Dissonâncias no campo progressista, por Aldo Fornazieri

Não são frentes abstratas que construirão a unidade progressista e das esquerdas ou a unidade dos democratas. São as lutas que devem construir as frentes.

Foto Ricardo Stuckert

Dissonâncias no campo progressista

por Aldo Fornazieri

Os dicionários dizem que “dissonância” significa a reunião de sons que causam impressões desagradáveis aos ouvidos. Ultimamente, as palavras que vêm de dirigentes de partidos progressistas e de esquerda têm o sentido literal do termo. Ciro Gomes, incapaz de conter-se no seu destempero, tem sido agressivo e grosseiro com Lula e dirigentes do PT. Dirigentes do PT têm sido agressivos e grosseiros com Ciro. Marina Silva e Ciro se recusam em participar de reuniões e articulações com o PT. Muitos petistas acusam Ciro de coronelismo, mesmo sabendo que o PT no governo se aliou aos coronéis mais atrasados, exploradores e corruptos do Brasil. O PT foi agressivo e desrespeitoso com Marina, principalmente nas eleições de 2014. O governador da Bahia, Rui Costa critica erros e insuficiências do PT. A direção do PT emite uma nota pública contestando o seu governador.

Para além dos desgastes, do mal estar e das impressões desagradáveis que estas escaramuças provocam aos ouvidos de militantes e eleitores do campo progressista, elas revelam outra coisa: as esquerdas e os progressistas se recusam a promover um debate público sério sobre seus erros e seus acertos e sobre suas propostas, programas, táticas e estratégias. Assim, sobram agressões que descabam para o terreno pessoal, alimentando as vaidades, as arrogâncias e os pequenos poderes de cada um. Enquanto isso, a situação do Brasil se degrada sob a fúria destrutiva do governo, o povo padece todo tipo de carecimentos e necessidades e as esquerdas vão assumindo cada vez mais uma forma gelatinosa, invertebrada.

Nos últimos dias, duas teses começaram a se opor nas discussões no âmbito dos partidos e militantes de esquerda: construir uma frente democrática ampla ou uma frente democrática e popular. Na primeira frente participariam, além dos partidos e movimentos progressistas e de esquerda, setores partidos democráticos de centro. Na segunda frente, participariam os partidos de esquerda e setores progressistas da sociedade e da intelectualidade.

A oposição entre as duas teses é falsa e o apego formal à palavra “frente” pode conduzir a equívocos, pois o mais importante, para além da palavra, consiste em compreender na natureza da conjuntura e da luta política e definir uma plataforma de lutas que seja capaz de enfrentar os desafios do presente e de construir um caminho de mudanças orientado para o futuro.

Aqueles que opõem as duas teses, as duas frentes, parecem confundir tática e estratégia num único conceito. Ligeiramente, pode-se definir estratégia como o conjunto de medidas, proposições, programas, ações e esforços orientados para alcançar a vitória e/ou conquistar o poder. Já a tática diz respeito ao conjunto de ações, mobilizações e esforços circunstanciais, orientados para obter êxitos parciais ou pontuais visando conferir eficácia à estratégia.

Em primeiro lugar, parece evidente que, hoje, os partidos de esquerda em geral ou cada um em particular não têm estratégia clara. Sem uma estratégia clara a tendência consiste em operar no erro e na defensiva. Em segundo lugar, se houvesse uma estratégia definida, as esquerdas poderiam definir seus movimentos e suas ações táticas de forma mais assertiva.

Assim, em face da falsa oposição entre as duas frentes, a questão a ser respondida é a seguinte: o governo Bolsonaro impôs ou não um agravo às parcas conquistas democráticas que vinham se configurando a partir da Constituição de 1988? Parece não haver dúvida de que todo o processo do golpe, envolvendo, inclusive, a prisão de Lula, e de que as ações do governo Bolsonaro vêm agredindo a democracia, o Estado de Direito e a Constituição. Então, há um problema democrático a ser enfrentado na atual conjuntura. Se há este problema, é responsabilidade das esquerdas e dos progressistas agir taticamente para enfrenta-lo, defendendo a democracia, o Estado de Direito e a Constituição. Para isto é necessário aglutinar o mais amplo espectro de forças democráticas em torno desses eixos, inclusive forças de centro, inclusive forças que não se dispõem em levantar a consigna do “Lula Livre”, mesmo sabendo que a luta pela liberdade de Lula é uma das questões democráticas mais importantes nesse momento.

É preciso compreender que algumas forças participarão de algumas lutas democráticas e de outras não. O mais importante é que cada força defina sua plataforma, seu programa de lutas e que a unidade se construa a partir das lutas concretas. Não são frentes abstratas que construirão a unidade progressista e das esquerdas ou a unidade dos democratas. São as lutas que devem construir as frentes. As esquerdas querem priorizar as formas das frentes em detrimento da substância das lutas. São as lutas concretas que devem presidir a construção das formas. É a natureza das lutas que definirá a natureza das formas e não o contrário.

A luta pela democracia, pelo Estado de Direito, pela Constituição, pela educação, pela pesquisa científica, pela defesa da Amazônia e do meio ambiente comporta frentes políticas e sociais amplas. Já a luta pela moradia, pelo emprego, pelos direitos sociais, pelos salários, pela saúde, pela igualdade, pela justiça tributária, formará frentes com caráter mais democrático e popular. A luta pela soberania e pelos interesses nacionais poderá agregar setores que não estão nas outras frentes. Em se tratando de eleições, as frentes assumem outras configurações.

Outro problema que produz sectarismo e dissonâncias nas esquerdas e no campo progressista consiste no fato de que hoje não há nenhum líder com legitimidade política, social e moral capaz de aglutinar este campo pela evidência de sua liderança. Quem conseguia fazer isto, até um determinado momento, era Lula pela grandeza de sua liderança e pela habilidade do seu saber fazer política. Preso injustamente, tem sua atividade política bloqueada. Por descontrole, por sectarismo, por vaidade, por arrogância, por destempero, por defensivismo ou seja por que motivo for, o fato é que o campo progressista e de esquerda carece de lideranças significativas e competentes. Isso se reflete também na incapacidade estratégica e na incapacidade de articular e coordenar.

Os próprios partidos também não são capazes de exercer esse papel. Como os teóricos dos partidos políticos já demonstraram no passado há uma relação de equalização entre liderança e partido: líder forte é igual a partido forte e líder fraco é igual a partido fraco. Mesmo sendo o maior partido deste campo, o PT, pelas suas sucessivas derrotas e erros, perdeu a condição de exercer a hegemonia. O exercício da hegemonia implica em fazer concessões aos grupos e partidos subalternos. Incapaz de exercer a hegemonia no presente, o PT tornou-se hegemonista ao querer se impor aos outros pela força e legitimidade que teve no passado.

É urgente que as esquerdas abram um amplo debate público acerca de suas ideias, propostas, programas e desafios, reconhecendo que se encontram num momento de dificuldades. Os militantes, ativistas e eleitores têm o direito de participar deste debate, ao menos, por duas razões fortes: 1) a natureza do debate político é pública; 2) os partidos recebem recursos públicos e, portanto, têm a obrigadão de se submeterem ao crivo do debate público. O debate precisa ser feito com humildade e respeito, sabendo que os partidos estão aí para servir a sociedade, os eleitores e o Brasil. Não são os eleitores e a sociedade que estão aqui para servir os partidos.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

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