Feminicídios na Argentina: o silêncio político de Milei
por Maíra Vasconcelos
Agostina Vega, 14, Dulce María Candia, 17, e Noelia Carolina Romero, 30. Elas são as vítimas dos últimos feminicídios que aconteceram na Argentina, razão pela qual, no último 3 de junho, foram realizadas marchas multitudinárias em várias capitais do país. Há poucas horas do protesto nacional, convocado pelo movimento feminista argentino “Ni Una Menos”, o presidente Javier Milei, em silêncio completo, até esse momento, usava seu perfil de Instagram para difundir “O dia do cachorro”.
O presidente é contra a tipificação do crime contra mulheres, contra a catalogação de tais crimes que os define não apenas como homicídio, mas como feminicídio. Quer dizer, Milei defende que a lei deve tratar todas as vítimas de forma igual, independentemente do sexo. Tanto é que, nem bem assumiu a presidência, o governo “libertário” trouxe ao debate público a intenção de eliminar a figura do feminicídio do Código Penal.
A política de invisibilização do feminicídio está em sintonia com a política de eliminação de estruturas institucionais voltadas à atenção das chamadas minorias sociais. Duas práticas de poder que falam sobre o mesmo discurso de ódio que busca priorizar a equação desumana de que somos todos iguais. Isso que, por sua vez, atua em conjunto com a ideia clássica dos governos de direita e extrema-direita, de que a estrutura social de desigualdade pode ser vencida por meio da meritocracia.
Não apenas o governo argentino, mas há outros exemplos na América Latina, Chile (Antonio Kast), El Salvador (Nayib Bukele), e parece que a Colômbia é a nova candidata a fazer parte da lista de governos que usam o poder em prol de uma cultura que busca apagar as diferenças, em vez de ressaltá-las e que o Estado se encarregue de administrar políticas de acolhimento e bem-estar a essas populações.
Visibilizar as diferenças sociais pode ser uma forma de tratar as discriminações, a depender das políticas de governo. Vale lembrar que o governo Milei fechou o órgão responsável por acolher casos de racismo e outros tipos de discriminações. O Instituto Nacional contra a Discriminação, a xenofobia e o racismo (INADI) funcionou por 30 anos, até encerrar definitivamente suas atividades em 2024.
Durante os dias prévios à marcha, que comemorava também 11 anos do “Ni una Menos”, o silêncio do governo não foi absoluto. O movimento feminista foi responsável pela organização dos principais protestos que culminaram na legalizaçao do aborto na Argentina, aprovado pelo Congresso, em dezembro de 2020.
A hoje presidente do bloco “A Liberdade Avança” no Senado, Patricia Bullrich, responsável por uma série de repressões a protestos de rua, principalmente no início do governo, quando era ministra da Defesa, publicou um post em suas redes sociais. Milei se pronunciou por meio da ministra: apertou o botão e republicou a postagem dizendo, “Masterclass”. Outra funcionária do governo que falou sobre a série de feminicídios, a ministra de Segurança, Alejandra Monteoliva, evitou o termo “feminicídio” e descreveu os casos como “homicídios”.
O governo tem promovido uma diminuição drástica de verbas aos programas voltados às questões de gênero. O que também veio acompanhado pela estratégia de eliminação de ministérios específicos que gerem essas áreas, como o antigo Ministério das Mulheres, Gênero e Diversidade, que foi rebaixado à secretaria e incorporado dentro de outro ministério com funções amplas.
Milei não se pronunciou sobre os casos de feminicídios que levaram milhares de pessoas às ruas na Argentina. Mas, há poucas semanas, se posicionou de forma veemente sobre a desclassificação do Boca Juniors, da Copa Libertadores da América. Isso porque hoje o clube é presidido pelo ex-jogador Juan Roman Riquelme, que ganhou as eleições do Boca em 2023. À época, Milei apoiou a chapa da oposição liderada também pelo ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019), que o ajudou a chegar à presidência.
Enquanto isso, entre silêncios e pronunciamentos escolhidos a dedo – que exclui ou despreza certos atores sociais – junto a seu assessor pessoal Santiago Caputo, figura reservada, mas também polêmica por articular negócios com órgãos do Estado, já que não é funcionário público, Milei atravessa o momento mais complicado do seu governo, ao registrar seu maior índice de reprovação nas pesquisas. E, não à toa, a imagem negativa do presidente é muito mais alta entre mulheres, chegando a 72%.
Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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