4 de junho de 2026

Dissonâncias no campo progressista, por Aldo Fornazieri

Não são frentes abstratas que construirão a unidade progressista e das esquerdas ou a unidade dos democratas. São as lutas que devem construir as frentes.
Foto Ricardo Stuckert

Dissonâncias no campo progressista

por Aldo Fornazieri

Os dicionários dizem que “dissonância” significa a reunião de sons que causam impressões desagradáveis aos ouvidos. Ultimamente, as palavras que vêm de dirigentes de partidos progressistas e de esquerda têm o sentido literal do termo. Ciro Gomes, incapaz de conter-se no seu destempero, tem sido agressivo e grosseiro com Lula e dirigentes do PT. Dirigentes do PT têm sido agressivos e grosseiros com Ciro. Marina Silva e Ciro se recusam em participar de reuniões e articulações com o PT. Muitos petistas acusam Ciro de coronelismo, mesmo sabendo que o PT no governo se aliou aos coronéis mais atrasados, exploradores e corruptos do Brasil. O PT foi agressivo e desrespeitoso com Marina, principalmente nas eleições de 2014. O governador da Bahia, Rui Costa critica erros e insuficiências do PT. A direção do PT emite uma nota pública contestando o seu governador.

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Para além dos desgastes, do mal estar e das impressões desagradáveis que estas escaramuças provocam aos ouvidos de militantes e eleitores do campo progressista, elas revelam outra coisa: as esquerdas e os progressistas se recusam a promover um debate público sério sobre seus erros e seus acertos e sobre suas propostas, programas, táticas e estratégias. Assim, sobram agressões que descabam para o terreno pessoal, alimentando as vaidades, as arrogâncias e os pequenos poderes de cada um. Enquanto isso, a situação do Brasil se degrada sob a fúria destrutiva do governo, o povo padece todo tipo de carecimentos e necessidades e as esquerdas vão assumindo cada vez mais uma forma gelatinosa, invertebrada.

Nos últimos dias, duas teses começaram a se opor nas discussões no âmbito dos partidos e militantes de esquerda: construir uma frente democrática ampla ou uma frente democrática e popular. Na primeira frente participariam, além dos partidos e movimentos progressistas e de esquerda, setores partidos democráticos de centro. Na segunda frente, participariam os partidos de esquerda e setores progressistas da sociedade e da intelectualidade.

A oposição entre as duas teses é falsa e o apego formal à palavra “frente” pode conduzir a equívocos, pois o mais importante, para além da palavra, consiste em compreender na natureza da conjuntura e da luta política e definir uma plataforma de lutas que seja capaz de enfrentar os desafios do presente e de construir um caminho de mudanças orientado para o futuro.

Aqueles que opõem as duas teses, as duas frentes, parecem confundir tática e estratégia num único conceito. Ligeiramente, pode-se definir estratégia como o conjunto de medidas, proposições, programas, ações e esforços orientados para alcançar a vitória e/ou conquistar o poder. Já a tática diz respeito ao conjunto de ações, mobilizações e esforços circunstanciais, orientados para obter êxitos parciais ou pontuais visando conferir eficácia à estratégia.

Em primeiro lugar, parece evidente que, hoje, os partidos de esquerda em geral ou cada um em particular não têm estratégia clara. Sem uma estratégia clara a tendência consiste em operar no erro e na defensiva. Em segundo lugar, se houvesse uma estratégia definida, as esquerdas poderiam definir seus movimentos e suas ações táticas de forma mais assertiva.

Assim, em face da falsa oposição entre as duas frentes, a questão a ser respondida é a seguinte: o governo Bolsonaro impôs ou não um agravo às parcas conquistas democráticas que vinham se configurando a partir da Constituição de 1988? Parece não haver dúvida de que todo o processo do golpe, envolvendo, inclusive, a prisão de Lula, e de que as ações do governo Bolsonaro vêm agredindo a democracia, o Estado de Direito e a Constituição. Então, há um problema democrático a ser enfrentado na atual conjuntura. Se há este problema, é responsabilidade das esquerdas e dos progressistas agir taticamente para enfrenta-lo, defendendo a democracia, o Estado de Direito e a Constituição. Para isto é necessário aglutinar o mais amplo espectro de forças democráticas em torno desses eixos, inclusive forças de centro, inclusive forças que não se dispõem em levantar a consigna do “Lula Livre”, mesmo sabendo que a luta pela liberdade de Lula é uma das questões democráticas mais importantes nesse momento.

