Duas Repúblicas

João Goulart, o presidente que foi vilipendiado e tratado, entre tantas desqualificações, como corrupto – da mesma forma como fizeram com JK e, antes dele, com Getúlio Vargas -, terá finalmente seu ato de desagravo republicano. Quase 50 anos depois, a memória viva de Jango retorna a Brasília e nos traz sobretudo a ideia de uma República que foi podada em sua luta por ampliar a democracia e promover desenvolvimento com inclusão social.

Nesta semana, comemora-se o 125º aniversário da Proclamação da República. Para além da efeméride, o 15 de novembro será precedido por dois eventos carregados de simbolismo e que traduzem o embate entre duas ideias de República.

Na quarta-feira (13), serão exumados, em São Borja (RS), os restos mortais do ex-presidente João Goulart, deposto pelo golpe de 1964. No dia seguinte, o corpo chega a Brasília e será recebido com honras de chefe de Estado pela presidenta Dilma Rousseff. Será a primeira vez que Jango, morto em 1976, retornará a Capital Federal, desde que foi afastado do poder.

No mesmo dia, o Supremo Tribunal Federal (STF) deve concluir parte do julgamento da Ação Penal 470 (o julgamento do dito “escândalo do mensalão”) e pode expedir os primeiros mandados de prisão contra alguns dos réus.

Jango trará consigo o cortejo de todas as memórias do golpe, ainda em busca da verdade. O presidente que foi vilipendiado e tratado, entre tantas desqualificações, como corrupto, da mesma forma como fizeram com JK e, antes dele, com Getúlio Vargas, terá finalmente seu ato de desagravo republicano.  Jango nos traz sobretudo a ideia de uma República que foi podada em sua luta por ampliar a democracia e promover desenvolvimento com inclusão social. É disso que se trata quando se fala de Jango e de República.

Leia também:  “In Fux nóis num trust” (Batatinha quando nasce...), por Armando Coelho Neto

A segunda ideia de República, emanada pela decisão a ser tomada pelo STF, é a de que a política, quando transformada em mercado eleitoral e contaminada pela corrupção de suas práticas, distorce não apenas a representação parlamentar e governamental. Pior: desvirtua as funções do Estado quando associado a interesses privados escusos.

Essas duas ideias diferentes de República atravessam o debate político nacional, a todo momento. Seu confronto inspira a conclusão de que só uma agenda permanente de reformas de base, entre elas, a reforma das regras de nosso sistema eleitoral, é capaz de situar o debate político em nível elevado e talhar os representantes eleitos a estarem à altura de seu momento histórico, condizentes com as exigências de nossa cidadania e livres do autoritarismo que permanece à espreita.

Publicado originalmente no Boletim Semanal de Conjuntura nº 3, da Fundação Perseu Abramo.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

14 comentários

  1. Porque derrubaram Jango?

    CONSERVADORES PERDEM BASE SOCIAL E APLICAM “GOLPE PREVENTIVO” – O golpe de 64 foi bancado por civis e militares, sem dúvida alguma. Não existe golpe, insurreição, revolução ou coisa que o valha sem que exista uma base social coesa que de sustentação a esses movimentos. Ocorre que há muitos mitos no trato desse infeliz episódio da história do país. O governo João Goulart tinha um amplo apoio social, tinha uma base social muito forte e coesa (os golpistas também tinham). A aprovação ao governo João Goulart era positiva e o apoio às Reformas de Base também era positivo.

    O que amedrontava setores importantes da classe média e dos miitares era a ascensão gradual e constante do PTB no Congresso Nacional. Em 1945, em que pese o apoio da figura de Getúlio Vargas, o PTB era minúsculo, elegeu apenas 08% dos deputados federais e 04 das 42 vagas disputadas para o senado. O grande partido do Brasil entre 45 e 64 era o PSD, também criado por Getúlio Vargas. No governo de Eurico Gaspar Dutra, o PSD controlava metade do Congresso Nacional.

    Em 1945, o PTB elegeu 22 deputados federais. Em 1950, aumentou para 51. Em 54 atingiu o número de 56 deputados. Em 58 elegeu 66 parlamentares. Em 62 subiu para impressionantes 116 deputados federais, ultrapassando a UDN, tornando-se pela primeira vez a segunda força política da Câmara e tendo apenas 02 deputados a menos que o até então todo poderoso PSD que elegeu 118. Extrai-se daí que é uma rotunda falácia, conservadora e mistificadora, dizer que o governo João Goulart não tinha apoio popular! Muito antes pelo contrário, o PTB só fazia crescer, ininterruptamente desde a sua fundação em 45. E crescia vigorosamente também após a morte de Getúlio Vargas, para desespero dos golpistas…

    O crescimento insuperável do PTB, a força militante e a imensa base social do partido trabalhista é que eram o pano de fundo, o caldo de cultura que aterrorizava os conservadores que minguavam eleição após eleição. Se o governo de João Goulart fosse tão fraco, inepto e sem base parlamentar e social, bastaria aos golpistas operar através da Legalidade. Ou seja, poderiam ter feito o impeachment de João Goulart ou até mesmo poderiam esperar o término de seu mandato em 1965 (o governo não era inepto e sem apoio popular?) para eleger o corvo Carlos Lacerda presidente da república! Porque não o fizeram e optaram pelo golpe relâmpago?

    A grande e incontestável verdade que os conservadores teimam em esconder é que o PTB, tal e qual o PT atual, era o partido da massa trabalhadora dos grandes centros urbanos. Era disparado o partido maispopular do país e só fazia crescer e crescer cada vez mais ao longo do tempo. O medo não era de João Goulart, ele não conseguiria aprovar as reformas de base naquela oportunidade… O medo era porque o PTB estava politizando a discussão e as eleições de 1965 (se o processo democrático tivesse transcorrido normalmente) traria consigo uma estrondosa vitória do PTB, que transformar-se-ia no maior partido do Congresso Nacional, suplantando o PSD (a UDN golpista já havia ficado no chinelo há muito tempo…).

    Mais do que isso, em 1965 o cenário era de uma linda eleição presidencial disputada por João Goulart ou Leonel Brizola pelo PTB, Carlos Lacerda pela UDN e Juscelino Kubitschek voltando pelo PSD. A probabilidade de vitória de Carlos Lacerda era nula e devido a ascenção irresistível do PTB, já não era mais possível garantir que Juscelino (favoritíssimo) ganharia com a facilidade que os analistas da época imaginavam. Os golpistas tinham plena consciência de que o povo estava se educando políticamente e de que por dentro da democracia não teriam como segurar as reformas de base, que se eram impossíveis de ser implementadas com João Goulart, eram inevitáveis no horizonte próximo graças ao crescimento do PTB. 

    Bom destacar também que pela ‘esquerda’, João Goulart era massacrado pelo PCB. Alguém lembra da estúpida, maluca e deplorável capa do jornal Imprensa Popular em 24 de agosto de 1954 (suicídio de Getúlio Vargas)? A capa era a seguinte: “Abaixo o governo de traição nacional de Vargas”. Percebam o grau de miopia do PCB na época! O PCB daquela época ressentia-se do fato de que o partido da massa trabalhadora era o PTB e não ele, PCB. É o mesmo ressentimento que setores de ‘esquerda’ hoje nutrem com relação ao PT. Pois foi contra essa miopia e ressentimento de uma esquerda principista e sectária que João Goulart teve de lidar também.

