Jovens mensageiros, por Hilton Dominczak

Hilton Dominczak realizou entrevistas em profundidade com jovens da cidade de São Paulo para entender suas visões de mundo e expectativas em relação ao mundo do trabalho, tecnologia, consumo e lazer

Foto: Agência Brasil

Jovens mensageiros

por Hilton Dominczak*

“E nas mensagens
Que nos chegam sem parar
Ninguém, ninguém pode notar
Estão muito ocupados pra pensar.”

(Raul Seixas, trecho da música “SOS”)

INTRODUÇÃO

Em janeiro de 2019 planejei e executei um Estudo Qualitativo, com 10 entrevistas em profundidade com jovens da cidade de São Paulo, com idade  entre 25 e 33 anos, pertencentes à classe A, com o objetivo de entender sua visão de mundo e expectativas em relação ao mundo do trabalho, tecnologia, consumo e lazer. Defini os seguintes critérios de escolha dos entrevistados: que tivessem trabalho remunerado e que fossem “antenados” com as mudanças que estão ocorrendo no planeta, ou seja, que fossem bem informados e não apenas acompanhassem, mas participassem da criação de novas tendências sociais, culturais, políticas, econômicas e tecnológicas.

Os resultados foram alvissareiros, pois esses jovens representam uma parcela importante da população que está construindo o presente e o futuro, deles próprios e da humanidade. Possuem valores muito diferentes dos valores das gerações anteriores. Não se encaixam em rótulos reducionistas como geração “y”, millenials, etc. São engajados e comprometidos com o trabalho e com as mudanças sociais. Numa palavra, são Trend Setters (Criadores de Tendências). Os resultados estão organizados da seguinte forma:  trabalho, lazer, fontes de informação, tecnologia, o Brasil e o mundo, dinheiro e consumo, o futuro. Vamos aos resultados.

O MUNDO DO TRABALHO

Os entrevistados trabalham nos mais diversos segmentos: Gerente de Hostel, Agrônomo, Vendedor de games, Analista de projetos sócio-educacionais, Agronegócio (Supply Chain)

Publicitário, Arquiteto e Professor universitário. Consideram que sua atividade profissional lhes propicia novas experiências que trazem conhecimento  e crescimento, não  apenas profissional, mas também crescimento PESSOAL, ou seja, o trabalho não é para eles apenas um “ganha-pão”. Alguns depoimentos: “Meu trabalho permite entender as políticas econômicas do mundo, as demandas de cada país.” / “Convivo com novos cenários, novas conjunturas políticas e sociais.” / “Onde trabalho, há compartilhamento de conhecimento.” / “Sempre encontro gente diferente, interessante, não tem monotonia.”

Por outro lado, se o trabalho não lhes propicia prazer e crescimento, vão em busca de novas experiências: “Tem muita pressão dos chefes, muito controle que restringe a autonomia.” / “Trabalhar das 7h à meia noite não dá né.” / “À s vezes atendo clientes nos quais não acredito.”

Enfatizam que as empresas ainda possuem visão antiga do trabalho, com controle de horários, hierarquia rígida, etc.  Como disse um dos entrevistados, “A juventude tá cada vez mais se libertando dos padrões mais antigos.”

Segundo eles, o hábito de viajar a trabalho propicia não apenas executar suas tarefas profissionais, mas também crescer profissionalmente e conhecer outras culturas: “A galera viaja para conhecer o mundo, conhecer outras pessoas e também para o auto-conhecimento. Estamos todos de passagem.”

Fica claro que as empresas que não se reformularem, vão acabar perdendo esse valioso capital humano, pois como disse um os entrevistados, “Essa estrutura engessada não funciona mais, tem que pensar em mais qualidade de vida, caso contrário a moçada vai vazar mesmo.”

Alguns ainda permanecem por algum tempo num trabalho que não resulta em crescimento profissional e pessoal, mas “É tanto stress no trabalho, que a galera vai extravasar gastando dinheiro em bar e comprando coisas. Essa moçada tá tão inserida nesses prédios, trabalhando pra burro, que quando tem tempo livre, vai beber.”