É preciso compreender que algumas forças participarão de algumas lutas democráticas e de outras não. O mais importante é que cada força defina sua plataforma, seu programa de lutas e que a unidade se construa a partir das lutas concretas. Não são frentes abstratas que construirão a unidade progressista e das esquerdas ou a unidade dos democratas. São as lutas que devem construir as frentes. As esquerdas querem priorizar as formas das frentes em detrimento da substância das lutas. São as lutas concretas que devem presidir a construção das formas. É a natureza das lutas que definirá a natureza das formas e não o contrário.

A luta pela democracia, pelo Estado de Direito, pela Constituição, pela educação, pela pesquisa científica, pela defesa da Amazônia e do meio ambiente comporta frentes políticas e sociais amplas. Já a luta pela moradia, pelo emprego, pelos direitos sociais, pelos salários, pela saúde, pela igualdade, pela justiça tributária, formará frentes com caráter mais democrático e popular. A luta pela soberania e pelos interesses nacionais poderá agregar setores que não estão nas outras frentes. Em se tratando de eleições, as frentes assumem outras configurações.

Outro problema que produz sectarismo e dissonâncias nas esquerdas e no campo progressista consiste no fato de que hoje não há nenhum líder com legitimidade política, social e moral capaz de aglutinar este campo pela evidência de sua liderança. Quem conseguia fazer isto, até um determinado momento, era Lula pela grandeza de sua liderança e pela habilidade do seu saber fazer política. Preso injustamente, tem sua atividade política bloqueada. Por descontrole, por sectarismo, por vaidade, por arrogância, por destempero, por defensivismo ou seja por que motivo for, o fato é que o campo progressista e de esquerda carece de lideranças significativas e competentes. Isso se reflete também na incapacidade estratégica e na incapacidade de articular e coordenar.

Os próprios partidos também não são capazes de exercer esse papel. Como os teóricos dos partidos políticos já demonstraram no passado há uma relação de equalização entre liderança e partido: líder forte é igual a partido forte e líder fraco é igual a partido fraco. Mesmo sendo o maior partido deste campo, o PT, pelas suas sucessivas derrotas e erros, perdeu a condição de exercer a hegemonia. O exercício da hegemonia implica em fazer concessões aos grupos e partidos subalternos. Incapaz de exercer a hegemonia no presente, o PT tornou-se hegemonista ao querer se impor aos outros pela força e legitimidade que teve no passado.

É urgente que as esquerdas abram um amplo debate público acerca de suas ideias, propostas, programas e desafios, reconhecendo que se encontram num momento de dificuldades. Os militantes, ativistas e eleitores têm o direito de participar deste debate, ao menos, por duas razões fortes: 1) a natureza do debate político é pública; 2) os partidos recebem recursos públicos e, portanto, têm a obrigadão de se submeterem ao crivo do debate público. O debate precisa ser feito com humildade e respeito, sabendo que os partidos estão aí para servir a sociedade, os eleitores e o Brasil. Não são os eleitores e a sociedade que estão aqui para servir os partidos.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

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Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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13 Comentários
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  1. PAULO ROBERTO ISAIAS

    17 de setembro de 2019 7:33 am

    Somente comecei a ler o artigo. Vou continuar depois. Antes, porém, não posso deixar de observar que, ao contrário do que afirma o articulista, não se pode, a meu ver, afirmar que Ciro Gomes seja de esquerda. Não é e nunca foi. Tem em comum com a esquerda se posicionar contra os radicais de direita, mas essa postura não basta para essa assertiva.
    Ressalto que é inegável ter o Ciro o seu valor na política brasileira.

    1. José Ribeiro Jr

      17 de setembro de 2019 11:27 am

      O professor, agora, falou besteira. Deu pra perceber uma veia psolista nos seus argumentos. Quando fala em falta de estratégia parece que não percebe que a insistência na candidatura de Lula mesmo preso era a mais competente estratégia para enfrentar os milicianos da Lava Jato. Não digo que faltou inteligência emocional a Ciro Gomes porque as duas coisas – o coronel Ciro e inteligência emocional – são antagônicas. Pela vaidade do incompetente do Ceará (que revolução esse mentecapto fez no Ceará, para se cacifar à condição de líder das forças de esquerda no Brasil??!!!) é que Bolsonaro está onde está. Hoje se percebe que Ciro, que começou a vida política na Arena Jovem do CE, só brigou com FHC porque este preferiu José Serra a ele. Do contrário continuaria o maior puxa saco d’O Cabotino! O mesmo procedimento foi o da Marina Silva em relação à preferência de Lula por Dilma – e não é por outra razão que ela e Ciro se combinam (Ciro esquece até que Marina fazia campanha em avião de usineiro de cana de açúcar, registrado em nome de laranja, aliás, assassinado depois que se descobriu a relação com os usineiros corruptos). Voltando ao professor, desta vez ele se perdeu.