    Bom, mas e porque então a população não se insurgiu contra o golpe? Não se insurgiu porque João Goulart era João Goulart e não um Abraham Lincoln! Ao contrário de Leonel Brizola que lutava desesperadamente para organizar a resistência e, se necessário, partir para uma guerra civil em nome da Constituição, João Goulart contemporizou, não ofereceu resistência alguma aos golpistas, desmobilizou toda a base social do PTB e recolheu-se ao exílio. Tudo para evitar o ‘banho de sangue’ que assolaria o país se houvesse resistência contra os golpistas… Que falta fez ao Brasil naquela época uma atitude combativa de João Goulart! Abraham Lincoln não é celebrado até hoje como uma das maiores figuras políticas da história dos EUA? Tivesse ele contemporizado com os reacionários, latifundiários e escravocratas da época e a Guerra de Secessão não teria acontecido, o que fatalmente teria consequências trágicas para a história norte-americana. Sem a Guerra Civil bancada por Lincoln contra o atraso e seus reacionários representantes, entre 1860 e 1865, os EUA não seriam a potência que são hoje.

    Enfim, em breves palavras tento desmisticar um pouco o que ronda esse debate sobre o golpe de 64, suas reais motivações, a base social dos atores envolvidos, o percurso das forças políticas no curso 45-64, etc… Lamentável e desgraçadamente, a burguesia brasileira é anti-nacionalista e burra ao extremo. Diferentemente da burguesia norte-americana que históricamente sempre lutou contra o atraso agro-pastoril, contra a escravidão e os contra latifundiários racistas e fascistas, ‘dignos’ representantes de teses obsoletas. A burguesia brasileira sempre foi débil em ações e miserável em compreender o seu papel histórico em Pindorama. Justamente por isso que os maiores saltos industrializantes do Brasil tiveram que ser encampados enquanto bandeira modernizante pelo Estado Nacional, diferentemente do que ocorreu nos países centrais da Europa e dos EUA.

    A opção pelo golpe foi a tática dos conservadores para barrar a implementação e consolidação das reformas de base enquanto ainda tinham tempo para tanto. Cortaram o PTB pela raiz porque a população insistia em dar mais e mais respaldo ao partido trabalhista, enquanto abandonava gradualmente a UDN e o PSD. Fizeram o golpe contra o governo de Jango porque sabiam de seu caráter conciliatório e incapaz de bancar uma resistência. Sabiam que se esperassem para desfechar o golpe num eventual governo futuro de alguém como Leonel Brizola, haveria sim uma Guerra Civil e que a resistência venceria porque tinha um líder capaz de empreendê-la. Foi um “golpe preventivo”.

    • Bom apanhado histórico

      A história têm muitas versões e pontos de vista, o Diogo nos mostra o seu, bem como fatos selecionados que apoiam suas afirmações. O apanhado é um resgate interessante, mas me parece que falta a outra perna da equação Siga o Poder, Siga o Dinheiro. 

      Sem o Dinheiro e a moeda que usamos me parece pensa a análise, dai não poder concluir-se nada sobre o arrazoado, exceto como de praxe, a excelência literária do Diogo.

      Mas é útil este revisionismo, quem sabe evitemos cair duas vezes na mesma armadilha.

      Agora para o meu gosto, ia para frente sem olhar para  trás, acelerava como a China vem fazendo e não ficava louvando atores históricos ultrapassados e frágeis, que foram incapazes a seu tempo de aproveitar as janelas de oportunidade que se lhes apresentaram e deixaram de montar o cavalo que passou encilhado a galope na frente deles.

      Dilma, acorda!

  2. “…o corpo chega a Brasília

    “…o corpo chega a Brasília e será recebido com honras de chefe de Estado pela presidenta Dilma Rousseff…”

    Oba! Conseguiremos ter o nosso Símon Bolívar, e passaremos o nome para República Goulartiana do Brasil?

    A propósito, porque não o Jânio Quadros, também?

  3. Diogo, vc é um dos bons

    Diogo, vc é um dos bons comentaristas do post, tem raciocinio articulado e sabe defender suas ideias.

    Como testemunha presencial dos acontecimentos de 1964 e tambem pelo gosto pela Historia permito-me acrescentar algumas observações sobre os anos dramáticos de 61 a 64.

    1.A situação OPERACIONAL do Governo Jango era insustentavel. Ele não foi derrubado por ser um mau presidente, os paises tem maus Presidentes que não são derrubados, ele caiu por incapacidade de defender seu Governo, ele não tinha os meios e os instrumentos para governar, Jango não tinha vocação para governar, ele gostava do usufruto do poder mas não do extenuante trabalho e aborrecimentos do cargo, gostava do BONUS mas não do ONUS de Governar um Pais já naquela época muito complexo e com uma enormidade de problemas.

    2.Suas alavancas de comando simplesmente não existiam. O Chefe da Casa Civil Darcy Ribeiro, apesar de suas boas intenções, era incapaz de organizar minimamente um mecanismo de governo, Jango não tinha apreço pelo manejo do poder, organizar linhas de trabalho, cobrar providencias de Ministros, passar o dia recebendo gente e ligando para governadores, ministros, presidentes de estatais. O Chefe da Casa Militar,  General Assis Brasil, não tinha uma rede de relacionamentos nas Forças Armadas para ser atendido e respeitado. Sua avaliação do banlanço de forças era muito falha, tanto que Jango caiu sem resistencia de nenhum batalhão.

    3.A situação economica no começo de 1964 não só era péssima, era imprevisivel, não se poderia planejar por uma semana. O Brasil convivia com inflação desde os fins da decada de 40, inflação atrapalhava mas durante toda a decada de 50 o Brasil conviveu oas trancos com a inflação, o que não impediu o Pais de crescer.

    O problema do Governo Jango era a completa falta de CREDIBILIDADE do Governo e seu funcionamento improvisado e errático, sem uma estrategia de ação, sem diagnostico dos problemas ou planos de solução deles.

    Nos estertores convidou-se o ex-Governador de S.Paulo tido como bom em finanças, Carvalho Pinto, para Ministro da Fazenda, solução tapa buraco que não funcionou, o problema não era de gerir a economia e sim de gerir o Pais como um todo, Ministro de qualquer area não funciona em um vacuo, é parte de um conjunto que não existia.

    Mas o MAXIMO do suicidio politico do Governo Jango, que foi o detonador de sua queda, foi o de insuflar os soldados e marinheiros contra seus oficiais, processo instigado por Brizola e por sindicatos de soldados, algo que nenhum Pais minimanente organizado, nem Estados africanos de estrutura precaria podem aceitar.

    O Comandante das Forças Armadas, que é o Presidente da Republica, simplesmente não pode, a não ser por ato de loucura, tentar jogar a tropa contra seus oficiais, insuflando tropa a motim, nenhum regime sobrevive a isso.

    4.As analises ex-post feitas hoje que pretendem que Jango foi DERRUBADO por um golpe são falhas. Jango caiu porque seu governo dissolveu-se, os militares simplesmente ocuparam o vacuo, o Governo já não existia em 31 de março de 1964, a prova é que não foi defendido por nenhum segmento social, politico, economico, militar, administrativo, nem os Ministros de Jango o defenderam com energia, havia uma percepção geral no ar de que esse governo já não governava e que o Pais estava à deriva.

    Foi uma situação muito diferente de Allende, que tinha base de apoio e um governo estruturado, para tira-lo do poder as forças armadas tiveram que bombardear o Palacio de la Moneda.

    No caso brasileiro, o Governo Jango caiu antes do golpe. Jango em grande parte reconheceu isso no exilio, ao romper com Brizola, que julgava o CULPADO pela queda de seu governo, ao insuflar uma radicalização impossivel,

    o que Brizola pretendia era politicamente tão desastroso que mais parecia insanidade do que estrategia.

    5.Analises simplistas feitas 50 anos depois são irreais se não LEVARMOS EM CONTA todo o contexto de 1964.

    4.

    • Gracias

      Obrigado pelo complemento, Andre Araujo. Nós dois sabemos que a história pode ser contada a partir de diferentes ângulos e visões, a partir de diferentes versões para os fatos, etc.