Esses novos profissionais desejam experiências profissionais que os façam crescer como profissionais e como seres humanos, trabalhando num ambiente saudável, sem hierarquias engessadas, onde o aprendizado seja constante e se sintam participativos. Em síntese, onde não haja restrição ao prazer de trabalhar, criar e se desenvolver, enriquecendo a empresa e suas próprias vidas. Subir na VIDA, e não simplesmente subir na vida.

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LAZER

Desfrutam o lazer de duas formas, ao ar livre e em lugares fechados. Outdoor: corrida

natação, caminhada, escalada, rodas de samba e choro nas praças, viagens culturais sem luxo, para locais menos comuns (não se consideram turistas tradicionais). Lazer indoor: literatura (livros clássicos e técnicos), cinema, séries na TV, yoga, desenhar, visitar a Pinacoteca de S. Paulo, tocar violão.

Lazer para eles tem muitas facetas, propiciando prazer cultural, espiritual, reflexão e movimento.

FONTES DE INFORMAÇÃO

Estão sempre “ligados” nos acontecimentos do Brasil e do mundo: política, economia, sociedade, esporte, entretenimento… Acessam sites, podcasts e blogs pelo celular. Utilizam também os meios tradicionais:  Valor Econômico, Folha de São Paulo, portais G1, Estadão, Uol, revista Carta Capital. Acessam igualmente fontes que podemos chamar de alternativas: Nexo, El País, BBC, Le Monde Diplomatique, Rede Brasil Atual: “Gosto de cruzar as mídias alternativas com a tradicional.”

Acesso às redes sociais, pela ordem: WhatsApp, Facebook, Instagram, Youtube, Twiter e Linkedin.

Não deixaram de ver TV, porém se mostram mais seletivos que a média da população, citando seriados da Netflix, canal Brasil, TV Cultura, TV Art 1 e Curta na Tela, e também as rádios Cultura FM, Nova Brasil FM, USP e Brasil Atual.

Demonstram desprezo por emissoras tradicionais de TV aberta, considerado algo do passado, com informações parciais e programas de entretenimento “bregas”, um mundo cinza, pesado, antigo, extemporâneo.

TECNOLOGIA

Consideram a Inteligência Artificial uma ótima ferramenta, para ser utilizada de muitas formas, tornando a vida mais prática e confortável, algo muito válido e relevante, pois diminui as distâncias e soluciona problemas: “A molecada já nasce enfiada no celular, e nem percebe que isso se chama Inteligência Artificial; já faz parte do dia a dia.”/ “O Uber por exemplo quebra o fetiche de ter um carro pra ser bem sucedido.” / “Experiências novas, como o Airbnb, é diferente de uma CVC, que te leva pra ver algo numa puta fila.”

Entretanto, advertem que é preciso cautela, já que a IA não irá resolver todos os problemas do mundo, tendo o risco de gerar desemprego em massa: “Pode gerar um consumo exacerbado.”/ “Vamos ver se a IA vai resolver o gap da desigualdade social.”/ “Tudo isso é positivo, mas muito monopolizado. Eles têm um acesso absurdo à informação, que pode ser manipulada, como foi nas eleições dos EUA e do Brasil.”

Não aceitam nada passivamente, nem quando o assunto é tecnologia. Sempre avaliam os prós e os contras.

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O MUNDO E O BRASIL

Não são céticos, concordam que o mundo está melhor do que no passado, com maior qualidade de vida e com maiores oportunidades de aprendizado. Consideram que o planeta ficou “pequeno”, mais próximo, e que a globalização econômica, social e cultural é um fato irreversível. Contudo, apontam o “outro lado da moeda”, com exacerbação do consumo e individualismo crescente: “As pessoas estão valorizando mais o efêmero, o consumismo.”/ “Tem que pensar num planeta mais sustentável, com  consumo consciente.”/ “É preciso criar e manter formas mais colaborativas nas relações de trabalho.”

Foi solicitado que definissem o Brasil numa palavra, e o número de citações positivas foi  bem maior que as negativas: paixão, abundância, país lindo, versatilidade, minha família, meu lar… conservadorismo, crise, caos: “Meu lar, minha casa, onde estão minha família e amigos, onde me vejo construindo minha vida.”/ “País lindo! Muito melhor do que passa na mídia, na política…”

Foi solicitado também que definissem a política numa palavra, e as associações foram extremamente negativas: engano, ambição, corrupção, desordem, conservadorismo, algo inóspito, desgastada, precisa ser repensada.

DINHEIRO E CONSUMO

Dinheiro é visto como necessário à sobrevivência e também para desfrutar os prazeres da vida, mas é preciso cuidado, pois “Tem gente que deixa o dinheiro comandar a vida; precisa ter sobriedade, tem que saber brincar.”

Procuram ter um relacionamento saudável com dinheiro, associando-o a liberdade, individualidade, equilíbrio, harmonia, bem-estar, lazer e viagens.

Foi perguntado sua opinião sobre Elon Musk, CEO da Tesla, empresário que possui fortuna de 22 bilhões de dólares, sendo “apenas” o 26º indivíduo mais rico do mundo.

Responderam que consideram válido, pela importância do carro elétrico da Tesla, que pode substituir o combustível fóssil: “Ele fez por merecer, vivemos num mundo capitalista.”

Mas a visão crítica desses jovens vai além da simples aceitação da fortuna alheia: “Um cara que tem tanta grana assim, precisa se preocupar com os problemas do mundo, não é sustentável do que jeito que o mundo tá indo.” / “Isso lembra a concentração de renda do Brasil.”/ “As pessoas não precisam de tanto para viver, já que temos  tanta gente vivendo em condições de extrema miséria.”/ “O que esse cara tá fazendo pra  ajudar a sociedade, pois seu dinheiro veio da sociedade.”/ “É angustiante… A gente avança em tecnologia, mas continua acumulando riqueza na mão de poucos.”/ “Não é bacana, não terá tempo pra gastar tudo isso. O acúmulo de dinheiro é um câncer.”

Têm outro tipo de relação com o dinheiro, não predatória.

FUTURO

O futuro para eles, além de incerto, é visto com preocupação, pois o cenário hoje é muito fluido, não há certeza de nada. Isso provoca ansiedade, porém a luta e a esperança no futuro da humanidade fazem com que vislumbrem dias melhores para o Brasil e o mundo:

“O futuro é tão incerto quanto o presente.” / “A única certeza que temos é a mudança constante.” / “Queremos estar no domínio das mudanças.”

CONCLUSÕES

Alguns dados interessantes: a internet já alcança mais de 4 bilhões de pessoas no mundo. A telefonia fixa e a mídia impressa estão em franca decadência. O mesmo ocorrerá com a TV tradicional, já que uma grande parcela de jovens consome programas gravados ou via streaming. O consumo de vídeos já corresponde a mais de 70% do tráfego de dados na internet . A Netflix gastou US$ 8 bilhões em 2018 para produzir conteúdo original.

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Qual o comportamento dessa parcela de jovens “antenados” nesse novo cenário? Eles querem controlar melhor o tempo e a experiência de trabalho e entretenimento, com mais autonomia e eficácia.  Isso ocorre também nas outras esferas da vida desse público.

Não são deslumbrados com a tecnologia, que na opinião deles deve ser instrumento para impulsionar o potencial humano, e não para substituí-lo. Desprezam o sucesso que compromete a saúde física, mental e espiritual. São adeptos de uma simplicidade voluntária. Têm coragem de virar a mesa quando necessário – living is more than just making money. Possuem fortemente aquilo que se convencionou chamar de 4 “Cs”: pensamento crítico, novas formas de comunicação, criatividade e colaboração.

O mundo está mudando rapidamente, e a forma como esses jovens compram, interagem uns com os outras e desfrutam os momentos de lazer, está sendo alterada pelas novas tecnologias e dispositivos. As empresas precisam pensar seriamente em dar autonomia, criar um propósito, adotar horários flexíveis, ampliar benefícios, reduzir hierarquias. Em síntese, renovar o relacionamento com esse público.

Para finalizar, vamos reproduzir uma historinha bem ilustrativa desse público, de autoria de Ruth Manus, ótima escritora e blogueira:

Amigo formado em comércio exterior que resolveu largar tudo para trabalhar num hostel em Morro de São Paulo. Amiga advogada que jogou escritório, carrão e namoro pro alto, pra voltar a ser estudante, solteira e andar de metrô fora do Brasil. Amiga executiva de um grande grupo de empresas que ficou radiante por ser mandada embora dizendo “finalmente vou aprender a surfar”. A onda é outra. Venderam o carro, dividem apartamento com mais 3 amigos, abriram mão dos luxos. O que eles não podiam mais aguentar era a infelicidade. Se alguém quiser ser CEO de multinacional, tudo bem. Se quiser trabalhar num café, tudo bem. Se quiser ser professor de matemática, tudo bem. Será que sucesso é medido apenas pela conta bancária? Ou sucesso está naquela pessoa de rosto corado e de escolhas felizes? Será que sucesso é ter dinheiro sobrando e tempo faltando, ou dinheiro curto e cerveja gelada? Apartamento fantástico e colesterol alto, ou casinha alugada e horta na janela? Sucesso é filho voltando de transporte escolar da melhor escola da cidade? Ou é filho que você busca na escolinha do bairro e pára pra tomar picolé de uva com ele na padaria? Essas pessoas são loucas? Ou loucos somos nós, que jogamos na lata do lixo tanto tempo, tanta saúde e tanta vida, todo santo dia?

*Hilton Dominczak é sociólogo

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3 comentários

    • Onde “privilégio” é a peça que falta no quadro geral dessa tal VIDA e, há muito esquecida, se chama “liberdade”…
      O problema do Brasil (como em tantos outros lugares) não é a corrupção, nem a desigualdade, nem – menos ainda – o desemprego mas, muito ao contrário, a própria servidão. Digo mais, é a vontade de servidão daqueles que, por falta de alternativa, por ela passaram a ansiar e, assim, só podem odiar a tal “liberdade” onde quer que a consigam vislumbrar.
      É o ódio como defesa contra aquele medo de perceber, pelo exemplo vivo do outro, a liberdade que tem por si mesmos e da qual JAMAIS conseguirão se livrar. “O homem está condenado a ser livre”, como diria o filósofo.
      É o medo do novo. Do desconhecido. Da dúvida. Da solidão que vem com as palavras impróprias e do enfrentamento.
      O medo da queda.
      Libertemo-nos das imposições mal-disfarçadas dos livros de auto-ajuda! E da vida como experiência apenas consumida.
      Redefinamos aquilo que devemos fazer para que o queiramos realizar.
      Não há atalhos. O poder é uma ilusão. Democratizemos a liberdade.
      Façamos o trabalho há muito adiado. É vão, e pérfido, negociar o silêncio. Não há saída.
      Essa é a busca.

  1. Excelente iniciativa, me dá a clareza que a nova geração, assim como as anteriores vão repetir os erros. Somos ensinados que nossa opinião é importante na escola, só pra encarar um mundo corporativo ou político hierarquizado e compartimentalizado que tem por objetivo acabar com esse valor, colocando o sujeito sempre em contradição entre o que pensa, sente e como deve agir. Nunca explicam que largar tudo p morar em república dividindo c amigos e abrir mão de altos salários p felicidade é mais uma mentira p que não se lute por mudanças, mas sim fuja para seu próprio egoísmo enquanto não deixamos um futuro melhor para nossos filhos. Escuto dessa pesquisa o mesmo de sempre, que nada mudará, pois enquanto a tecnologia acelera, a visão de mundo corroída é exatamente a mesma já tem pelo menos 50 anos.

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