    2. Renato

      17 de setembro de 2019 11:29 am

      O Ciro é Bipolar!

    3. André Lameira

      17 de setembro de 2019 2:02 pm

      E saca essa:

      “(…) Para isto é necessário aglutinar o mais amplo espectro de forças democráticas em torno desses eixos, inclusive forças de centro, inclusive forças que não se dispõem em levantar a consigna do “Lula Livre”.”

      O professor Aldo, no fim das contas, é um militante do Dória, mas sem saber. Não foi o pessoal do Dória que chamou uma manifestação “Fora Bolsonaro” na qual era proibido o “Lula Livre”? Para mim, o divisor de águas é a questão do Lula. Não existe democrata que defende golpe de estado e prisão do maior líder político do país, septuagenário, sem crime ou provas, agora ainda com a questão da Vaza Jato.

      É simples: quem não consegue levantar as bandeiras “Fora Bolsonaro” e “Lula Livre”, uma do lado da outra, não é democrata e deve ir à merda. A esquerda não vai cair na arapuca do PSDB, PMDB e afins.

  2. WERNER

    17 de setembro de 2019 7:36 am

    Infelizmente, a visão limitada do professor Aldo em suas analises não nos permitem perder o precioso e inexistente tempo em ler seus artigos.
    Pena.
    Ele deveria abandonar o seu cachimbo.

  3. Anônimo

    17 de setembro de 2019 8:49 am

    -> Aqueles que opõem as duas teses, as duas frentes, parecem confundir tática e estratégia num único conceito.
    -> São as lutas concretas que devem presidir a construção das formas. É a natureza das lutas que definirá a natureza das formas e não o contrário.

    vivemos tempos trágicos para a Esquerda no Brasil: todos seus personagens e todas suas organizações se tornaram irrelevantes, sem qualquer exceção.

    de Marina Silva a Ciro Gomes; de Boulos a Marcelo Freixo; de Flávio Dino aos governadores do PT, entre estes brilha em toda sua completa irrelevância Rui Costa.

    incluindo Lula, o mais irrelevante de todos.

    ainda assim, a Lula a História reservou uma última encruzilhada, na qual Lulinha terá sua derradeira chance de abandonar a Paz e o Amor e se unir ao vôo dos Bacuraus.

    mas parece que a decisão está de antemão tomada: “o cara” já usa aliança e vai casar…

    sequer cogitar em casamentos selados por “frentes”, seja qual for sua amplitude, é viver em outro tempo e espaço.

    vivemos no bojo de uma crise sistêmica do Capitalismo, acirrada exponencialmente por uma irreversível catástrofe climática.

    e no Brasil experimentamos este cenário em todo seu horror.

    aquele mundo encantado da efêmera e frágil conciliação de classes do Lulismo já não existe, e não voltará a existir. não haverá retorno.

    da compreensão do que está em curso se coloca a exigência para voltarmos a bradar aquelas duas palavras por muito tempo condenadas, proscritas, estigmatizadas: Revolução e Comunismo.

    nenhuma tarefa pode ser mais urgente do que a criação de uma vanguarda Revolucionária, portanto Comunista.

    nosso horizonte não deve ser turvado por miragens ilusórias, como as eleições de 2020 ou 2022, mas sim iluminado pela inexorável insurreição que vem: haverá um levante do povo oprimindo.

    o austericídio BolsoNazi condena a imensa maioria da população ao extermínio, colocando-a diante de uma escolha irredutível: o momento em que frente a certeza da morte é preferível o risco da revolta.

    é inútil qualquer esforço em relação a lideranças e formas de organização falidas, obsoletas, cooptadas, estéreis e vãs.

    toda energia precisa ser dedicada a percorrer um outro caminho.

    o único caminho capa de dar uma resposta ao impasse que neste momento de colapsos entrelaçados define nossa existência como espécie: extinção ou eco-socialismo.
    .

  4. Wanderley Sobreiro

    17 de setembro de 2019 9:59 am

    Ciro Gomes e o PT cabem hoje bum ditado muito antigo que diz: compre-o pelo preço que ele vale é venda-o pelo preço que ele acha que vale. Ficaria riquíssimo quem conseguisse fazê-lo. Ambos cometeram erros gravíssimos na campanha e deveriam rever suas atitudes, mas creio que jamais acontecerá. O preço será alto para ambos.

