27 de julho de 2026

A nova disputa entre Brasil e EUA também passa pelo audiovisual, por Helder Quiroga

À primeira vista, cinema e streaming podem parecer temas periféricos diante das grandes questões comerciais. Não são.
Unsplash - Reprodução

Brasil e EUA disputam controle sobre produção e monetização do conteúdo audiovisual nas negociações comerciais.
Audiovisual brasileiro movimenta R$ 70,2 bi em 2024 e gera 608 mil empregos diretos, indiretos e induzidos.
Brasil é mercado estratégico e precisa tratar audiovisual como política industrial para aumentar investimentos nacionais.

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A nova disputa entre Brasil e Estados Unidos também passa pelo audiovisual

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por Helder Quiroga

Quando se analisa a atual agenda comercial entre Brasil e Estados Unidos, o debate costuma concentrar-se em tarifas, commodities, indústria de transformação e tecnologia. Minérios estratégicos, etanol, setor automotivo, semicondutores e comércio digital dominam as manchetes. No entanto, uma disputa muito mais silenciosa — e potencialmente mais relevante para o futuro da economia — vem ganhando espaço nas negociações internacionais: o controle sobre a produção, a circulação e a monetização do conteúdo audiovisual.

À primeira vista, cinema e streaming podem parecer temas periféricos diante das grandes questões comerciais. Não são.

Na economia do século XXI, propriedade intelectual, dados, algoritmos e criatividade tornaram-se ativos estratégicos. Filmes, séries, animações, documentários e jogos digitais deixaram de ser apenas manifestações culturais para compor uma das cadeias produtivas mais sofisticadas da economia global.

Essa transformação ajuda a explicar por que a discussão sobre a regulamentação das plataformas digitais passou a integrar a agenda geopolítica das grandes potências. O debate não se restringe à tributação ou ao ambiente regulatório. Ele envolve a definição de quem produzirá riqueza, onde ela será tributada, quem controlará os dados dos consumidores e quais países concentrarão os investimentos da economia criativa nas próximas décadas.

Nesse contexto, o Brasil deixou de ser apenas um mercado consumidor para tornar-se um ativo estratégico.

Somos um dos maiores mercados mundiais de consumo de conteúdo digital. Ao mesmo tempo, possuímos uma diversidade cultural capaz de gerar narrativas que dificilmente podem ser reproduzidas em qualquer outro lugar do planeta. Em uma indústria na qual originalidade passou a ser um diferencial competitivo, essa diversidade representa uma vantagem econômica de enorme valor.

Os números ajudam a compreender essa mudança de escala.

Segundo o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, elaborado pela Firjan, a economia criativa já representa 3,59% do Produto Interno Bruto brasileiro, movimentando aproximadamente R$ 393 bilhões por ano e empregando mais de 1,2 milhão de trabalhadores formais. Não se trata mais de um segmento marginal da economia, mas de uma atividade intensiva em conhecimento, inovação e geração de empregos qualificados.1

A dimensão econômica do audiovisual brasileiro revela uma indústria com capacidade concreta de gerar riqueza e empregos qualificados. Dados consolidados pela Agência Nacional do Cinema (ANCINE) apontam que o setor adicionou R$ 32,7 bilhões à economia brasileira e foi responsável por aproximadamente 79 mil empregos diretos,
com remuneração média superior à média nacional. Estudos de impacto econômico mais amplos, considerando toda a cadeia produtiva — incluindo produção, distribuição, exibição, televisão, plataformas digitais e fornecedores associados — estimam que o audiovisual movimentou R$ 70,2 bilhões no PIB brasileiro em 2024 e sustentou cerca de 608 mil empregos diretos, indiretos e induzidos. Esses números demonstram o efeito multiplicador da atividade audiovisual, que impulsiona não apenas a produção cultural, mas também setores como tecnologia, turismo, serviços criativos e economia regional.2

No cenário internacional, a tendência é ainda mais expressiva. A consultoria PwC projeta que a indústria global de mídia e entretenimento deverá movimentar aproximadamente US$ 3,5 trilhões até 2029, impulsionada principalmente pelas plataformas digitais, publicidade, streaming, videogames e produção de conteúdo audiovisual.3

Paralelamente, estudos da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (WIPO) mostram que os investimentos globais em ativos intangíveis — software, marcas, design, dados e propriedade intelectual — já superam os investimentos em diversos ativos físicos tradicionais. Em outras palavras, a riqueza das economias contemporâneas está migrando da produção de bens materiais para a criação de conhecimento.4

É justamente nesse ambiente que o audiovisual ganha importância estratégica.

Cada filme produzido mobiliza uma extensa cadeia econômica. Envolve tecnologia, arquitetura, engenharia, construção civil, transporte, hotelaria, alimentação, turismo, publicidade, moda, design, serviços financeiros, telecomunicações e inovação digital. O audiovisual é uma indústria transversal, cujo impacto vai muito além das telas.

Ao mesmo tempo, seu produto final possui uma característica rara: pode ser exportado infinitas vezes sem perder valor. Diferentemente de uma commodity agrícola ou mineral, uma obra audiovisual bem-sucedida gera receitas recorrentes por décadas, fortalece marcas, estimula o turismo, amplia mercados consumidores e projeta
internacionalmente a imagem de um país.

É por essa razão que nações como França, Coreia do Sul, Canadá e diversos países da União Europeia tratam suas políticas audiovisuais como parte integrante de suas estratégias de desenvolvimento econômico. Esses países compreenderam que investir em conteúdo nacional não significa fechar mercados, mas criar condições para competir em igualdade com grandes conglomerados internacionais.

O Brasil reúne condições semelhantes.

Possuímos profissionais reconhecidos internacionalmente, polos regionais de produção em expansão, universidades, produtoras independentes, capacidade técnica crescente e uma das maiores diversidades culturais do mundo. Nos últimos anos, o cinema brasileiro voltou a conquistar espaço em festivais internacionais e grandes premiações, demonstrando que nossa produção é competitiva quando encontra condições adequadas de financiamento e distribuição.

Entretanto, ainda existe um desafio estrutural.

Grande parte da riqueza gerada pelo consumo de conteúdo audiovisual realizado no Brasil continua sendo apropriada por empresas sediadas no exterior. As plataformas globais desempenham papel importante na democratização do acesso ao conteúdo, mas a ausência de mecanismos regulatórios capazes de ampliar investimentos permanentes na produção nacional limita o potencial econômico dessa atividade para o país.

Essa discussão costuma ser interpretada exclusivamente sob uma perspectiva cultural. Talvez seja justamente esse o equívoco.

O audiovisual precisa ser compreendido como política industrial.

Assim como discutimos cadeias estratégicas relacionadas à energia, ao agronegócio, aos semicondutores ou à inteligência artificial, também deveríamos discutir a economia da propriedade intelectual produzida no Brasil.

A verdadeira competição internacional já não ocorre apenas entre fábricas, portos ou reservas minerais. Ela acontece nos algoritmos que distribuem conteúdo, nos catálogos das plataformas digitais, nas marcas globais, nos personagens capazes de movimentar bilhões de dólares em licenciamento e nos direitos de exploração de obras audiovisuais.

Em um mundo no qual a influência econômica depende cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento e inovação, quem controla as narrativas controla também parte significativa da riqueza.

Por isso, o debate sobre o audiovisual brasileiro interessa muito mais do que ao setor cultural. Trata-se de uma agenda de competitividade, inovação, geração de empregos qualificados, atração de investimentos e soberania econômica.

Durante décadas, o Brasil tratou o audiovisual predominantemente como política cultural. Essa dimensão permanece essencial e deve ser preservada. Mas ela já não é suficiente para responder aos desafios da economia contemporânea.

Chegou o momento de reconhecer que criatividade também é infraestrutura econômica.

O país já compreendeu o valor estratégico do petróleo, do agronegócio, da mineração e da indústria de transformação. O próximo passo será reconhecer que histórias, marcas, personagens e propriedade intelectual também constituem ativos nacionais.

No século XXI, soberania não será medida apenas pela capacidade de produzir bens físicos, mas também pela capacidade de criar conhecimento, desenvolver tecnologia e contar ao mundo suas próprias histórias.

O Brasil não pode mais enxergar o audiovisual apenas como manifestação cultural, mas como uma indústria estratégica do século XXI. Em uma economia global movida por narrativas, criatividade e inovação, nossas histórias, territórios e identidades representam ativos capazes de gerar riqueza, empregos e influência internacional. O audiovisual brasileiro tem diante de si a oportunidade histórica de transformar a força cultural do Brasil em desenvolvimento econômico e consolidar o país como uma potência criativa no mundo contemporâneo.

Notas

1 https://www.firjan.com.br/noticias/mapeamento-da-industria-criativa-2025-
8AE4828D96AAF437019783E8CFE02F31-00.htm?utm_source=chatgpt.com

2 https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca/publicacoes/arquivos.pdf/anuario-do-audiovisual-brasileiro2024r.pdf?utm_source=chatgpt.com

3 https://www.pwc.com.br/pt/estudos/setores-atividade/entretenimento-midia/2025/pesquisa-globalde-entretenimento-e-midia-2025-2029.html

4 https://www.wipo.int/pressroom/en/articles/2026/article_0011.html

Helder Quiroga é Mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília (UnB), diretor de cinema, produtor e consultor em mercados audiovisuais. Atua na formulação e desenvolvimento de políticas para o setor, tendo participado de iniciativas junto ao MDIC, FIEMG e ANCINE. Em 2016, recebeu o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro pelo filme “Égun – Os Mistérios do Mar”.

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