       

      Enfim, essa questão do Jango daria (como sempre deu) um bom debate, num post mais específico. Abraço.

      • Mocinhos X Bandidos

        Ainda acho que não vai ter graça KKKKKK!!!!!!!!!!!!!

        Por falar em história, li esta hoje e adorei. Capitalismo e Mercado funcionam ou não?

        “Can capitalism be kept on the straight and narrow?” was the question before us. The subtext: Can regulators stay ahead of the industries they are meant to regulate?

        We had no doubt about it: The correct answer was no. Capitalists will use every trick in the book to subvert, undermine, twist and corrupt the system that made them rich. But regulators will always help them.

        Why?

        Because of the law of declining marginal utility. As you get more of something, each additional unit is worth less to you than the one before. Like shots of Irish whiskey, the first is a vivid treasure; the last is lost in a blur. So too, the dollar in your pocket now is always worth more than extra dollar you may make tomorrow.

        Government – a reactionary institution whose chief purpose is to look into the future and prevent it from happening – helps protect what is… at the expense of what will be. 

        That’s because today’s rich people offer bribes. Tomorrow’s rich don’t even exist yet. Today’s rich people turn the machinery of government to their own purposes – which is why cronies will always be capitalism’s worst enemies.

        They talk the talk of “free enterprise,” but quietly walk over to the regulators, confident they can be bought at a reasonable price. The regulators then wrap up the industry in red tape, which helps keep out the competition.

        And in a crisis – such as the credit crunch of 2008-09 – the overseers bring in government support, as needed, to keep their host alive.

        Keep capitalism on the straight and narrow? Forget it!

        But there was no time to explain all that to the dozens of spectators, each with a pint of Guinness in his hand… and many more in his belly. We had only a couple of shots; we had to make them good.

        Otherwise, our Commie-sympathizing opponents – who had already won over the audience – would leave us crumpled over on the stage… whimpering for mercy.

        “Violence? Or peaceful cooperation?” we began, like a Prince of Denmark with an economics degree. “We have been programmed over millions of years for both.

        “But what works? Cooperation – chiefly in hunting – increased the total return for primitive peoples. Cooperation produces win-win transactions. Today, that is as true in the case of the exchange of bodily fluids as it is with oil or money.

        “But people are competitive. They don’t always want win-win. In most of pre-history, men competed for women. This was not a win-win situation at all. It was a win-lose situation. The supply of women was limited. You could only get more by forcing someone else to have less.”
         

        Poor Joane Broadbrook

        We interrupt the debate scene at Cleere’s pub to wander down to the coast to the little tourist town of Baltimore.

        It is a tiny and mostly forgotten relic today. But what a story it has to tell: one of the most remarkable stories in Christendom. For it was the only town in England, Scotland, Wales or Ireland that was ever attacked by Moors.

        Why? They wanted more.

        Imagine the shock to poor Joane Broadbrook. She awoke early on the morning of June 20, 1631, to discover her roof was on fire and troops of the Ottoman Empire were breaking down her door.

        Heavy with child, she must have thought it was a nightmare. But it was a nightmare that wouldn’t stop, even if she pinched herself. A notorious Barbary Coast pirate named Morat Rais had organized a slaving expedition, with a crew of desperadoes backed by 230 Janissaries in their bright red tunics and curved Yatagan sabers.

        Rais, aka Jans Jensen, was Dutch. He had been a slave, too. But in the open meritocracy of the Barbary Coast slave trade, he had risen through the ranks to become an admiral of the fleet. Now, he made Sallee, on the Moroccan coast, his base.

        On that day in June, Rais and his band of entrepreneurs and adventurers were in the middle of what could be described as a capitalist undertaking.

        The project had been financed, equipped and staffed by trained professionals months before. Rais’s ship had left port in Algiers to a tumultuous send-off, much like cutting the ribbon on a new factory.

        The raw material – 107 residents of the town of Baltimore on the south coast of Ireland – had been taken in. They were now being processed – first by driving them into the holds of their vessels… then by shipping them back to the retail market in Algiers… and finally by putting them up for sale.

        The slave market in Algiers was a free market, in some respects. Much like an auction of used farm equipment, prospective buyers were allowed careful inspection.

        The men were poked and prodded. Potential buyers wanted to see how they might hold up. And they were asked questions: What had they done? What skills did they have? How hard had they worked?

        The unlucky ones had the hard hands and muscles of field hands. They were sent to the galleys and to the quarries, where they were usually worked to death after a few years, although we know there were many exceptions.

        The lucky ones had marketable skills – such as gunsmithing – and were spared the oars and the sledges. Instead, they were brought into a complex, sophisticated and highly nuanced system of slavery, which was also curiously free in its own way.
         

        A Different Kind of Markets

        Most of the captives from Baltimore were women and children. It was the women who got the closer inspection.

        Bidders were allowed to feel for themselves the firmness of a woman’s breasts and determine whether or not she was still a virgin.

        Each buyer formed in his own mind the right value of the merchandise. And then, in an outcry auction, a price was established. We don’t know if the price thus established was perfect in the sense that today’s economists use. But it was the best they could do under the circumstances.

        In the early 17th century, business was good, and it was protected and regulated by the government. The white slavers roamed as far as Iceland bringing back the valuable fair-skinned women.

        Rais had committed a ghastly atrocity on Heimaey Island, Iceland, in 1627. He attacked with five ships. Arriving in the Westmann Islands, he assaulted several towns.

        But on this raid, as on many others, business was soon mixed with a perverse pleasure. The troops went wild, murdering, mutilating and raping hundreds of innocent islanders – men, women and children.

        They were there on business. But they didn’t seem interested in maximizing profits. Half the population was wasted before it was even loaded up for shipping. What kind of business was this?

        Documents from the period show the going rate for women was between $86 and $357 in today’s money. But an extraordinarily beautiful woman could bring more. Men, generally, sold for less.

        When we saw these figures we were shocked and disgusted. One hundred bucks for a woman who could bring you a lifetime of pleasure; the buyers were being cheap.

        But again, markets are never wrong. Economists can explain these things. A woman would be capitalized based on the net expected benefit, not the gross. That is, you’d have to subtract the cost of supporting her and the grief she would cause you along the way.

        Besides, supply and demand figured in the equation, too. Pirates like Morat Rais were bringing hundreds of new slaves to the market. Demand had a hard time keeping up.

        The Sultan already had about 1,000 wives and concubines in his Topkapi harem. What could he do with another one?

        Also, you have to adjust these prices to the modern world. At the time, a clergyman might work all year for $100. So, we can imagine that a pretty young woman, in today’s terms, would have fetched about as much as a cheap house or an expensive car.

        Seems perfectly reasonable, no?

        Going Along with the Program

        The Irish women bought on the slave market after Dutch pirate Morat Rais’s raid on the town of Baltimore were taken into Ottoman harems, either as concubines or servants. There they were protected – by guards, eunuchs, regulators – and ultimately, by the Ottoman army.

        But what kind of protection was it? Could they “just say NO”?

        They were not even asked. They had been bought for the pleasure of their owners. As far as we know from first-hand accounts, they didn’t have to be forced to submit.

        They went along with the program, like travelers in a TSA line… or taxpayers enduring an audit. When the feds tell you bend over… you have no choice. That is very different from a market economy – where you might be compelled by necessity or by desire, but not by naked force.

        Surrounded by the silks and sunshine of Algiers, the Baltimore women may have looked on the bright side. Rather than contemplate a lifetime of sex-slavery, they may have thought they had gotten a reprieve from the prison of hard work and the relentless cold, dark and damp of Ireland.

        Besides, getting to share the pasha’s bed was an honor. If it brought children, the children might inherit the pasha’s money and his position; and their mother might become ruler of the harem.