    1. Kiril Araujo

      17 de setembro de 2019 10:48 am

      O preço já está alto, mas é para a sociedade, para o país.

  5. Anônimo

    17 de setembro de 2019 10:43 am

    Frente? Os a direita-liberal querem apenas conter o Bolso nas questoes morais e costumes mas apoiam e admiram a política do economica.
    O sociólogo não percebeu isso.
    O intelectual também deveria lembrar que o PT foi derrotado pelo discurso economico e moral. Entretanto creio que muito para ele.

  6. Lindolfo

    17 de setembro de 2019 11:07 am

    Ciro Gomes não é coronel e nem corrupto? Refaça seu texto ‘DR’.

    Ciro Gomes está incólume pq a direita sempre teve certeza que pode contar com ele na hora fatal, tenho dúvidas se fugiu pra Paris ou Portugal?

    Dr. vc parece desses intelectuais “enjeitado” até pelo diabo, desse jeito a família Marinho vai te dar uma nova chance pra tu arrotar sabedoria na Globo News, espere o convite.

    Escrevendo tu pareces o Ciro discursando, enganas bem.

  7. Hildermes José Medeiros

    17 de setembro de 2019 11:34 am

    Dizer que “hoje não há nenhum líder com legitimidade política, social e moral capaz de aglutinar este campo pela evidência de sua liderança. Quem conseguia fazer isto, até um determinado momento, era Lula pela grandeza de sua liderança e pela habilidade do seu saber fazer política. Preso injustamente, tem sua atividade política bloqueada.”, significa também dizer que o PT, maior e mais estruturado partido do país, está sendo fragilizado pela continuidade da prisão ilegal do Presidente Lula, mas não só os petistas, as dissonâncias que aponta podem ser reflexo da ausência desse líder. E mais, em consequência, como refere, o campo democrático está carente, já que não “há uma relação de equalização entre liderança e partido: líder forte é igual a partido forte e líder fraco é igual a partido fraco”. Esta afirmativa e as condições em que se encontram o campo progressista não permitem afirmar de forma inequívoca que “mesmo sendo o maior partido deste campo, o PT, pelas suas sucessivas derrotas e erros, perdeu a condição de exercer a hegemonia”. Bem a verdade é que, apesar de tudo, malgrado seus erros, o PT cresceu, seus principais adversários PFL (Democratas), PSDB e o antes aliado PMDB estão esfacelados, embora participem direta ou por vias transversas do poder, do governo do golpe, que tem Bolsonaro na Presidência. Lula livre, que queiram ou não está no radar, principalmente dada a dificuldade por que passa a Lava Jato, diante da forte contestação de seus métodos de atuação, que não mais permite que o Supremo cooneste (na acepção da palavra) com todas as ações da Força Tarefa e tenha escamoteada sua ação como mentor e dirigente do golpe, e continue nessa situação ambígua, fingindo que a Democracia, como estabelecida na Constituição de 1988, que tem a Corte obrigação defender, esteja em plena vigência. No momento, e nas condições em que se encontram todas as forças que se dizem de esquerda e os segmentos democráticos da sociedade, o razoável é todos aguardarem para ver se o Supremo abandonará seus compromissos com o golpe, com a Globo e tudo, e libertará Lula, que em curto prazo o campo democrático ficará diante de um golpe despido da capa de legalidade. A partir daí, a luta poderá se travar por outros meios, já que não será tão fácil, legalmente emparedar a oposição. Falta pouco, espero. Lula livre.

    1. Anônimo

      17 de setembro de 2019 5:36 pm

      Lula Livre!

  8. Dante Franceschini

    18 de setembro de 2019 1:15 am

    Acho que a questão não é a de escolher quem compõe a frente, e sim qual é o programa da frente. Isto é o que faz alguém aderir a ela ou não, explicita ou tacitamente. E não é uma questão de palavras de ordem ou palavras-chave. A meu ver o projeto é preservar os recursos de nosso país para a utilização pelos seus habitantes, inclusive revogando privatizações e concessões, revogar as reformas antipovo, barrar as leis autoritárias que se quer implantar. Como vemos, é um programa difícil de realizar. Mas é o mínimo. É o primeiro passo, para depois consertar as instituições através de uma constituinte. É só isso, mas parece revolução, não é?

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