofobia do bem” ganhou força, sobretudo, após a eliminação do Brasil. Para não enxergarmos nossos próprios erros, passamos a atacar o vizinho. É mais cômodo.
Os algoritmos ajudaram a insuflar a “xenofobia do bem”. No entanto, trata-se de algo inerente ao ser humano. Como dizia Nietzsche: “demasiadamente humano”. Por falar nisso, o filósofo alemão chamava de “instinto de rebanho” essa nossa prática de acompanhar o que pensa a maioria. Se está todo mundo xingando a Argentina e Messi nas redes sociais, não posso ficar de fora.
Freud também já alertava sobre como o indivíduo se comporta ao fazer parte de uma massa, sendo capaz de atitudes que ele jamais tomaria por si só. Não por acaso, pessoas aparentemente tranquilas também embarcaram na “xenofobia do bem”; em muitas oportunidades com os textos mais raivosos. E tome algoritmo colocando lenha na fogueira. Remetendo novamente ao pai da psicanálise e seu clássico “O mal-estar na Civilização”, as pessoas se unem muito mais no ódio (à Argentina) do que no amor (à seleção brasileira). Sigmund ficaria impressionado com a cultura do cancelamento.
A “xenofobia do bem” também tem seu teor de inveja. Independentemente da qualidade da equipe, de determinadas posturas antiesportivas ou dos erros de arbitragem, a seleção argentina chamou a atenção na Copa do Mundo por dois motivos: a entrega dos jogadores em campo – superando suas limitações físicas – e a vibração da torcida nas arquibancadas – gerando uma atmosfera clubística, incomum em Mundiais. A participação brasileira foi exatamente o oposto: jogadores e torcida apáticos. Esse ódio à Argentina não seria uma espécie de desejo de que eles sejam aquilo que queríamos ser?
Os adeptos mais descolados da “xenofobia do bem” utilizaram como justificativa para o ódio à Argentina o fato de o país ser governado por Javier Milei. Uma personalização sem sentido. Nessa mesma linha de raciocínio, durante quatro anos tivemos Jair Bolsonaro como presidente. O que se aplica nesse caso? Fomos racistas nesse período? “Auto-xenofobia do bem”?
Em última instância, essa animosidade entre Brasil e Argentina, incentivada pelos inocentes úteis adeptos da “xenofobia do bem”, só interessa ao imperialismo estadunidense. Dividir os oprimidos e incentivar o ódio entre eles para melhor dominá-los. Eis a receita que, infelizmente, rege as relações entre países centrais e periféricos há séculos.
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Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado do IFMG – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Unicamp. Autor do livro “Palestina na geopolítica global Pós-2023: Narrativas e Contranarrativas” (Editora CRV)
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