Contornando o pontilhado, por Clarisse Gurgel

Neste momento, de eterno retorno à “normalidade”, a rede Globo já começa a distinguir, assim como faz com Paulo Guedes e Bolsonaro, os pacifistas dos vândalos. É o termômetro americano, indicando quando a coisa começa a ferver.

Contornando o pontilhado

por Clarisse Gurgel

Todos, no Brasil, seja rico, seja pobre, conhecem o Mickey. Muitos têm o inglês americano como segunda língua, adoram Mc’Donalds, milkshake, hamburguer, esperam o Papai Noel, em dezembro, sob neves de algodão, e abdicam da água pela Coca Cola. São muitos também os índices que aproximam o Brasil dos EUA: de cirurgias plásticas, de consumo de celulares, de obesidade, de evangelização e de contágio por Coronavírus.

Bolsonaro também tem sua matriz nos EUA. Mas isto não se resume a Trump. Os dois são apenas as duas faces necessárias de um “acordo” histórico: de um lado, o colonizado, encarregado de manter a política sob custódia, na colônia; do outro, o colonizador, atento aos riscos à sua hegemonia imperial. Isto envolve a manutenção do domínio, – controle moral e físico sobre os inimigos -, e da direção – controle decisório -, dos EUA sobre os brasileiros. Qualquer coisa que extrapole este limite deve ser readministrada.

O acordo, em questão, envolve, portanto, um compromisso: não permitir que o Brasil se autodetermine, a partir de um enfrentamento real entre as forças que, nele, estão antagonizadas. Quais sejam, a oligarquia, a pequena, média e grande burguesia, os trabalhadores – dentre eles, a classe média, os aburguesados, os pequeno-burgueses, o funcionalismo público, os profissionais liberais, os camponeses, os índios, os negros, as mulheres, os LGBTs, os nordestinos, as empregadas domésticas, os informais pseudo-empreendedores -, a Igreja, o Jogo do Bicho, as milícias, as Forças Armadas, os capitães do mato, os juristas, os anarco-sindicalistas, os comunistas e os socialistas.

Segundo Padre Joseph Coblin, em seu livro sobre a Ideologia da Segurança Nacional, de 1978, a política, na democratização brasileira, foi substituída por um Estado de guerra e de mobilização geral permanente. Por isto, sua afirmação categórica, lá na década de 70, de que era preciso reconstruir a política, no Brasil.

Padre Coblin está falando do acordo acima, que fez com que a transição da Ditadura para a Democracia implicasse em uma modulação: a democracia viável. De tal modo, que o Brasil só pôde experimentar, até o momento, regimes autoritários ou um regime que comporte uma alternância de governos, delimitada entre aqueles que seguirão as diretrizes norte-americanas. Esta é a razão pela qual passamos de governo a governo sem que a estrutura se transforme. E isto explica, ao mesmo tempo, como, de um governo para outro, tudo pode mudar.

Deste modo, nada se altera, de fato, para que qualquer alteração seja possível. Basta observarmos a mudança de rumo que sofreu o Brasil, a partir da troca entre Lula/Dilma e Temer/Bolsonaro. Se os primeiros priorizavam o fortalecimento da América Latina, a proteção dos índios e o respeito à diversidade, os últimos, agora, focam na relação entre as américas, criminalizam os índios e aumentam os índices de violência a mulheres, negros e LGBTS.

Esta facilidade em mudar a política deve-se aos próprios limites impostos a ela, cujo exemplo pode estar no que podemos chamar de Esquerda Flexível, dedicada muito mais a políticas públicas, à criação de organismos alternativos e à atuação de ONGs, do que à instituição de novas regras para a consolidação de um aparelho estatal que obedecesse ao primado do social. E não estamos, aqui, reivindicando o Estado Permanente. Ao contrário. Mas uma máquina que busca se tornar dispensável precisa ser muito bem planejada e programada, de tal modo que sua obsoletização siga rumo ao seu fim e finalidade: o fim das classes, o fim de um sistema de explorados e exploradores.

Hoje, temos dois personagens, no Brasil, que atuam, cumprindo um mesmo papel, histórico: o Marketeiro-Agitador, que cumpre a tarefa de manter o Brasil em um constante ambiente de guerra interna, e o Gerente-Servil, aquele encarregado de implementar o projeto antigo de tornar o Brasil fonte de mão de obra barata e de riquezas naturais, que sirvam de escoadouro para o dinheiro circular, fazendo mais dinheiro.

O Garoto Propaganda da vez é Bolsonaro, o único capaz de imprimir um grau máximo a esta guerra interna, tendo em vista os desvios relativos que Lula e Dilma produziram à receita americana. O Gerente é Paulo Guedes, aquele que está conseguindo realizar as reformas encomendadas pelos EUA, no ritmo que Lula e Dilma não conseguiram. Não à toa, Guedes recebe a alcunha de SuperMinistro – o Superman.

Bolsonaro já cumpriu seu papel principal: manter viva a guerra interna aos comunistas para a esquerda seguir sob tutela. O determinante, agora, é descolar Guedes de Bolsonaro. Isto é o que a rede Globo tenta fazer. A mesma que se pretende  vanguarda da liberdade democrática é a que segue produzindo FakeNews acerca de todas as PECs que mexem na economia e no aparelho do Estado brasileiro. Assim como produziu notícias falsas sobre um tal rombo na previdência, a mesma heróica Globo mentiu, ao chamar de PEC de Ajuda aos Estados, um projeto de abandono dos entes da federação aos abutres do mercado financeiro.