        Many European women made what must have been happy marriages in the Islamic system. Many became rich and powerful. Many felt their new masters treated them better than their husbands back home. And when, 14 years later, a warship from Britain arrived in Algiers and negotiated the Baltimore slaves’ release, only two women – out of an original 34 – wanted to go back.
         

        A Supple System

        For men, if they weren’t sold off into hard labor, slavery in North Africa could be similarly supple.

        Slaves could practice their own religions. They spoke their own languages. They were free to operate their own businesses. They could make money. They could learn skills and fill important roles in almost all industries.

        Some became slavers – like Jan Jensen, who became Morat Rais, whose son Anthony used the family name Van Salee and moved to New York. With the profits of the white slave trade, he was able to buy a substantial part of what is today Brooklyn.

        Some slaves became traders and financiers, buying and selling goods from all over the Mediterranean. At least one amassed a fortune while still a slave. Some, like Miguel de Cervantes and Captain John Smith of the Virginia colony, got away.

        Others didn’t want to get away.

        Algiers was an advanced economy with a standard of living considerably higher than in London or Paris – unless you were a slave. Part of the reason for its prosperity was probably the relative freedom it allowed its slaves.

        Slavery came with many contradictions and nuances. In North Africa as well as North America, it prospered in what were otherwise successful market economies. And in both places, it was reinforced, regulated and subsidized by the government.

        Poor whites in Alabama paid (modest) taxes to help support the government, whose main challenge was to control slave labor. Few poor whites probably realized it, but they were victims of involuntary servitude, too – forced to subsidize the slaveholders by paying some of the costs of policing their slaves.

        Likewise, on the Barbary Coast a vast and confusing web of levies, fees, commissions and taxes was used to maintain the garrisons that kept slaves from escaping.
         

        Against the Public Interest

        Do we have to spell it out?

        In every industry, in every epoch, the regulators and the regulated – the parasite and the host – share the same goal: to connive against the public interest. Armed with the police power of the state, they don’t take no for an answer.

        Government was complicit in the slave trade at every level. How slaves were to be marketed, employed and disposed of was typically codified by the legislature and enforced by the police.

        Runaways were captured at taxpayer expense. Punishments were established by government employees… and often administered by them. Most important, government bore much of the cost of policing slavery, making it a viable institution long after it should have disappeared.

        But today, slavery has been abolished in most of the world. We still have wage slaves… and tax slaves. But chattel slavery has largely disappeared. Progress has been made. It is not an eternal cycle of cooperation followed by violence, after all. Over time, cooperation increases.
         

        Cooperation Pays

        Why is that? Because cooperation pays. And the more civilized a society becomes the more essential it is to cooperate. 

        By contrast, violence pays badly. You might be able to whip a group of field hands to keep them on the job, but their output would be minimal.

        Only at the most rote tasks is slave labor a practical alternative. In modern industries it is not competitive. Imagine slaves coming up with a marketing strategy. Imagine slaves driving trucks. Imagine slaves in the accounting department. Imagine slaves in Hollywood, rewriting scripts. Imagine them in the pharmaceutical industry, conducting double-blind tests. Imagine them with chain saws clearing power lines.

        Compared to properly incentivized free workers, with stock options and healthcare plans, equipped with the latest machinery and trained to use it, slaves can’t compete.

        Several inconclusive experiments have been conducted on the issue.

        Germany ran much of its industry on slave labor during World War II. The Soviet Union operated a quasi-slave economy for decades. The Japanese used prisoners of war on various projects.

        And Napoleon tried to reintroduce slavery to French possessions so he could use forced labor on sugar plantations. This effort failed so miserably that France not only abandoned the whole project, it sold Louisiana to the United States.

        Slavery didn’t pay. By the end of the 19th century, it had been abandoned almost everywhere.

        This makes us wonder about our modern form of government. Does it pay? Is it transitional too? Will it, too, disappear, like slavery?

        Maybe.

        But wait. Who won the argument back in Cleere’s bar in Kilkenny?

        “You think regulators are going to keep capitalism on the straight and narrow? Ha ha ha…” we said.

        Regards,

    • Não, André!

      Sinto muito, mas essa é uma análise viciada, baseada em suposições e experiências pessoais sem fatos comprobatórios, ou com fatos que por si só não justificam a deposição de um presidente. Só faltou dizer que além de tudo ele era corrupto. Esses argumentos foram fomentados pela mídia na época e uma boa parte da população realmente acreditava nisso, isso não quer dizer que correspondesse à realidade. Quanto disso não poderia ser dito sobre Lula ou  Dilma? São os mesmos ataques, feitos em vários países e em várias gerações. Esses são os argumentos do poder, erráticos, dissimulados, sentimentalistas, subjetivos e vazios.

      Vou me atentar então ao único argumento factual, que supostamente estaria a comprovar essa tese, a falta de resistência nos quartéis. Sobre isso:

      1) Ter como comandante do exército alguém com grande influência nos quartéis significava na época colocar no comando um opositor ao governo. Favor citar um comandante com toda essa influência, hoje exigida por você, que poderia ter sido nomeado pelo inapto presidente na ocasião.

      2) É sabido que o comandante do 3o exército ofereceu ao Jango a possibilidade de resistência.

      3) Sobre a frota americana, será que teve alguma influência?

      Gosto dos seus comentários André, já que em geral estão fora do mainstream do blog  – o que muitas vezes acaba sendo interessante, mas o embasamento desse está muito fraco, somente ancorado em sua visão particular do mundo.

      Visão pessoal por visão pessoal, segue a do Pedro Simon (http://g1.globo.com/platb/geneton/tag/leonel-brizola/):

      O senhor testemunhou um momento dramático : o instante em que o então presidente João Goulart decidiu que não iria lutar para permanecer na presidência. O que é que ele disse, exatamente ?

      Pedro Simon: “Ficamos no aeroporto, em Porto Alegre, de meia-noite às duas e meia da madrugada, quando o avião de Jango chegou. Fomos todos para a casa do comandante do III Exército – que disse: “Presidente, estou à sua disposição. Nós – do III Exército – estamos aqui. A decisão é sua !”.

      Brizola já estava insistindo em fazer um movimento. Brizola queria que Jango o nomeasse ministro da Fazenda e nomesse o general Ladário Teles, comandante do III Exército, como ministro da Guerra, para começar, naquela madrugada, a caminhar. Deu para sentir que Jango não tinha nenhuma simpatia pela nomeação de Brizola como ministro da Fazenda. Em Ladário ele confiava, mas dava para ver que Ladário não era um daqueles generais de convivência com o presidente da República. Não tinha uma credibilidade, não era um nome de força que pudesse representá-lo em muita coisa. Representava porque estava no comando do III Exército”.

      O senhor diz que, neste encontro com o Presidente João Goulart, Leonel Brizola pediu para ser nomeado ministro da Fazenda e o general Ladário, ministro da Guerra. Por que exatamente Brizola queria ser ministro da Fazenda, naquelas circunstâncias ?

      Pedro Simon: “Você faz uma pergunta que cada um responderia de um jeito. Vou responder com a interpretação que tenho, mas com certeza absoluta : ali, naquele momento, para ser uma coisa para valer, se Brizola assumisse o ministério da Fazenda não por convite de Jango mas por imposição própria e se o general Ladário assumisse o ministério da Guerra, haveria um movimento em que Brizola é que assumiria o comando. Caso contrário, se ele fosse, por exemplo, ministro da Justiça, não iria ter um tostão, não iria ter poder nenhum. Mas ele como ministro da Fazenda, com o ministro da Guerra ao lado, poderia tentar fazer alguma coisa. Isso deve ter assustado um pouco Jango : até que ponto Brizola iria nessa caminhada”.

