Versão atualizada em 19/06 a pedido do autor
por Michel Aires de Souza Dias[1]
O sociólogo Alemão Norbert Elias em seu livro, O processo civilizador: uma história dos costumes, descreveu de forma profunda o processo psíquico civilizador. Na história da civilização ocidental nem sempre fomos tão amáveis e educados, nem sempre fomos tão comportados e asseados, nem sempre fomos tão dóceis e gentis. Para compreender o que somos temos que compreender o que fomos. Esse foi o objetivo de Elias, compreender como nos tornamos civilizados. Para isso, ele procurou analisar a história da nossa vida afetiva, procurou analisar a história dos sentimentos de vergonha, de repugnância, de limpeza, de delicadeza, de desagrado e medo. Em suma, ele fez uma genealogia de nossos sentimentos morais mais profundos. Seu foco de análise foi as interações sociais. Essas interações produziram padrões de comportamentos, que ajudaram a moldar as estruturas sociais. Essas estruturas, por sua vez, se materializam em representações, hábitos, valores e formas de conduta.
Se pudéssemos nos transportar para a idade média, no século XVIII, ficaríamos impressionados, sentiríamos certa repugnância quanto aos hábitos daquelas pessoas. Se entrássemos em uma estalagem na idade média, veríamos muitos homens à mesa, comendo com as mãos, servindo-se todos numa mesma travessa e bebendo vinho em um mesmo cálice. Veríamos também alguns assoando o nariz na toalha da mesa e outros assoando com as mãos. Muitos pigarreavam e escarravam no chão. Pode ser que um deles tirasse a bota e colocasse sobre a mesa. Outros estariam soltando gases sem constrangimento. Ao comer, alguns estariam estalando os beiços. A maior parte deles estaria conversando com a boca cheia. Veríamos muitos arrotando. Sentiríamos um fedor de alho e cebola no ar. Não havia nada de civilidade naqueles homens, e eles não sentiam nenhum constrangimento quanto a isso. As pesquisas de Elias mostraram que os sentimentos de repugnância, vergonha, desagrado e nojo só se cristalizaram na mente dos indivíduos mais tarde, sendo importantes no processo civilizador, uma vez que moldaram o nosso comportamento e a estrutura de nossa mente.
Na história da civilização ocidental as mudanças de comportamentais se deram a passos lentos. Os processos psíquicos foram mudando gradualmente no curso dos séculos. Elias foi capaz de observar os homens à mesa, na cama, no interior da casa, no campo e na cidade, em conflitos e em guerras. Nestas atividades os indivíduos foram mudando lentamente seus sentimentos e atitudes. As mudanças constantes nas estruturas da civilização ocidental mudaram também os padrões de comportamento e a constituição psíquica dos indivíduos. Ao viver em sociedade é natural que todo ser humano sofra influência e seja modelado pelo comportamento dos outros, nenhum ser humano nasce pronto e acabado, somos modelados desde o nosso nascimento. Levando em consideração esse postulado, Elias buscou em manuais de etiqueta, livros de comportamento, pinturas e documentos históricos as razões que foram moldando o comportamento humano
A ideia de bom comportamento só começou a aparecer na idade média, em manuais procedentes das cortes da nobreza guerreira. Nesses manuais se ensinavam boas maneiras à mesa, como lavar as mãos antes da refeição, não roer os ossos a mesa, não limpar o nariz com as mãos, não pigarrear, não falar demais, não limpar os dentes com a faca, não cuspir por cima da mesa, não soltar gases, não oferecer o resto da sopa a outrem, não se enraivecer, sorrir sempre e ser cortês. Foi, portanto, com a nobreza que surgiu a cortesia. O conceito de courtoesie (cortesia) não só expressava a autoconsciência aristocrática, mas também expressava uma mudança na mentalidade e nos sentimentos do homem medieval. Com essa nova mentalidade, certos grupos importantes do estrato secular superior, que gravitavam em torno dos grandes senhores feudais, designavam o que os distinguia da demais classes sociais. Esses valores e códigos das grandes cortes feudais se disseminaram para estratos da população cada vez mais amplos.
