6 de junho de 2026

Ignia – um conto metafórico, por Leticia Sallorenzo

Trago a todos a história fantástica de uma Terra Mágica, que eu resolvi chamar de Terra Mágica de Ignia, e da tragédia mágica que se abateu sobre aquela terra.

Ignia – um conto metafórico

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por Leticia Sallorenzo

Já que a Anitta chamou o Lula de Dumbledore, hoje vou falar de magia. Vamos pensar em duas metáforas:

– Democracia é mágica

– Estado Democrático de Direito é a magia e o bom fluxo da magia por toda a terra mágica

Com essas metáforas em mente, trago a todos a história fantástica de uma Terra Mágica, que eu resolvi chamar de Terra Mágica de Ignia, e da tragédia mágica que se abateu sobre aquela terra.

Os ígnios, habitantes daquela terra, escolhiam, a cada quatro anos, a quais bruxos conceder mais poderes mágicos – que os tornavam Princeps Agri. Os ígnios faziam essas escolhas em caixas mágicas, ou Conlectarius, protegidas e confiáveis, que ficavam a cargo dos membros da Superior Comitiorum Curiae (SCC), os Guardiões das Conlectarius. Alguns desses Guardiões também eram guardiões da Curiae Federalis Superior (CFS), que tinham por dever de ofício proteger o Livro das Sombras, ou Book of Shadows, o Livro da Sabedoria Mágica ao qual todos em Ignia respeitavam e obedeciam.

Os ígnios individualmente tinham pouco ou quase nenhum poder. Sua magia era plena a partir das Conlectaria Comitiorum, que reuniam todos os feitiços Suffragia lançados pelos ígnios. As Conlectaria vieram a corrigir sérias confusões causadas pelos feitiços Suffragia em papiros. Com as Conlectaria, criadas pelos Guardiões da SCC, em questão de horas, todos os feitiços eram somados e as Conlectaria concediam o poder nelas concentrado diretamente à escola de bruxaria vencedora das Comitia, o evento no qual os vilarejos de Ignia eram ouvidos.

A partir das Conlectaria, acionadas durante as Comitia, que eram regidas pela Curiae Comitiorum superior, SCC, os ígnios concediam poderes a estes ou àqueles bruxos, a depender de suas vontades e desejos. E assim a magia circulava plena, perfeita e harmonicamente por toda a Terra Mágica de Ignia.

Havia em Ignia duas escolas de bruxaria que não se toleravam: Avis e Stella. Os tucan digo, os bruxos de Avis sempre reinaram em Ignia, muito antes do advento das Conlectarius. Os bruxos de Stella são sábios vilarejos que estudaram Magia e entenderam como conjurar poderes mágicos a partir da união dos parcos poderes dos vilarejos, e por isso eram odiados pelos bruxos pretensamente superiores, que tinham certas dificuldades de entender que seus poderes vinham dos vilarejos. É bem verdade que muitos vilarejos de Ignia também tinham dificuldades de entender que aqueles bruxos superiores só eram poderosos por causa dos feitiços Suffragia, mas isso é outra história e envolve os bruxos Diurnarius e suas conexões com Avis, da qual muitos duvidam e desdenham.

O caminho (igualmente mágico) para o reinado de Avis e Stella se abriu em 5 de outubro de 1988, quando o bruxo Ulysses reuniu e liderou uma Assembleia Grimorial de Bruxos e Bruxas que reconstruíram o Livro das Sombras, página por página, e criaram novos feitiços, ao qual todos juraram respeitar. Foi esse Livro das Sombras que espalhou o poder mágico por toda Ignia, fez com que todos os habitantes daquela Terra Mágica tivessem poderes que só se conjuravam a partir das Comitia, e trouxe a Ignia a harmonia mágica – o que não significa paz, porque os ígnios sempre foram festeiros, beberrões e brigões, assim como os irredutíveis gauleses de Goscinny e Uderzo.

Esse Livro das Sombras criou o Trium Potentia (The Power of Three), ou o Poder dos Três: Legum, Executum et Judicia. Assim como acontecia com as três irmãs bruxas Halliwell, de Charmed, a harmonia em Ignia só estaria garantida se os Três Poderes fossem unidos, se respeitassem mutuamente e cuidassem, em conjunto, do Livro das Sombras restaurado e reorganizado. As irmãs Halliwell, inclusive, sempre evocavam esse feitiço: “The Power of three will set us free”. Em Ignia, as Casas de Governo ficavam reunidas na Potentiae Trium Quadrata. Do lado esquerdo, reinava o Princeps Agri; do lado direito, os Guardiões do Livro das Sombras, na Curiae Federalis Superior, e no meio dos dois os vários bruxos do Legum, que conjuravam feitiços a serem sancionados pelo Princeps Agri.