      Que reação o presidente João Goulart teve quando soube que a presidência da República tinha sido declarada vaga ?

      Pedro Simon: “A reação de Jango foi de profundo abatimento. Digo uma coisa interessante: Jango não estava com fisionomia de derrotado ou de medo ou de temor. Estava com uma fisionomia firme”.

      Alguém tentou convencer o presidente João Goulart, além de Leonel Brizola, a resistir ?

      Pedro Simon: “O ímpeto de resistir existia. O que deixava a gente preocupado era quando Jango dizia: “Eu sei que a Sétima Frota está ali do lado, pronta para intervir, querendo intervir ! Pelas informações que a gente tem, ela quer fazer tudo para intervir, porque acha que este é o momento de fazer a limpeza que quer fazer no Brasil. E não sei se temos condições de resistir”. Isso deixava a gente também assustado. Uma coisa muito interessante é que, no início, a reunião foi democrática. Ficamos todos na sala de estar do comandante do III Exército. Havia um hall de entrada grande. Estava todo mundo ali. Depois, alguns foram para a sala de jantar. Em seguida, foram para o quarto do comandante. E,no fim, estavam Jango, Brizola e já não lembro quem no banheiro. E aí nunca mais vi Jango – que saiu pelos fundos e foi embora”.

      O senhor confirma, então, que o ainda presidente João Goulart tinha informações sobre a iminência de uma intervenção americana no Brasil, em 1964? O senhor ouviu referências de Joáo Goulart a este perigo ?

      Pedro Simon: “Nesta madrugada, na casa do comandante do III Exército, Jango foi enfático: “Estão ali – preparando”. E, no Palácio do Alvorada, quando estivemos com ele, Jango disse a mesma coisa.Sõ não disse tão enfaticamente : “Estão aqui, esperando para entrar”.

      É historicamente correta a afirmação de que o então presidente João Goulart não resistiu exclusivamente porque queria evitar derramamento de sangue ?

      Pedro Simon: “Absolutamente certo. Jango sentiu que as coisas estavam se precipitando. Ia ser algo muito grave – que fugiria do controle”.

      O senhor chegou a ouvir alguma referência do então presidente João Goulart sobre o medo que ele tinha de que houvesse derramamento de sangue no Brasil ?

      Pedro Simon: “Jango disse que não estávamos preparados para um golpe de estado. Ficou convencido de que a frota americana estava “ali do lado” e a guerra civil seria uma realidade. Eu diria com toda sinceridade que Jango teve coragem. Não foi um ato de medo : teve o peito de dizer : pago um preço mas não quero ver o que pode acontecer com o Brasil”.

       

       

    • Não, André!

      Sinto muito, mas essa é uma análise viciada, baseada em suposições e experiências pessoais sem fatos comprobatórios, ou com fatos que por si só não justificam a deposição de um presidente. Só faltou dizer que além de tudo ele era corrupto. Esses argumentos foram fomentados pela mídia na época e uma boa parte da população realmente acreditava nisso, isso não quer dizer que correspondesse à realidade. Quanto disso não poderia ser dito sobre Lula ou  Dilma? São os mesmos ataques, feitos em vários países e em várias gerações. Esses são os argumentos do poder, erráticos, dissimulados, sentimentalistas, subjetivos e vazios.

      Vou me atentar então ao único argumento factual, que supostamente estaria a comprovar essa tese, a falta de resistência nos quartéis. Sobre isso:

      1) Ter como comandante do exército alguém com grande influência nos quartéis significava na época colocar no comando um opositor ao governo. Favor citar um comandante com toda essa influência, hoje exigida por você, que poderia ter sido nomeado pelo inapto presidente na ocasião.

      2) É sabido que o comandante do 3o exército ofereceu ao Jango a possibilidade de resistência.

      3) Sobre a frota americana, será que teve alguma influência?

      Gosto dos seus comentários André, já que em geral estão fora do mainstream do blog  – o que muitas vezes acaba sendo interessante, mas o embasamento desse está muito fraco, somente ancorado em sua visão particular do mundo.

      Visão pessoal por visão pessoal, segue a do Pedro Simon (http://g1.globo.com/platb/geneton/tag/leonel-brizola/):

      O senhor testemunhou um momento dramático : o instante em que o então presidente João Goulart decidiu que não iria lutar para permanecer na presidência. O que é que ele disse, exatamente ?

      Pedro Simon: “Ficamos no aeroporto, em Porto Alegre, de meia-noite às duas e meia da madrugada, quando o avião de Jango chegou. Fomos todos para a casa do comandante do III Exército – que disse: “Presidente, estou à sua disposição. Nós – do III Exército – estamos aqui. A decisão é sua !”.

      Brizola já estava insistindo em fazer um movimento. Brizola queria que Jango o nomeasse ministro da Fazenda e nomesse o general Ladário Teles, comandante do III Exército, como ministro da Guerra, para começar, naquela madrugada, a caminhar. Deu para sentir que Jango não tinha nenhuma simpatia pela nomeação de Brizola como ministro da Fazenda. Em Ladário ele confiava, mas dava para ver que Ladário não era um daqueles generais de convivência com o presidente da República. Não tinha uma credibilidade, não era um nome de força que pudesse representá-lo em muita coisa. Representava porque estava no comando do III Exército”.

      O senhor diz que, neste encontro com o Presidente João Goulart, Leonel Brizola pediu para ser nomeado ministro da Fazenda e o general Ladário, ministro da Guerra. Por que exatamente Brizola queria ser ministro da Fazenda, naquelas circunstâncias ?

      Pedro Simon: “Você faz uma pergunta que cada um responderia de um jeito. Vou responder com a interpretação que tenho, mas com certeza absoluta : ali, naquele momento, para ser uma coisa para valer, se Brizola assumisse o ministério da Fazenda não por convite de Jango mas por imposição própria e se o general Ladário assumisse o ministério da Guerra, haveria um movimento em que Brizola é que assumiria o comando. Caso contrário, se ele fosse, por exemplo, ministro da Justiça, não iria ter um tostão, não iria ter poder nenhum. Mas ele como ministro da Fazenda, com o ministro da Guerra ao lado, poderia tentar fazer alguma coisa. Isso deve ter assustado um pouco Jango : até que ponto Brizola iria nessa caminhada”.

      Que reação o presidente João Goulart teve quando soube que a presidência da República tinha sido declarada vaga ?

      Pedro Simon: “A reação de Jango foi de profundo abatimento. Digo uma coisa interessante: Jango não estava com fisionomia de derrotado ou de medo ou de temor. Estava com uma fisionomia firme”.

      Alguém tentou convencer o presidente João Goulart, além de Leonel Brizola, a resistir ?

      Pedro Simon: “O ímpeto de resistir existia. O que deixava a gente preocupado era quando Jango dizia: “Eu sei que a Sétima Frota está ali do lado, pronta para intervir, querendo intervir ! Pelas informações que a gente tem, ela quer fazer tudo para intervir, porque acha que este é o momento de fazer a limpeza que quer fazer no Brasil. E não sei se temos condições de resistir”. Isso deixava a gente também assustado. Uma coisa muito interessante é que, no início, a reunião foi democrática. Ficamos todos na sala de estar do comandante do III Exército. Havia um hall de entrada grande. Estava todo mundo ali. Depois, alguns foram para a sala de jantar. Em seguida, foram para o quarto do comandante. E,no fim, estavam Jango, Brizola e já não lembro quem no banheiro. E aí nunca mais vi Jango – que saiu pelos fundos e foi embora”.

      O senhor confirma, então, que o ainda presidente João Goulart tinha informações sobre a iminência de uma intervenção americana no Brasil, em 1964? O senhor ouviu referências de Joáo Goulart a este perigo ?