Paulo Guedes está sendo indiciado por diversas acusações de corrupção, envolvendo concessões de estradas, em Curitiba, com empresas fantasmas, e fraudes em fundos de investimentos. Mas ninguém fala sobre isto porque Guedes ainda é necessário para os EUA e demais potências. E, assim, a partir de um acordo secular, seguimos tendo os EUA como uma EAD. À distância, eles nos ensinam que a solução para nossos problemas é a iniciativa individual, forjam-nos exploradores mirins e nos formam racistas.

Lá, nos EUA, porém, o povo preto e a juventude resolveram mostrar a sua força. E, aqui, começam nossas diferenças. Mas, atentemos, estas diferenças são fruto, justamente, de nosso alinhamento.

Quando o General Jim Mattis, ex-secretário de Defesa do próprio Trump, contrapôs-se ao tratamento que a polícia vem dando aos manifestantes, nos EUA, sua intenção é recordar seus governantes de que, lá, o inimigo não é interno. Diferente do que ocorre no Brasil. De tal modo que, ainda que atuem sobre um mesmo roteiro, os papeis e cenários são diferentes. Esta é a razão pela qual, também, nos EUA, ao serem compreendidos como gestos de cidadãos, as ações políticas de contestação encontram relativa eficácia em demonstrações e petições. Falando em termos mais técnicos, os americanos são mais perfomativos, possuem um lastro simbólico que lhes garante certo êxito nas ações. Lá, assim como no Brasil, o povo aprendeu a se defender, correndo risco, mas o salto dos pretos dos EUA está na organização coletiva desse risco: a violência libertária. No Brasil, este risco tem mais a cara deste nosso país subalterno. Por isto, talvez, essa nossa indiferença – em todos os sentidos -, diante de Miguel, João Pedro e Matheus.

É que copiamos pelo guia americano, tal como “cobrindo o pontilhado”. Se borramos o traço e passamos a copiar com um risco, algum Marketeiro, com seu Gerente, será acionado. Caso contrário, nós, brasileiros, poderemos nos tornar o exterior a formar os inimigos internos dos EUA.

No grande acordo, o Brasil foi desenhado com um contorno chamado governabilidade. Nada pode fugir desta moldura. Com estes marcos, resta ao Brasil dependente uma história de Ditaduras e Democracia Restrita, sem embate político, de fato. É neste desenho que se enquadra a direita brasileira: entre os adeptos do liberalismo político e os autoritários. Estando todos eles unidos, no liberalismo econômico.

Mas este mesmo grande acordo parece não ter delimitado apenas a direita. Entre ditaduras e democracias restritas, a esquerda ficou contida nos limites entre esquerdismo e reformismo. Ou a negação absoluta de qualquer mediação ou um “socialismo viável”. E, assim, brigam entre si. Diferente da direita, porém, ainda não encontraram o que os unifica.

Isto nos ajuda a entender mais uma semelhança que temos com os americanos. A nova métrica da centralidade do identitarismo, nos partidos revolucionários, e o método de luta apoiado em Demonstrations e Petitions. Mas, se lá, nos EUA, os atos são, em grande medida, performativos, seguindo uma gramática do reconhecimento – basta ver a altivez com que os negros se impõem, lá – aqui, este mesmo repertório é mais performance de uma esquerda branca, inibida. Queremos nos expressar como se fôssemos cidadãos, sem atentarmos para o fato de que, em uma colônia, não há cidadãos. Portanto, mais do que se expressar e se movimentar, o povo brasileiro precisa se auto-organizar.

Mas a autenticidade política já começa a dar seus sinais, seja nos EUA, seja, aqui, no Brasil. Aqui, o brasileiro, temendo mais Bolsonaro do que o próprio vírus, imprime efeito causal às fantasias do presidente. Mantendo viva a guerra interna, no Brasil, alternando guerra de movimento com guerra de posição ultra-moderna, Bolsonaro manda prender, manda matar, vai a pé, anda a cavalo, além de mandar um zap e abrir um processo. Neste misto de violência física e violência espiritual, nesta guerra permanente, em que o confronto aberto e o terror são partes constitutivas da democracia, os brasileiros encontram seus pares nos negros norte-americanos.

A cópia mais fiel, no Brasil, daquilo que potencializa os norte-americanos encontra-se, por enquanto, na ação acertadíssima de nossas torcidas organizadas: são elas que já conquistaram, na cultura brasileira, certo direito à violência. Nada fora do eixo, quando tudo, cada vez mais, resume-se a imagens e alegorias. Mais do que nunca, as disputas em torno de representações, aquilo que cumpre o papel de nos excitar sem grande esforço de elaboração, têm justificado, no Brasil, todo tipo de confronto. E o bom e velho Fla-Flu, quando transposto para a política, traz consigo também este aspecto de faticidade da violência.

Neste momento, de eterno retorno à “normalidade”, a rede Globo já começa a distinguir, assim como faz com Paulo Guedes e Bolsonaro, os pacifistas dos vândalos. É o termômetro americano, indicando quando a coisa começa a ferver.

Não temos dúvida de que, assim como nos EUA, as mazelas do Brasil têm cor e acento. Elas são negras e nordestinas. Mas, sob a pele preta, há uma forma, que o Movimento Negro, nos EUA, e muitos outros, no Brasil, já começam a expor, também. A forma do capital, esta forma perversa de converter a massa – preta, pobre, mexicana, nordestina – em mera fábrica de dinheiro.

Quando todos os americanos, do norte ao sul, começarem a pautar a exploração, em suas ações de combate à opressão, o termômetro implode.

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