A rivalidade entre as casas mágicas de Stella e Avis cresceu por volta de 1992, quando rolou um estresse brabo lá, o Bruxo Itamaris tornou-se Princeps Temporalis de Ignia e, em seu governo, ascendeu o bruxo Fernandus Enricus, de Avis. Lizinacius, bruxo-mor de Stella, recusou-se, por recomendação de toda a Escola, a formar parte naquele governo. Dois anos depois, graças ao Feitiço Realis, Fernandus Enricus tornou-se o Bruxo governante de Ignia, e Lizinacius foi relegado a segundo plano. Diziam, inclusive, que se Lizinacius se tornasse Princeps Agri, ele iria destruir o feitiço Realis que, segundo os bruxos de Avis, quando funcionasse plenamente traria prosperidade aos vilarejos de Ignia. E, com essa promessa, a escola de Avis pretendia revezar eternamente seus bruxos no cargo de Princeps Agri.

Mas uma característica de Ignia é que os feitiços daquela terra têm sempre duração limitada. Nenhuma escola de bruxaria foi capaz de perceber isso. Fato é que o feitiço Realis começou a falhar, já no advento do novo século XXI. A escola de Avis não conseguia reformular o feitiço de forma que ele funcionasse em toda sua plenitude e garantisse casa, comida, saúde e educação aos ígnios. (Lembrando que Avis dizia que quem faria isso seria, justamente, Stella.) Daí que, nas Comitia de 2002, os ígnios resolveram conceder o poder do Princeps Agri a ao bruxo Lizinacius.

Com a ascensão de Stella ao poder, os vilarejos de Ignia conheceram a prosperidade. Comida farta, habitação, saúde, possibilidade de estudos no exterior. Tudo com uma série de feitiços Marsupium que os bruxos de Avis não sabiam como conjurar: Marsupium Familiae; Domus Meus Vita Mea; Marsupium Scholastica; Scientia Sine Finibus.

Os bruxos de Avis odiavam profundamente os bruxos de Stella por espalharem prosperidade aos vilarejos de Ignia fazendo uso de sabedoria, partilha e bons feitiços, feitos todos por bruxos muito estudiosos. Avis dizia que Marsupium Familiae era, na verdade, um feitiço Marsupium Eleemosyna.

Aí veio 2014. As Comitia daquele ano antagonizaram o bruxo Aecius, de Avis, com a bruxa Wania, de Stella, sábia e correta sucessora de Lizinacius, que havia ascendido a Princeps Agri em 2010 e buscava ser reconduzida ao cargo.

As Comitia foram pesadas, difíceis e complicadas. Houve até a morte do bruxo Eduardus na queda deum voo, coisa estranhíssima, mas que embolou toda a contenda. Ao final, as Conlectarius confirmaram mais 4 anos do poder de Princeps Agri à bruxa Wania. Aecius não aceitou o resultado, tampouco ser derrotado por uma mulher.

E é aqui que começa a confusão em Ignia.

Aecius, o bruxo derrotado, resolveu que não iria mais respeitar a Magia. Aliou-se a Eduardus Cuneum, bruxo afeito a magia negra que se tornou princeps da Federati Cubiculi, uma das casas do Poder Legum.

O bruxo Cuneum manobrou e manipulou tanto que conseguiu remover o poder Princeps Agri da bruxa Wania. Muitos bruxos e mesmo vilarejos sensitivos avisaram: o Livro das Sombras perdeu poderes importantes. O Trium Potentia foi seriamente abalado.

Os Bruxos Guardiões não deram trela. Não só confirmaram a validade dos feitiços de Cuneum como um dos Guardiões comandou pessoalmente a destituição do poder de Wania.

Ascendeu ao poder de Princeps Temporalis o bruxo Miguelus Temerius, que de anjo só tinha o nome mesmo.

Veio 2018, os sensitivos avisavam, dia sim e outro também, que o Livro das Sombras estava sob forte ameaça, prestes a se desmantelar, e nada da Curiae Superior se mexer. Naquele ano, A Curia Comitiorum, associada à Curia Federalis Superior, impediram que Lizinacius voltasse ao poder para resgatar a harmonia da magia de Ignia.

Lizinacius foi preso em 2016 em Azkabhan, por ordem de um bruxo inferior, bem limitadinho mesmo, de nome Sergius Morus. Morus só fazia feiticinho de merda, mas ganhou tanta moral de tanta escola de bruxaria que se achou o tal. A Casa de Stella dizia dia sim, outro também, que Wania havia sido vítima de um golpe, mas todos os outros bruxos (Avis à frente, claro e sempre) diziam que aquilo era mimimi de perdedor.