      Pedro Simon: “Nesta madrugada, na casa do comandante do III Exército, Jango foi enfático: “Estão ali – preparando”. E, no Palácio do Alvorada, quando estivemos com ele, Jango disse a mesma coisa.Sõ não disse tão enfaticamente : “Estão aqui, esperando para entrar”.

      É historicamente correta a afirmação de que o então presidente João Goulart não resistiu exclusivamente porque queria evitar derramamento de sangue ?

      Pedro Simon: “Absolutamente certo. Jango sentiu que as coisas estavam se precipitando. Ia ser algo muito grave – que fugiria do controle”.

      O senhor chegou a ouvir alguma referência do então presidente João Goulart sobre o medo que ele tinha de que houvesse derramamento de sangue no Brasil ?

      Pedro Simon: “Jango disse que não estávamos preparados para um golpe de estado. Ficou convencido de que a frota americana estava “ali do lado” e a guerra civil seria uma realidade. Eu diria com toda sinceridade que Jango teve coragem. Não foi um ato de medo : teve o peito de dizer : pago um preço mas não quero ver o que pode acontecer com o Brasil”.

       

       

    • Desconstrução de Imagem e Correspondência aos Fatos

      Certos setores golpistas e cooptados, que incluem industriais, banqueiros, barões de imprensa, políticos patrocinados e seus protegidos, tentam sempre vender imagens depreciativas de brasileiros importantes.

      Porque o Brasil para eles é formado por Jecas Tatus, Macunaímas e assemelhados.

      Ou empresários brilhantes desde que ligados às economias alienígenas.

      Ou então serão comunistas.

      A longa tese meramente opinática do André Motta Araújo passa por aí.

      E olha que à época, já estava (bem) acordado.

      Mas esquece de alguns FATOS, como:

      1) O vice presidente eleito (na época por voto direto) sem ter governado sequer um dia e, portanto, sequer podido exibir qualquer “(in)competência”, já sofrera um golpe mesmo antes de voltar ao país, impedido de assumir a presidência. Inventaram um casuísmo parlamentarista de última hora. Tancredo “segurou a onda”.

      2) Os setores golpistas (as manjadas oligarquias que até hoje estão por aí), com o apoio externo comprovado pela obrigatória abertura legal de documentos confidenciais americanos, já estavam insatisfeitos desde Getúlio.

      3) Ainda que fosse extremamente competente (como Getúlio e Lula, talvez JK, graças a Lott), as pressões e opções realmente eram de correr quanto sangue fosse preciso (pelo lado golpista, que estaria melhor armado).

      4) Como hoje, o Brasil à época só queria ser o Brasil, desenvolvido e independente, mas fazia pate do “risco” da guerra fria, que hoje não existe mais.

      O problema não seria Brasil virar uma Cuba Continental (não viraria) mas tornar-se … independente!

      O Brasil com seu desenvolvimento e liberdades, estava muito “saidinho”…

      Futuro “concorrente”? Usufruir de suas próprias riquezas? Fora do controle dos capatazes, corretores e capitães de mato?

      Ficar querendo explicar a queda de Jango por firulinhas “mal feitas” de bastidores é coisa de quem tinha intimidade nestes bastidores. Ou meles trabalhava.

      Sequer enxergam a platéia.

      Mas (finge?) não saber que decisões estratégicas já estavam tomadas mesmo antes de sua posse (como presidente de fato, chefe de governo efetivo).

      Lembrando que já estava no final do seu curto mandato.

  4. O post é excelente e

    O post é excelente e verdadeiro.  O filme Jango, de Silvio Tendler e os documentários mais recentes,  depoimentos diversos incluindo  principalmente os dos golpistas, nacionais e estrangeirosdesmontam totalmente a idéia de que Jango “caiu sozinho” ou que como o colunista global amiguinho dos gorilas chama de “rebelião” ocorreu  por falta de apoio militar.

          O golpe , urdido desde 1954, veio tirar do poder as forças progressistas que insistiam em crescer,  ganhar democraticamente as eleições nacionais ,  angariar cada vez mais apoio popular.

          Nomes como Celso Furtado  San Tiago Dantas e Darci Ribeiro ,  apoiadores e integrantes da base do governo de Jango, entre tantos outros, desmentem a teoria de apoio inconsistente disponibilizado ao Governo democrático.

        Por contrariar  interesses  norte-americanos e das  elites rurais e empresariais de então é que o governo  sofreu o golpe, porque tais setores temiam a continuidade do poder progressista  com Brizola ou o próprio Jango.

  5. Julgamento do mentirão foi anti-republicano

    Não há nada de republicano no julgamento do “mentirão”, muito pelo contrário, o STF foi usado ficou a reboque de uma força nada republicana, a mídia. De republicano mesmo nesse julgamento só a constatação de que Lula foi republicano ao indicar os ministros mas alguns destes não foram tão republicanos. Aproveito a oportunidade para postar este ótimo texto de Lassance sobre Gushiken:

    O samurai Luiz Gushiken; por Antonio Lassance

    Em 2002, Lula foi ao hospital tirá-lo da cama, em uma das inúmeras vezes em que o “chininha”, como gostava de chamá-lo, seria derrubado, mas não vencido, por um câncer agressivo. Havia perdido  muitos de seus quilos e parte razoável de seu intestino. A ocasião talvez não fosse apropriada, mas o convite não podia esperar. Lula o queria na coordenação da campanha; depois, o faria coordenador-adjunto da transição de governo e, em seguida, ministro.

     

    Antonio Lassance*

    “Luiz Gushiken partiu como viveu: com coragem”. (Dilma Rousseff, presidente da República).

     

    “Nunca esqueceremos a contribuição generosa de Gushiken para a construção desse Brasil que sonhamos juntos e que sem ele não seria possível” (Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente da República).

     

    “Quem é esse cara que foi preso por minha causa e eu nem conheço?”

    Foi-se embora Luiz Gushiken, petista, sindicalista, ex-deputado federal e ex-ministro do primeiro governo Lula (2003 a 2006).

    Lula teve a primeira notícia sobre Gushiken quando este havia sido preso, em plena ditadura militar, organizando um fundo de greve de solidariedade dos bancários para os metalúrgicos. “Quem é esse cara que foi preso por minha causa e eu nem conheço?”

    Gushiken foi presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo, fundador da CUT, em 1983, e um dos idealizadores do Departamento Nacional dos Bancários da CUT, que deu origem à Confederação Nacional dos Bancários (CNB-CUT).

    Fundador do PT, em 1980, foi membro de seu Diretório Nacional e Presidente do Partido (de 1988 a 1990) durante a heroica campanha de 1989, a do Lula-lá.

    No PT, foi  também Secretário Sindical Nacional e Vice-Presidente Nacional. Deputado constituinte e reeleito por mais dois mandatos, em 1998 abriu mão de disputar eleições.

    O estrategista que gostava de Muhhammad Ali

    Em 2002, Lula foi ao hospital tirá-lo da cama, em uma das inúmeras vezes em que o “chininha”, como gostava de chamá-lo, seria derrubado, mas não vencido, por um câncer agressivo. Havia perdido  muitos de seus quilos e parte razoável de seu intestino. A ocasião talvez não fosse apropriada, mas o convite não podia esperar. Lula o queria na coordenação da campanha; depois, o faria coordenador-adjunto da transição de governo e, em seguida, ministro.

    Gushiken gostava de tudo que dissesse respeito, direta ou indiretamente, a conhecimento estratégico. Era aficionado por estudar métodos e técnicas de planejamento; lia sobre a arte da guerra e grandes batalhas. Gostava de lutas de boxe e nelas via também estratégia. A luta entre Muhammad Ali e George Foreman, em 1974, a “jungle fight” montada no Zaire de Mobuto e transmitida para o mundo, era por ele considerada a luta do século. Muito frequentemente, lhe servia como analogia.