Na avaliação de Elias, o que faltava nesse mundo cortês eram as barreiras emocionais que separavam um indivíduo do outro. Não existia ainda o condicionamento dos sentimentos, que nos faz ter nojo de qualquer objeto que tenha tocado as mãos ou a boca de outro indivíduo. Esse condicionamento só começa a se desenvolver na renascença, onde o embaraço, a vergonha e repugnância começaram a fazer parte das relações sociais. Por esta razão, surgiu no século XVI uma nova sensibilidade, que começou a se universalizar e que teve como expressão o conceito de civilité (civilidade). Esse conceito surge com os humanistas e substitui o conceito de cortesia.
A principal obra analisada por Elias foi a obra do humanista Erasmo de Rotterdam, De civilitate morum puerilium (Da civilidade em crianças), publicado em 1530. Esse livro teve mais de 130 edições e foi publicado até o século XVIII. O pequeno tratado teve como objetivo “a função de cultivar os sentimentos de vergonha”. Mas, acima de tudo, era um trabalho de compilação de boas e más maneiras que Erasmo tirou da própria vida social. Neste sentido, o tratado expressava as mudanças de seu próprio tempo.
No século XVI, houve uma grande transformação na sociedade. Os valores do individualismo passaram a ser preponderantes e o comportamento e as boas maneiras ganharam grande notoriedade, de tal modo que, mesmo pessoas de grande talento e renome não eram capazes de ignorá-las. O tratado de Erasmo surge numa época de mudança social. É a expressão de um frutífero período de transição onde a sólida hierarquia social estava se desfazendo. Pertence a uma fase em que a velha nobreza de cavaleiros feudais estava ainda em declínio, enquanto se encontrava em formação a nova aristocracia das cortes absolutistas.
No livro de Erasmo são ensinadas regras de como se comportar a mesa, como se sentar, como cumprimentar, como se vestir, que cuidado devemos ter com os gestos ou com o olhar. É um manual para a educação de crianças. A obra foi escrita para um menino nobre, filho de um príncipe. O pequeno tratado fala de atitudes que perdemos e que aos nossos olhos são entendidos como “bárbaros” ou “incivilizados”. Muitos dos ensinamentos são parecidos com os nossos, mas outros são muito diferentes. Apesar de representar um avanço nas formas de lhe dar com o corpo, com a limpeza e com as boas maneiras, são ainda formas rudimentares de comportamentos se comparados aos do homem contemporâneo. O Tratado aconselha, por exemplo, que não devemos pegar a carne com cinco dedos, mas apenas com três dedos. Este é um sinal de distinção que separa a classe nobre da classe baixa. Mesmo não existindo sabonete, aconselhava-se a lavar as mãos antes das refeições. A água usada geralmente era perfumada com camomila. Quando os dedos ficavam engordurados aconselhava-se não os lamber ou enxugá-los no casaco, mas sim num pano qualquer. Também se aconselhava que não devemos dar a carne que estamos comendo ao outro, pois é falta de decoro oferecer carne mastigada a quem se gosta. O manual também dizia que não era educado expor as partes íntimas. Algo bastante comum naquela época.
Apesar de nossa visão etnocêntrica, que nos leva a pensar que aqueles hábitos eram primitivos, Elias argumentou que o comportamento dos medievais eram naturais e socialmente aceitáveis. Não existia o sentimento de repugnância. O sentimento de nojo, repugnância ou vergonha não são sentimentos naturais, mas foram construídos socialmente, são típicos do homem moderno civilizado. Na época de Erasmo, todos comiam com as mãos, mesmo o rei e a rainha. Todos bebiam em canecas comuns. Praticamente não existiam garfos e quando havia eram para tirar carnes das travessas. Foi somente no século XVI que o garfo surgiu para tirar alimentos dos recipientes. O garfo era ainda artigo de luxo no século XVII. Também quase não existem pratos. As pessoas usavam colheres e facas em comum. Quando a carne chegava à mesa, cada pessoa pegava-a com as mãos. Os dedos eram frequentemente enfiados no caldo da travessa para molhar o pão. Os indivíduos também assoavam o nariz com as mãos, da mesma forma que comiam com elas. A sensação de nojo que experimentamos hoje nem sequer existia naquela época.
O homem medieval também não tinha nenhum pudor quanto à nudez de seu corpo. Ficar nu na frente dos outros era algo natural. Por esta razão, o tratado de Erasmo aconselhava a não expor as partes intimas. Esse conselho começou a surgir em vários manuais a partir do século XVI. O pudor só começa a surgir no século XVI e somente se tornou um sentimento internalizado a partir do século XVII. Antes disso, não existia o sentimento de vergonha do corpo e das partes íntimas expostas. Na verdade, a exposição do corpo era uma “regra diária” que perdurou até o final da idade média. As pessoas geralmente dormiam nuas e andavam sem roupa em casa e em seu entorno. A camisola só apareceu no século XVI, na mesma época em que surgiu o garfo, o lenço e outros objetos da vida civilizada.
Outro fato que espanta o homem contemporâneo, é a extrema agressividade da época medieval. A pilhagem, a guerra, as vinganças, os estupros, a caça de homens e animais eram comuns na idade média. Atacar igrejas, atacar peregrinos, atacar oprimidos, viúvas e órfãos, mutilar inocentes eram acontecimentos diários, geralmente praticados pela classe guerreira. Não existiam instituições que pudessem impedir as atrocidades, não existia poder social punitivo. O vitorioso de hoje era derrotado amanhã por algum acidente, capturado e sua vida corria perigo. No meio dessas perpétuas ascensões e quedas, dessa alternância de caçadas humanas. pouco podia ser previsto. O futuro era relativamente incerto mesmo para os que haviam fugido do mundo. Só Deus e a lealdade de algumas pessoas tinham alguma permanência. O medo reinava em toda parte e o indivíduo tinha que estar sempre em guarda.
O que estava acontecendo na época de Erasmo era uma tendência cada vez maior das pessoas se observarem, de se moldarem umas às outras, de fazerem pressão reciprocamente umas sobre as outras. O indivíduo passa a controlar mais seu comportamento, a coação é muito maior do que na época das cortes medievais. As boas maneiras começam a se tornar exigências do convívio social. Se Erasmo se dedicou a escrever um livro sobre boas maneiras, foi porque o bom comportamento tinha se tornado importante naquela época. E tinha se tornado importante justamente porque surgia uma nova aristocracia: as cortes absolutistas.
No tratado de Erasmo já havia uma preocupação com o controle das emoções e dos impulsos agressivos. O indivíduo civilizado devia ser dócil e amável com todos. Não devia dizer nada que pudesse provocar conflito ou irritar. Além disso, aconselhava-se que devemos ser tolerantes com as ofensas dos demais. Se um companheiro não se comporta bem, devemos aceitar, uma vez que ele deve compensar a rusticidade de seu comportamento com outros talentos. Da mesma forma aconselhava o diálogo com quem nos ofende.
Elias analisou grande parte dos manuais produzidos até o século XVIII, como livros, tratados ou panfletos sobre civilidade. O que ele percebeu foi que nessa época esses manuais já se dirigiam claramente a moradores de pequenas cidades das províncias. As formas de comportamento ensinadas nesses manuais surgem na classe aristocrática e, posteriormente, se generalizam por toda sociedade. Na medida em que se popularizam, demonstram com grande clareza a disseminação dos costumes, de cima para baixo. Isso significa que nossos hábitos civilizados, como comer com garfo, colher, faca, e ter boas maneiras, assim como nossos valores morais, provém da nobreza, disseminada posteriormente pela burguesia.
Outra descoberta de Elias, foi a de que esses rituais de bom comportamento não surgiram por causa do nosso medo de contrair doenças, mas surgiram do nosso sentimento de repugnância. Foi uma mudança nos nossos impulsos e emoções. Os sentimentos de nojo se tornaram institucionalizados. O desagrado, a antipatia, a repugnância, o medo ou a vergonha foram alimentados e reproduzidos tornando-se ritualizados. Algumas formas de comportamento foram proibidas não porque eram anti-higiênicas, mas porque eram feias à vista e geravam associações desagradáveis. Mas esses padrões não surgiram da noite para o dia. Foi preciso séculos para que esse controle recíproco de uns sobre outros produzissem padrões de conduta.
Os manuais de boas maneiras serviram para Elias como um instrumento para se entender, em cada época, os padrões de hábitos e comportamentos a que a sociedade procurou acostumar os indivíduos. Significa dizer que cada época condicionou e modelou os indivíduos tentando dissuadi-los a não se comportarem de certa maneira, mas sim de acordo com os hábitos, regras e tabus vigentes. Nesse sentido, Elias conseguiu compreender como os homens abandonaram seus impulsos naturais incivilizados e os transformaram em comportamentos civilizados.
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Referências
ELIAS, Nobert. O processo civilizador: uma história dos costumes. Vol 1. Rio de janeiro: Jorge Zahar, 1994.