Fato é que todos os bruxos estavam vendo a habilidade de Stella de conjurar feitiços que só faziam bem aos vilarejos de Ignia que, por sua vez, faziam questão de reconfirmar a presença de Stella no poder Executum – principalmente os vilarejos da Terra Nordestis, região de Ignia que saiu do desalento à prosperidade graças à atuação de Lizinacius, que nasceu naquela região.

Como não sabiam conjurar os feitiços de Stella, os bruxos das outras Casas de Magia acharam por bem tirar Stella da jogada, e voltarem a fazer feitiços com pouca sabedoria, limitados e que limitariam a prosperidade de Ignia.

Um dos candidatos a Princeps Agri em 2018 era Mashiah Bolsonarus, bruxo inferior, praticante de magia negra, que atuava nos intestinos do poder Legum. Bolsonarus nunca foi grandes coisas, pelo contrário, era bem burrinho, reacionário e limitado. Mas em 2018 ele estava diferente. Os Sensitivos, que estavam se sentindo cada vez mais enfraquecidos, entenderam que as energias sempre ruins emanadas por Bolsonarus desta vez estavam mais poderosas. E alertaram:

“Ele não! Ele é do Mal! Ele está aliado ao Demônio! O Demônio do Apocalipse, que trará guerra, fome, peste e a desgraça a Ignia!” Os Sensitivos alertavam que só quem teria poderes e sabedoria para evitar o Mal seria Lizinacius, mas ele estava em Azkabhan, incomunicável e inacessível. Ignia teria que se virar sem Lizinacius.

Os Guardiões das Curiae ouviram? Óbvio que não.

Bolsonarus tornou-se Princeps Agri. E o céu de Ignia, que sempre foi ensolarado e iluminado, se fechou em trevas. Os Sensitivos, cada vez mais sem forças ou esperanças. Os Guardiões das Curiae, nem era com eles. Pelo contrário, alguns acharam Bolsonarus até legal.

Veio 2019 e só os sensitivos acharam as Trevas no céu de Ignia estranhas. E ainda tinham que ouvir absurdos do tipo “A mamata acabou! Chega de mimimi!”

O ano de 2020 trouxe a Peste para todo o mundo mágico. Várias terras mágicas buscaram feitiços para combater a Peste, já sabendo que o mais eficaz de todos seria o feitiço Vaccinum. Muitos pereceriam à Peste, mas assim que os feitiços Vaccinum corretos e poderosos fossem conjurados, as coisas começariam a voltar ao normal.

Bolsonarus entendeu que a Peste só faria aumentar seus poderes. Tirou do meio do rabo um feiticinho chamado Cloroquinus e disse que seria a salvação de Ignia. Os minidemônios que os apoiavam, e viviam entre os vilarejos de Ignia disfarçados de pastores, confirmaram a farsa do Cloroquinum. Os sensitivos mandaram um PUTAQUEPARIU, CURIAE SUPERIOR, DÁ PRA ACORDAR, DÁ? com suas últimas forças, e finalmente os Guardiões perceberam que algo de errado não estava certo. Alguns, inclusive, viram as páginas do Livro das Sombras começarem a se desmanchar. Resolveram agir. Timidamente, mas resolveram. Até porque tinha um monte de vilarejos manipulados por demônios chamando os Guardiões de representantes do demônio que deveriam ser destruídos pelo bem de Ignia.

Mas com a Peste, veio a Fome e a Desgraça. A Treva se abateu completamente sobre Ignia.

Bolsonarus desprezou completamente o Trium Potentia. Na cabeça dele, o Executum era o maioral. Legum e Judicia deveriam, portanto, se submeter – o Livro das sombras sempre disse que Executum, Legum et Potentia só poderiam atuar em harmonia. “The Power of Three will set us free”, lembram? Mas Judicia guardava o Livro das Sombras que, mesmo abalado, ainda lhes conferia o poder da Guarda. E respaldados sob o poder da Guarda, alguns Guardiões começaram a tentar conter Bolsonarus. Este, por sua vez, concedeu poderes aos bruxos do poder Legum que, na verdade, eram demônios inferiores, caso dos bruxos Lyrium e Pax-Eccum. Bolsonarus acreditava conter o Legum, mas na verdade soltou os demônios do Legum que, por sua vez, controlam o Princeps Agri sem que este perceba que está sob o controle dos feitiços desses demônios.