    A luta mostrava como alguém em desvantagem podia vencer um oponente mais forte, se usasse a estratégia correta. Foreman era, naquele momento, um oponente superior a Muhammad Ali. A estratégia de Ali parecia estranha e perigosa: apanhar, segurar o tranco até o último round e cansar o adversário. Assim fez, esperando o momento exato até que seu rival, exausto, estivesse no ponto para ser derrotado. Muhammad Ali reconquistou seu cinturão quando a maioria o julgava acabado.

    O samurai na comunicação de governo

    Mais que uma analogia, Gushiken fez uso dessa estratégia inúmeras vezes. Por exemplo, quando precisou dar um “chega pra lá” em Duda Mendonça, marqueteiro da campanha de 2002 e um dos publicitários oficiais do governo, a partir de 2003. Gostemos ou não de Duda Mendonça, ninguém discute que ele é um dos melhores naquilo que faz: marketing político. Por sua vez, o conhecimento da área de comunicação não era um dos pontos fortes de Gushiken.

    Duda circulava pela Esplanada e conversava diretamente com ministros e com o próprio presidente sobre publicidade, campanhas e marketing. Eminência parda da área, agia como um ministro sem pasta. Percebendo a investida, Gushiken tomou uma atitude defensiva. Deu uma entrevista na qual dizia que Duda seria transformado em uma espécie de consultor para cuidar da imagem do governo e seus programas. Todos à volta de Gushiken imaginavam que ele estava entregando os pontos.

    No dia seguinte, as manchetes dos jornais apelidavam Duda de “o ministro da propaganda” de Lula. Exposto, Duda acusou o golpe e disse que gostava de fazer publicidade, e não de ter que ficar dando explicações à imprensa todo dia. Procurou Gushiken e disse: “o ministro é você, e mais ninguém”. O publicitário nunca mais discutiu nada sobre a publicidade sem antes passar pela Secom. Promovendo a figura de Duda, Gushiken obrigou-o, diante do estigma de ministro da propaganda e do holofote negativo, a jogar a toalha.

    Na verdade, Gushiken nunca quis ser ministro da Secretaria de Comunicação. Queria uma  Secretaria de Assuntos Estratégicos, que já não mais existia – havia acabado durante o segundo mandato de  FHC. Mas Lula insistia na ideia da comunicação. Precisava de um ministro de sua absoluta confiança para cuidar da estratégia de centralização da comunicação de governo, como forma de imprimir suas marcas. A solução salomônica foi juntar as duas coisas: o que Lula queria e o que Gushiken pedia. Assim nasceu a Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República.

    Reviravoltas na comunicação

    A comunicação de governo sofreu uma reviravolta sob o comando do “chininha”, do “Gushi”, do “samurai” – para citar alguns dos vários apelidos pelos quais Gushiken era referido.

    Antes do governo Lula, havia ministérios, como o da Educação, de Paulo Renato Souza; o da Saúde, de José Serra; e o  do Desenvolvimento Agrário, de Raul Jungmann, que suplantavam em muito a estrutura de comunicação da própria Presidência da República. A partir de Gushiken, os ministérios passaram a fazer exclusivamente a dita publicidade de utilidade pública. A publicidade institucional de governo estaria a cargo só da Presidência.

    O Governo Federal passou a ter um negociador único (a Secom) da verba publicitária, e a relação com os veículos de comunicação inverteu-se. Alguns veículos eram privilegiados na distribuição de verbas publicitárias sem qualquer relação com a audiência ou com o público-alvo das campanhas.

    Uma dessas campanhas, para o Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf),  gerou outra reviravolta. Quando veio o plano de mídia, com a lista dos veículos, o cronograma de veiculação das peças publicitárias e os valores a serem gastos, não havia veículos do interior. Ou seja, a publicidade de um programa destinado a agricultores seria feita, em sua maior parte, nas capitais, e não em áreas rurais.

    O ministro devolveu a planilha, pediu mais rádio e mais jornais do interior. As agências voltaram em polvorosa. Como fazer propaganda em veículos do interior? Ninguém sabe quem eles são e que audiência têm. A resposta de Gushiken foi uma espécie de “se virem e descubram”.

    A teimosia do dirigente acabou gerando o primeiro processo de regionalização da verba publicitária. A própria equipe da Secom começou a cadastrar e a incentivar o processo de formação ou fortalecimento das associações de veículos do interior, que se organizaram para contratar mecanismos para a aferição de audiência para que pudessem ser remunerados conforme sua capacidade de difusão da informação.

    Pela primeira vez se discutiu claramente que a publicidade deveria considerar a audiência (o que não ocorria antes), mas não se resumir a ela. A escolha de veículos também deveria ser adequada aos segmentos de público específicos aos quais a mensagem das campanhas se destinasse. É algo que hoje mereceria ser feito em relação à internet e ainda não o foi.

    Cartas críticas e puxões de orelha nos ministros

    Gushiken também levou para a Secom, a pedido de Lula, o jornalista Bernardo Kucinski, que desde a campanha eleitoral produzia uma análise das notícias publicadas pela imprensa. Kucinski passou a produzir as Cartas Críticas durante as madrugadas, e o documento seguia bem cedo para o Palácio da Alvorada. As cartas eram críticas em relação ao governo e também quanto à distorção de informações de parte da imprensa.

    Lula sistematicamente usava a Carta Crítica como um roteiro para seus puxões de orelha em ministros. Durante suas caminhadas matinais, o presidente lia o documento e disparava ligações para cobrar providências de seus auxiliares. Um deles reclamou com o ministro da Secom: “O Bernardo tem que parar com isso. Todo dia o presidente me liga pra reclamar”. Gushiken respondeu: “mas é exatamente pra isso que chamamos o Bernardo”.

    Outra novidade foi a criação de um boletim chamado Em Questão, uma espécie de Voz do Brasil, só que impresso. O Em Questão era o principal instrumento do governo para divulgar suas notícias  de forma rápida. Embora tivesse versão impressa, sua maior circulação se dava por email. A imprensa o apelidou de Pravda (em russo, “a verdade”), nome do famoso jornal da antiga União Soviética. A fama disseminada acabou ajudando a divulgar sua existência e a chamar a atenção para suas notícias. Ao final de 2006, o Em Questão chegava impresso ou por email a meio milhão de pessoas.

    Ainda em 2003, foi criado o Café com o presidente, que trazia de volta ao rádio o recado semanal do presidente da República. O programa existe até hoje – agora, Café com a presidenta.

    Contra o complexo de vira-latas, “o melhor do Brasil é o brasileiro”

    Em 2004, Gushiken convidou as principais agências de publicidade do setor privado para uma ação conjunta, em parceria com as agências que serviam ao governo. Os publicitários foram incentivados a pensar peças de uma grande campanha para reforçar a autoestima dos brasileiros. Era a época do combate sem tréguas ao “complexo de vira-latas”, expressão de Nélson Rodrigues que Lula pegou emprestado para criticar os que não confiavam no Brasil e falavam mal do país no exterior.

    O esforço em parceria deu origem à campanha “O melhor do Brasil é o Brasileiro”, feita toda sobre exemplos de superação e valores como a honestidade. O slogan “sou brasileiro e não desisto nunca” virou um bordão.

    As campanhas de autoestima, a regionalização dos gastos de publicidade, a criação do Fórum de Assessores de Comunicação, do Em Questão e do Café com o presidente, o fortalecimento da Radiobrás, da TV e das rádios educativas foram alguns dos legados de Gushiken no comando da Secom. Muitos desses legados foram abandonados por uma comunicação de governo que aos poucos foi perdendo peso político e hoje é destituída de qualquer sentido estratégico.

