Jesus, “é impossível não crer em Ti”, diz o comandante da chacina, Cláudio Castro
por Gustavo Tapioca
“Aquilo que parecia impossível, aquilo que parecia não ter saída, aquilo que parecia ser minha morte, Jesus mudou minha sorte, por milagre estou aqui. Jesus é impossível não crer em ti”.
O homem capaz de cantar esse refrão no auditório do Palácio Guanabara, transformado em catedral católica, no dia de sua posse como governador, é o mesmo que comandou a chacina mais letal da história do Rio de Janeiro. É o mesmo que aplaudiu o “sucesso” da operação policial que resultou em 120 mortos nas comunidades do Alemão e da Penha, em 28 de outubro de 2025. Uma matança que horrorizou o Brasil e o mundo.
Entre o altar e a trincheira, o governador Cláudio Castro transformou o louvor em política de extermínio e a palavra “impossível” em senha de impunidade. Entre o altar e o palanque, o microfone e o fuzil, o governador do Rio de Janeiro encarna a fusão entre fé, política e sangue que define a extrema-direita brasileira.
De assessor na Alerj a vereador e governador
Antes de ser governador, Cláudio Bomfim de Castro e Silva era conhecido em círculos católicos carismáticos como cantor de louvores que transformava música em oração. Em vídeos disponíveis no YouTube, aparece de olhos fechados, em contrição, repetindo o refrão do cântico “É impossível não crer em Ti, Jesus”, símbolo de entrega e fé absoluta.
Formado em Direito e oriundo de família de classe média de Santos, Castro mudou-se jovem para o Rio de Janeiro e iniciou sua carreira política nos bastidores da Alerj.
Em 2016, elegeu-se vereador. Dois anos depois, foi alçado a vice-governador na chapa de Wilson Witzel, com o apoio do então presidente Jair Bolsonaro e da extrema-direita do Rio de Janeiro. Com o impeachment do titular, assumiu o comando do estado em 2021 e consolidou-se como o novo rosto da extrema-direita fluminense. Em 2022, reelegeu-se com apoio explícito do bolsonarismo, de setores do clero católico conservador e de lideranças evangélicas.
O governador de Deus
A imagem do “governador de Deus” — cantor, devoto, homem de família — foi cuidadosamente construída. No discurso, Castro unia “fé, trabalho e segurança”. Na prática, operava segundo o mesmo manual de “lei e ordem” de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Nayib Bukele e a extrema-direita latino-americana. Seu lema é o mesmo conhecido no Brasil de Bolsonaro: bandido bom é bandido morto; polícia como instrumento de guerra interna; periferia tratada como território inimigo; tiro, porrada, bomba, tortura e morte.
Operação Contenção: o massacre
O New York Times, The Guardian, Le Monde e a AP News noticiaram a Operação Contenção, apelido da chacina do Alemão e da Penha, como massacre. A ONU, a Human Rights Watch e o STF cobraram explicações. Mesmo assim, o governo estadual insistiu em classificá-la como “sucesso tático”, que Castro aplaudiu como se fosse uma vitória sensacional do seu time preferido.
Sob o comando político de Castro, o Rio atingiu o pico histórico de letalidade policial. O episódio transformou o governador-cantor no símbolo de um Estado que canta hosanas enquanto fuzila. Nas redes, apoiadores o exaltaram como o “governador que enfrenta o mal”. Nos morros, a população o reconhece como o comandante de uma chacina.
Do narcotráfico ao narcoterrorismo
Segundo reportagem de Malu Gaspar, publicada em O Globo no domingo, 2 de novembro de 2025, Castro foi além das fronteiras estaduais. Encaminhou ao governo Trump um relatório oficial pedindo que o Comando Vermelho fosse classificado como organização terrorista internacional.
O documento, entregue pessoalmente ao Departamento da Guerra de Trump (novo nome dado por ele ao antigo Departamento de Defesa), solicita sanções econômicas e cooperação militar sob o enquadramento antiterrorismo — a mesma doutrina que os EUA aplicam no Oriente Médio. A iniciativa, sem precedentes, revela o esforço do governador em alinhar-se à agenda trumpista de “narcoterrorismo”, oferecendo o território fluminense como vitrine da política de guerra hemisférica.
A retórica do “narcoterrorismo”, exportada por Donald Trump, permite que governos locais justifiquem execuções em nome da segurança nacional. No Brasil, o termo virou senha para legitimar massacres em favelas e criar pontes políticas com o Comando Sul dos EUA.