O verdadeiro poder de Bolsonarus era o poder da discórdia, que ele semeava como ninguém. Sob seu reinado, Ignia tornou-se a maior produtora de Sementes de Discórdia. Com a Discórdia semeada por toda Ignia, Bolsonarus começou a questionar, inclusive, o poder da  Conlectarius, que sempre lhe conferiu os cargos no Legum e, agora, no Executum.

Bolsonarus planeja destruir de vez o Livro das Sombras, as Conlectaria e os Poderes Legum e Judicia. Conta, inclusive, com a parceria de dois guardiões nomeados que atuam dentro da Superior Curiae.

O que restou aos Guardiões fazer? Soltar Lizinacius, ao apontar sérios vícios mágicos de seu processo em Azkabhan. Lizinacius é, agora, o preferido para (re)assumir o título de Princeps Agri em 2023. As Comitia de 2022 deverão confirmar seu franco favoritismo. Os Sensitivos estão cheios de Esperança, novamente.

Democracia rima com Magia

Como eu disse no início deste texto, eu tava pensando em escrever este ensaio ao final das eleições, mas a Anitta chamou o Lula de Dumbledore, então eu antecipei a ideia.

Muita gente fala no mito da Caixa de Pandora para explicar o Brasil de Bolsonaro. Como você só ouviu falar de raspão desse mito, trago resumos da Wikipedia: “Pandora fora criada por Hefesto a mando de Zeus como forma de se vingar da humanidade após o titã Prometeu haver dado aos homens o segredo do fogo; enviada à terra para se casar com Epimeteu, irmão de Prometeu, levava consigo uma caixa com a recomendação de que jamais fosse aberta mas ela, sem conter a curiosidade, abre-a e com isso liberta de seu interior todos os males até então desconhecidos pelos homens (doenças, guerra, mentira, ódio, etc.); Pandora então tenta fechar a caixa mas mantém em seu interior apenas a esperança.”

Esse mito é parcial e misógino para explicarmos o que aconteceu no Brasil de 2016 pra cá. São George (Lakoff) e São Mark (Johnson) são bem melhores pra explicar a coisa toda. Eu sempre tomo por princípio o livro Metáforas da Vida Cotidiana, escrito pelos dois e lançado lá fora em 1980 e cá no Brasil em 2002. Nele, Lakoff e Johnson são taxativos ao demonstrar que raciocinamos metaforicamente:

“A metáfora está infiltrada na vida cotidiana, não somente na linguagem, mas também no pensamento e na ação. Nosso sistema conceptual ordinário, em termos do qual não só pensamos mas também agimos, é fundamentalmente metafórico por natureza.

Os conceitos que governam nosso pensamento não são meras questões do intelecto. Eles governam também nossa atividade cotidiana até nos detalhes mais triviais. Eles estruturam o que percebemos, a maneira como nos comportamos no mundo e o modo como nos relacionamos com outras pessoas. O sistema conceptual desempenha, portanto, um papel central na definição de nossa realidade cotidiana”. (lakoff & johnson, 2002, pp. 45-46) ou (LAKOFF & JOHNSON, 1980, p. 3) (o negrito é meu, muito meu).

Sendo assim, a metáfora deixa de ser uma mera figura de linguagem e adquire status de processo cognitivo importante e bem poderoso.

Mas voltando ao Brasil de 2022, o mito de Pandora fala de uma mulher futriqueira e curiosa, que não resistiu à tentação e abriu uma caixa que ferrou com todo o paranauê. Nós sabemos que não foi isso que aconteceu. Dilma Rousseff foi golpeada por homens brancos e héteros, ciosos de seus poderes estremecidos. Por isso que eu prefiro pensar o circo todo que rolou de 2016 pra cá a partir de duas metáforas por trás de todo e qualquer conto/história de magia e reinos e pessoas mágicas:

– Democracia é mágica

– Estado Democrático de Direito é a magia e o bom fluxo da magia por toda a terra mágica

“The power of three will set us free”. Acredite na magia.

Leticia Sallorenzo – Mestra em Linguística pela Universidade de Brasília (2018). Jornalista graduada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996). Graduaçao em Letras Português e respectivas Literaturas pela UnB (2019). Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração. Autora do livro Gramática da Manipulação, publicado pela Quintal Edições.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected].

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Letícia Sallorenzo

Letícia Sallorenzo é Mestra (2018) e doutoranda (2024) em Linguística pela Universidade de Brasília. Estuda e analisa processos cognitivos e discursivos de manipulação, o que inclui processos de disseminação de fake news.

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  1. AMBAR

    19 de julho de 2022 12:15 am

    Rachei o bico!
    E o mais interessante, por falta de opções melhores, comecei a maratonar “Era uma vez” (Once Upon a Time-2011 a 2018 ), tão alegórico quanto a sua narrativa. Deliciosa!

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