O arbítrio disfarçado desliza para o arbítrio escancarado, por Luis Felipe Miguel

A matéria na Folha de hoje, parceria do jornal com o Intercept Brasil, mostra mais do mesmo. Seu sentido é demonstrar que a colaboração criminosa entre juiz e promotores não foi pontual, não foi "um descuido", mas estruturante de toda a operação.

O arbítrio disfarçado desliza para o arbítrio escancarado

por Luis Felipe Miguel

A matéria na Folha de hoje, parceria do jornal com o Intercept Brasil, mostra mais do mesmo. Seu sentido é demonstrar que a colaboração criminosa entre juiz e promotores não foi pontual, não foi “um descuido”, mas estruturante de toda a operação.

Confirma, também, que Teori Zavascki era visto como um empecilho pela orcrim de Curitiba.

Mas o impacto dos diálogos depende sobretudo do entendimento de que o juiz deve ser imparcial – é uma exigência legal, ética e lógica de sua função.

A direita não tardou em afinar o discurso para sua base desinformada e cognitivamente pouco capaz: contra o PT, vale tudo. Quando mais linhas legais e éticas foram atravessadas, quanto mais violência foi empegada, mais “heroica” foi a ação.

É a barbárie política, que eles assumiram faz tempo.

Diante do Congresso, do Judiciário e da imprensa, Moro e seus cúmplices adotam um conjunto contraditório de desculpas esfarrapadas.

Afinal, ninguém precisa hackear celular para inventar conversa. É só inventar. E ninguém se daria ao trabalho de inventar conversa que “não tem nada demais”. Se é para inventar conversa, é para incriminar.

Moro se defende do mesmo jeito que condenava: sem ligar para a lógica.

Não importa, na verdade. Ele não tem a pretensão de convencer ninguém que tenha feito o primeiro semestre do curso de Direito. Ou que, alfabetizado, tenha lido o artigo 254 do Código de Processo Penal.

Sua aposta é que os poderes da República assumirão de vez que o Estado de direito é uma farsa e varrerão para baixo do tapete o mais grave escândalo de corrupção do Judiciário de que já se teve notícia no país.

Leia também:  O fetiche de passar o Brasil a limpo pelo combate à corrupção, por Álvaro Miranda

O arbítrio disfarçado desliza, como de costume, para o arbítrio escancarado.

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3 comentários

  1. Lembrei da história de declarar que a Terra é plana… É muito descaramento, não é não?
    Digo… não há a menor dúvida de que a Terra é redonda, assim como não há a menor dúvida de que a operação Lava Jato sempre foi uma parte de um golpe de estado. Uma parte importante, sim, mas apenas uma parte num conjunto de várias outras partes.

    Não que não haja golpista zureta o suficiente para ficar realmente em dúvida sobre se a Terra é redonda ou plana, ainda mais quando quem diz que é plana é um dos seus ídolos. Mas creio que a maioria dos golpistas sabe tanto que a Terra é redonda quanto que a Lava Jato não combate a corrupção e sim opera esse golpe de estado que estamos vivendo, e repete a bobagem que o guru deles diz por puro cinismo, por puros barbarismo e vandalismo. É a coxinharada vandalizando o estado…

    (E agora lembrei do messianismo religioso do Dallagnol, “igrejas da prosperidade”. Tá vendo? Definitivamente tem nego zuretão ocupando cargos importantes na república, procurador que tranca a mulher na igreja.)

  2. Aliás esse é o método do golpe: declarar um tanto de absurdos que faça com que os danos do golpe no estado democrático pareçam menores. É a mesmíssima orientação que seguem os Bolsonaro, que já vinha sendo praticada por Arthur “Mamãe Falei” do Val, que adotam presidentes de países estrangeiros como os EUA.

    Vejo diariamente vários exemplos práticos sobre como neutralizar esse golpe, mas publicamente, que qualquer pessoa pode acessar como exemplo, me lembro de dois: a expulsão de Arthur do Val de uma reunião das “esquerdas” na Câmara Municipal de São Paulo e a reação da Marcia Tiburi quando descobriu que ia ter que conversar com Kim Kataguiri num programa de rádio. Dá para encontrar vídeos desses dois episódios mas creio que há muitos outros. A propósito, além de “Como conversar com um fascista”, alguém poderia escrever um “Guia para anular a influência de cínicos ou dementes (tidos como sérios ou saudáveis)”… Ou será que isso a gente já sabe desde a infância?

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