A fé e o fuzil
A trajetória de Castro encarna a nova aliança entre religião, polícia e política que redesenha o Brasil contemporâneo. Católico de origem, ele transita com desenvoltura entre púlpitos evangélicos, templos carismáticos e quartéis. Seu discurso moralista, sua retórica de “Deus acima de tudo” e sua proximidade com o Partido Liberal (PL) o inserem na mesma órbita ideológica que une o bolsonarismo ao trumpismo, a extrema-direita brasileira à trumpista.
O fato de que Castro levou pessoalmente a Washington um relatório que pedia o enquadramento do Comando Vermelho como grupo terrorista internacional confirma que a retórica do “narcoterrorismo” saiu do discurso e entrou na geopolítica. A fé e o fuzil, agora, cruzam fronteiras. O governador-cantor se apresenta aos EUA como aliado na “guerra ao mal”, enquanto em casa comanda uma guerra contra seu próprio povo.
Castro no STF, TSE, CPI e Alerj
Nesta quarta-feira, 5 de novembro, Castro permanece na mídia e nas redes.
No STF: crimes contra a soberania nacional e traição
O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), responsável pela operação policial mais letal da história do país, se tornou alvo de uma denúncia apresentada ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) pelos crimes de atentado contra a soberania nacional e traição.
No TSE: voto pela cassação
A ministra Isabel Gallotti, relatora no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), votou nesta terça-feira 4, pela cassação do mandato do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, e pela declaração de sua inelegibilidade por oito anos. Ele é acusado no processo que trata de supostas contratações irregulares em Fundações e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
CPI do Crime Organizado
A CPI do Senado aprovou nesta terça-feira, 4, convite para ouvir governadores, entre eles Cláudio Castro (RJ). Os senadores querem que o governador esclareça a relação entre o Crime Organizado e a Operação Contenção ou Chacina do Alemão e da Penha.
ALERJ: Impeachment
Deputados estaduais protocolaram nesta terça-feira, 4, um pedido de impeachment contra o governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). O motivo é a operação policial que resultou em 121 mortes nos complexos da Penha e do Alemão na última semana, considerada a mais letal da história do Estado.
A rima de morte com sorte do refrão de Castro
O refrão da música sacra “Jesus, é impossível não crer em Ti”, a preferida do cantor gospel Cláudio Castro, vai ter que continuar sendo cantada, de joelhos e em feitio de oração, por um seguidor fervoroso, suplicando ao seu Jesus que o livre dos castigos aqui na terra em lugares semelhantes ao inferno:
“Aquilo que parecia impossível, aquilo que parecia não ter saída, aquilo que parecia ser minha morte, por milagre estou aqui. Jesus é impossível não crer em Ti”.
O refrão que um dia pediu milagres hoje ecoa como confissão: “Aquilo que parecia impossível…”, aconteceu — em forma de massacre banhado de sangue e lágrimas, fuzil, tiro, porrada, bomba, tortura e morte. Em nome do “Jesus, é impossível não crer em Ti”, do filho de Deus adotado por Cláudio Castro.
Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.
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Rui Ribeiro
6 de novembro de 2025 10:07 am“Há uma categoria de pessoas que, se não crêem, devem pelo menos fazer de conta que sim. São todos os atormentadores, os opressores, os exploradores da humanidade: padres, monarcas, homens de Estado, homens de guerra, financistas públicos e privados, funcionários de todos os tipos, soldados, policiais, carcereiros e carrascos, capitalistas, aproveitadores, empresários e proprietários, advogados, economistas, políticos de todas as cores, até o último vendedor de especiarias, todos repetirão em uníssono essas palavras de Voltaire: “Se Deus não existisse seria preciso inventá-lo”.” – Bakunin
São lobos vestidos em peles de cordeiros. Essa povo honra a Deus com a boca mas seu coração honra o Satanás. São hipócritas
AMBAR
7 de novembro de 2025 12:21 pmINACREDITÁVEL!
Esse sonso santista-paulista apresentado-se como “uma bênção” para os desventurados cariocas armado de bíblias, fuzis e cânticos, querer estender as fronteiras do crime político para todo o país. Pelo teor de suas ações ele parece ter as pretensões de se tornar um MILEI aqui no Brasil em favor do irmão branco do norte para tornar a América do Sul o eterno bloco subserviente colonizado. VAI TE CATAR, Ô CLÁUDIO CASTRO. ! SEU HIPÓCRITA!