    O inferno abre suas portas

    Em 2005, o escândalo desencadeado pelas acusações de Roberto Jefferson, presidente do PTB, levantou suspeitas sobre a comunicação do governo. O pivô das acusações era o empresário Marcos Valério, um dos sócios da agência DNA Propaganda. Valério ainda hoje é chamado de publicitário, sem ser. Embora fosse sócio de uma agência publicitária, seu verdadeiro negócio não era esse, e sim o sistema financeiro. Como disse a própria presidente do Banco Rural, em depoimento à CPI e à Justiça, Valério atuava como lobista em favor de bancos. O dinheiro do que acabou conhecido como “mensalão”, carimbo criado por Jefferson, era pago por bancos médios (como o Rural) ao lobista com a expectativa de terem acesso a serviços que, até então, eram restritos aos grandes bancos.

    Gushiken sabia que as acusações contra ele tinham como objetivo atingir o presidente Lula e quebrar as pernas da comunicação de governo. Mas suspeitava também que muitas das ilações eram patrocinadas, de alguma forma, por seu arqui-inimigo, Daniel Dantas.

    Dantas foi o mago das finanças do processo de privatização durante o governo FHC. Canalizou o interesse de grandes fundos de investimento estrangeiros e tinha peso sobre a decisão de vários fundos de pensão de trabalhadores do setor público, que tiveram recursos utilizados justamente para financiar a privatização de empresas estatais.

    Em 2004, eis que a Polícia Federal, na Operação Satiagraha, que investigava o escândalo da falência da Parmalat, descobriu que Dantas contratara a Kroll, maior empresa de espionagem do mundo, para espionar, entre outros, Luiz Gushiken. Na esteira da investigação, foi também desvendada uma teia de relações de Dantas com o meio jornalístico, com “profissionais” contratados para falar mal do ministro de Lula.

    A PF concluiu que Dantas havia montado uma verdadeira organização criminosa, que acabou acusada dos crimes de quadrilha, corrupção ativa, quebra de sigilo constitucional, exploração de prestígio e obtenção ilegal de documentos confidenciais. O desfecho de tudo é conhecido: Dantas foi preso e quase imediatamente solto pelo STF, e o único que passou por dificuldades com o processo foi o delegado da Polícia Federal que comandou a Satiagraha, Protógenes Queiroz, hoje deputado federal (PCdoB-SP).

    Acusado injustamente, finalmente inocentado

    Gushiken, desde o início, manteve-se convicto de que não havia dinheiro da comunicação no dito mensalão. Dizia que a única maneira de algum valor substancial da área ir parar nas mãos dos partidos seria se os veículos estivessem remetendo os recursos de publicidade para campanhas eleitorais. A quase totalidade do dinheiro da publicidade é gasto justamente na veiculação de comerciais. Não fazia sentido.

    Com essa certeza em mãos, Gushiken foi para uma das comissões parlamentares de inquérito montadas no Congresso e enfrentou gente como Eduardo Paes e Gustavo Fruet. Ambos eram estrelas do  PSDB no espetáculo midiático do mensalão e diziam estar enfrentando o governo mais corrupto de toda a história do Brasil. Paes e Fruet, hoje no PDMB e no PDT, respectivamente, iriam depois se desculpar pessoalmente com Lula e pedir de joelhos o apoio às suas campanhas às prefeituras do Rio de Janeiro e de Curitiba, em 2012.

    Acusado injustamente, Gushiken foi inocentado na peça elaborada pelo procurador-geral da República, no relatório de Joaquim Barbosa e pelo voto de todos os ministros do Supremo Tribunal Federal. As manchetes do dia seguinte de forma alguma lhe fizeram justiça. Dizem, ainda hoje, após sua morte, que ele foi inocentado por “falta de provas”, como se fosse possível haver provas de algo que não existiu.

    Nenhum dos detratores pediu desculpas a Gushiken.

    De volta à estratégia

    Enquanto vários ministros caíram, ao longo de 2005 e 2006, Gushiken ficou. Assim que o escândalo do mensalão se instalou, percebeu que o duro golpe que sofrera lhe abria uma oportunidade: a de convencer Lula de seu projeto original. O presidente finalmente concordou em deixá-lo cuidar só de assuntos estratégicos. Surgiu assim o Núcleo de Assuntos Estratégicos (NAE), separado da Secom. Gushiken pediu para não ter status de ministro e nem sala reservada no Palácio do Planalto.

    De 2003 a 2006, em torno do projeto Brasil 3 Tempos (2007, 2015, 2022), foram feitos estudos sobre biocombustíveis, mudanças climáticas, nanotecnologia, macroeconomia para o desenvolvimento, educação em tempo integral, tecnologias sociais, reforma política, desenvolvimento regional e cenários de longo prazo, entre outros.

    Último round

    Lula reelegeu-se em 2006 e Gushiken foi convidado a continuar no governo. Declinou. Queria um pouco de paz e achava que não ajudaria mais o governo. Ao contrário, seria uma fonte permanente de insinuações e ilações. Antevia o circo que seria montado em torno da AP 470, que ainda estava longe de concluir por sua inocência.

    Uma de suas últimas batalhas foi travada contra a revista Veja. O semanário havia publicado informações mentirosas a seu respeito. Indignado, consultou um advogado, que o desestimulou a ingressar com a ação, pois, mesmo ele estando com a razão e podendo provar que Veja havia mentido, o processo seria demorado e o resultado era incerto. A indenização, se viesse a ser concedida, seria menor que os honorários advocatícios e pouco valeria para reparar o dano.

    Gushiken preferiu discordar do prognóstico e insistiu em entrar com a ação. O samurai ainda teve tempo de ver a Justiça lhe dar ganho de causa. A revista foi obrigada a indenizá-lo por danos morais. Espancado pela Veja ao longo de todo o governo Lula, saiu-se vitorioso no último de seus rounds.

    Poucas semanas depois de ter completado seus 63 anos, reuniu a família, fez um balanço de sua vida, falou dos desafios do governo Dilma e do PT, despediu-se. Já não tomava a medicação, pois ela não mais produzia efeito, a não ser os negativos. Estava com 35 quilos.

    O 13 que o acompanhou por toda a sua vida política selou seu derradeiro fim. Gushiken morreu na noite do dia 13 de setembro de 2013.

    _____________________________________________

    * Antonio Lassance é doutor em Ciência Política pela Universidade de Brasília, foi coordenador administrativo da transição de governo, em 2002; chefe de gabinete de Luiz Gushiken, de 2003 a 2005; e Secretário-Geral do Núcleo de Assuntos Estratégicos, em 2006. É Técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do instituto. Artigo publicado no blog de Antonio Lassance.

     

     

     

    IMAGENS

     

  6.  Parece que foi ontem. o

     Parece que foi ontem. o jingle ainda está na minha cabeça:

    Para vice-presidente

    Nossa gente vai votar

    É o Jango! É o Jango!

    Éo Jango Goulart

  7. Acho que entre o comentario

    Acho que entre o comentario do Diogo e do André, tem uma lacuna. Acho impossivel que Jango tenha caido apenas (sei que Diogo da ênfase a isso mais que outros fatores) pela ascenção do PTB. Por outro lado, o que diz André Araujo também parece distorcido, meio embaralhado com o que dizem  comumente sobre João Goulart. 

    João Goulart caiu por uma conjunção de fatores, isso é fato. Pressões de todos os lados, parte dos militares que não reconhecia seu governo e, sobretudo, nenhum setor da elite brasileira naquele momento desejava uma reforma agraria e as outras que Brizola, Darcy Ribeiro e todo o governo de Jango queriam colocar em pratica. Com a experiência do suicidio de Getulio e apoio de parcela da população a Jango, eles ficaram apavorados. Eles, a velha elite de sempre. 

     

  8. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome