No dia em que voltei pra cadeia, por Samuel Lourenço

No dia em que voltei pra cadeia.

por Samuel Lourenço

Entre a euforia de estar temporariamente solto e a emoção de tudo que tinha vivido naquele dia, estava a insanidade de voltar pra cadeia. Foi meu primeiro dia de saída temporária, a porta da prisão acabara de se cerrar após minha saída, e mais à frente, os portões da universidade estavam abertos.

De acordo com a experiência do inspetor penitenciário, na minha saída temporária, eu poderia evadir, fugir… Não voltar mais. E para os veteranos do meu curso, após o primeiro dia de aula, a expectativa era: “até amanhã!”.

Ser aprovado em vestibular, conseguir autorização da Vara de Execuções Penais e sair para estudar são procedimentos que exaure o sujeito em sua trajetória penal e prisional. Contudo, o desafio de sair para estar num ambiente maravilhoso, que é a universidade, e depois voltar para um lugar horripilante, que é a prisão, é sinistro.

No dia em que voltei pra cadeia pela primeira vez, foi depois de um dia intenso na faculdade. Foi um dia surpreendente.  Foi o dia que descobri, que ser posto em liberdade para estudar, mas não ter acesso a meios de comunicação, sem acesso às tecnologias hoje necessárias, era continuar preso.

Estava em sala de aula, mas não estava no grupo da turma no WhatsApp. Estava assistindo uma aula, mas não tinha um email para receber o material em PDF. Estava ali, matriculado como aluno, mas me faltavam algumas coisas para que estivesse ali por completo. O problema já não era estar preso ou cumprindo pena, a questão era como sobreviver no contexto acadêmico, diante das imposições e restrições inerentes à prisão.

Se compra um celular para usar na comunicação com a turma, para fins de pesquisa, email e tudo mais, acaba sem ter lugar para deixá-lo após a aula. Pois, pra cadeia tu não pode voltar com ele. Se ganha um tablet ou notebook, acontece a mesma coisa. Na época, pedi ao dono do bar para deixar as coisas lá. Só perguntou de era roubado, pois havia explicado minhas limitações, no mais deixou ficar lá.

Já deixei meus pertences eletrônicos na rua, em carro enguiçado jogado na rua, embrulhado em jornal largado no chão… Já negociei com mendigos, já alugamos uma diária no bar da esquina. Tá preso? Tem que voltar pra cadeia depois da aula? Então, vira malabarista e dá teus pulos na rua.

No dia em que voltei pra cadeia, não foi por outros crimes, nem por uma autoridade policial. Voltei com minhas próprias pernas,  depois de uma tarde maravilhosa, recebendo apoio de familiares, amigos presentes, professores e alunos que tomaram ciência do ocorrido. Voltei, na esperança de sair noutro dia e voltar outra vez. Assim fiz, assim aconteceu, até o dia em que pude me sentir livre, ainda estando preso.

Quando voltei para a cadeia, descobri que a prisão possui tentáculos, teias e uma algema elástica que te acompanha em espaços de promoção de liberdade. Não existe fôlego de ressocialização quando há ciscos de prisão e controle. A confiança não se estabelece, a conta não fecha e a diferença cai na conta do prisioneiro. “A corda sempre arrebenta no lado do fraco!”.

O juiz que deferiu a saída, é garantista, humano e ressocializador. A professora e o professor são seres iluminados, que acreditam, que possuem esperança e bravos profissionais que não se rendem ao sistema opressor. Os amigos que apoiam na faculdade, são generosos, amorosos, empáticos e tudo mais… Mas o preso, apesar de aluno, para o sistema e outros mais, ele ainda é o preso, digno de desconfianças, suspeitas e visto como uma potencial ameaça. Apesar de tudo, ele volta pra cadeia, mesmo sem dela ter saído.

Ao meu irmão,  Diego Nogueira, com carinho. Força na caminhada!

 

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