[1] Doutor em educação pela Universidade de São Paulo (USP)
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Antonio Uchoa Neto
18 de junho de 2022 11:20 amConfesso que, à medida que lia o texto, aguardava a qualquer momento ver surgir a confissão de que tudo se tratava de uma imensa e mordaz ironia; o cabeçalho indicava isso. Nem sempre fomos tão amáveis e educados…mas, somos amáveis e educados? Somos comportados e asseados, dóceis e gentis?
Fossem vivos, Erasmo e Elias, e eu os convidaria a passar uma semana num grotão de pobreza à brasileira. E isso não é ser politicamente incorreto; é apenas recusa de ter uma visão edulcorada das coisa, a pobreza inclusive.
Bom, admitamos que parte de nós, de fato, ostentem essas qualidades. Elas só teriam serventia, e valor, supostamente, assimiladas e praticadas por indivíduos vivendo em sociedade. Quando Norbert Elias morreu, em 1990, a santa padroeira do liberalismo hoje vigente e dominante no mundo, a sra. Margaret Thatcher, já havia decretado a inexistência da sociedade, e o domínio do indivíduo sobre o planeta. O google informa que Elias julgava que sociedade e indivíduo eram indissociáveis, embora diferentes; não existindo sociedade, somente indivíduos, para que servem as boas maneiras, num plano mais mundano, e a Moral, em sentido mais amplo?
Elias é um filho da Europa, tanto quanto Margaret Thatcher. Eu vivo dizendo, enquanto gente como Elias vive perseguindo os sonhos impossíveis da civilidade, da igualdade, da fraternidade, a sra. Thatcher – e seus comparsas e semelhantes – se apoderam de todos os sonhos possíveis, transformando-os em sua propriedade, em fonte de seu poder, e de sua riqueza e conforto. Coisas que, ao contrário dos sonhos, enchem barriga.
E nós nos espelhamos nos europeus – e alguns, nos EUA, esse monstro super-europeu, como dizia Sartre, ou Frantz Fanon, não recordo com exatidão – em questões como a preservação do meio-ambiente, a civilidade, o respeito aos direitos humanos. PQP, apresentar europeus (e americanos, até um certo ponto) como campeões dessas nobres e dignas atitudes ou aspirações humanas (sonhos humanos, melhor dizendo) é o fim do mundo. Esses são os sonhos impossíveis, a qual eles não dão a menor importância, a ponto de nos conceder – até uma certa época e sob determinadas circunstâncias, eu suponho – algum protagonismo, ainda que trágico, nessas áreas. Fazemos nossa aparição nesse palco, carregando cadáveres ilustres, de Chico Mendes ao jornalista inglês e o indigenista mortos recentemente, enquanto eles ficam nas coxias, encarregados da produção diversionista que oculta sua presença e interesse – e participação – na atividade predatória na Amazônia. Damos uma fala ao nosso câncer presidencial – aquele mesmo que, há alguns anos, dizia que tínhamos que aceitar a realidade inescapável de que a Amazônia ‘não é mais nossa’ – para ele desancar o jornalista Philips com a fala presunçosa de que a ‘Amazônia é nossa, e não de vocês’. Uma mudança e tanto.
Esqueçamos os europeus – Sartre já recomendava isso em seu prefácio ao livro de Fanon, já lá se vão 61 anos. Esqueçamos os iluministas, com sua visão universalista, versão intelectual do ‘se é bom para os EUA, é bom para nós’, julgando que suas altas realizações civilizatórias são aplicáveis em toda parte do mundo, e que na verdade serviram para realizar, em nome de Deus e depois da civilização, uma obra de massacre e exploração do ser humano e do planeta que já dura mais de meio milênio.
O processo civilizatório é o de Darcy Ribeiro, que é o que nos interessa, aqui em nosso canto do mundo. É o de Caio Prado Jr., Milton Santos, Manuel Bomfim, Gilberto Freyre, e tantos outros que pensaram (ou procuraram pensar) o Brasil sem as amarras do pensamento europeu. É muito bom – e, até certo ponto, fácil – alcançar IDH invejável à custa de sangue, massacres, e roubo. Quero ver conseguirem isso dentro dos limites de seus próprios padrões éticos e morais.
Mas isso é um sonho impossível, e eles só se interessam pelos possíveis, e os executam à perfeição. Até que não reste mais nada para sonhar, e tudo que exista esteja sob posse deles.
André calmon
18 de junho de 2022 4:34 pmMuito bom. Excélente texto.