29 de junho de 2026

O fundamentalismo de mercado de Amoêdo, por Luis Felipe Miguel

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O fundamentalismo de mercado de Amoêdo

por Luis Felipe Miguel

O “Novo” (sic) é um fenômeno ilustrativo. Ele nos permite avaliar quão muderna e iluminada é a nossa burguesia.

A fundação do partido parece responder ao desejo do Itaú Unibanco de não pagar mais pedágio para a elite política tradicional e governar diretamente. Um partido, digamos assim, militantemente antibonapartista. “Todo poder à burguesia”.

Com um reluzente plantel de multimilionários na sua direção, o “Novo” queria ser o arauto do credo ultraliberal, em sua forma mais descontaminada e intransigente. Seria um mostruário da sofisticação intelectual, competência gerencial e honestidade a toda prova – quanto não tentada pelo etos corrupto da elite política – da nossa classe capitalista.

Como demonstração mais cabal da seriedade do partido-empresa, foi instituído um “processo seletivo” para possíveis candidatos. Só tem direito de envergar a camisa alaranjada do “Novo” quem é aprovado por uma banca, que avalia currículo e aplica uma prova escrita. (Também é necessário pagar uma taxa, de 300 ou 600 reais dependendo do cargo, “não reembolsáveis”. O “Novo” aceita cartão.)

Agora candidato a presidente, ganha maior visibilidade João Amoêdo, o inspirador, chefe e acionista principal do “Novo” – dados indicam que ele investiu mais de 4 milhões de reais no partido, enquanto nenhum dos outros banqueiros associados colocou mais do que 250 mil. E quem é ele?

Em vez do sofisticado intelectual libertariano que era prometido, temos um troglodita de terno e gravata, que repete mecanicamente sua profissão de fé nas virtudes do mercado, indiferente às consequências humanas, incapaz de ver como pessoas aqueles que são jogados às margens. O Estado não pode intervir nem mesmo para impedir as injustiças mais gritantes, os serviços públicos devem ser abolidos, tudo deve ser privatizado. Não dá para perceber diferença entre Amoêdo e Flávio Rocha, por exemplo. Ambos são reprodutores do mesmo discurso tacanho.

Na verdade, o fundamentalismo de mercado de Amoêdo e o fundamentalismo cristão do Cabo Daciolo, por mais diferenças que possam apresentar, indicam a mesma incapacidade de raciocínio complexo e a mesma adesão a dogmas invulneráveis ao embate com a realidade. Sinto mais simpatia pelo Cabo, imerso em sua própria desrazão, do que pelo banqueiro janotinha, que tira proveito de seu próprio discurso e com quem a gente nunca sabe onde termina o fanatismo e começa o cálculo.

Falei que Amoêdo é um troglodita de terno e gravata, mas não é mais assim. Ao entrar em campanha, ele passou a envergar camisa polo e suéter. Seu site pretende que ele seja chamado de “João”. (Risos.)

Mas não é só a imagem. A rigidez doutrinária libertariana não resistiu à política real e hoje o “Novo” está pronto a aceitar a defesa da censura, a limitação dos direitos individuais, o conservadorismo tradicional. Seus candidatos, aqueles mesmos que pagaram todas as taxas e passaram no rigoroso processo seletivo, parecem saídos da tropa de choque bolsonariana. Ricardo Salles, uma das principais apostas do partido para a Câmara dos Deputados em São Paulo, escolheu um número de candidato que faz alusão a calibre de projéteis de rifle e distribui material de campanha sugerindo o fuzilamento da esquerda. Diego Dusol, que também concorre a deputado federal, mas na Paraíba, promete tornar o aborto “crime hediondo” e liberar completamente o acesso a armas: “mais que um fuzil, fazendeiros e agricultores poderão adquirir um tanque de guerra” (não estou inventando, é citação literal do material de campanha dele).

Este é o “Novo”. Talvez seja o que de pior existe na política brasileira hoje. Pior até do que Bolsonaro. Filhotes mimados da burguesia brasileira brincando de fazer política e se achando imensamente superiores a todo o resto da sociedade. Ao contrário de Bolsonaro, eles nem sequer desconfiam do quão toscos são.

Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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20 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    24 de agosto de 2018 5:57 pm

    Os Trogloditas vêem tanto espírito no feto e nenhum no marginal

    Os Golpistas, os Bolsonaristas e demais parasitas sociais vêem tanto espírito no feto e nenhum no marginal. Querem tornar o aborto crime hediondo e querem matar bandidos.

    1. AMORAIZA

      24 de agosto de 2018 9:03 pm

      Vai ser legal
       

      Eles vão ser mamães no lugar das “criminosas” encarceradas.

  2. Andre Barbosa

    24 de agosto de 2018 6:52 pm

    Falácias

    Ad-hominem e espantalho mandam abraços.

    O texto é recheado de argumentos falaciosos, vazio e pouco útil, só se sustenta pelo fato de sermos livres para falar o que quisermos.

    Chega a ser triste um cara desses dividir um portal com o Luis Nassif.

    1. JFO

      24 de agosto de 2018 8:21 pm

      Então exponha seu contraponto às falácias

      Assim é fácil.
      “O texto é recheado de argumentos falaciosos, vazio e pouco útil…”
      Se assim é, porque você não expôs os argumentos corretos? Onde o autor do texto está sendo falacioso e onde está sendo útil, ainda que pouco?

    2. rdmaestri

      24 de agosto de 2018 8:32 pm

      Caro André, sugiro que convides o teu amigo lá de cima o…..

      Caro André, sugiro que convides o teu amigo lá de cima, o Lucas Chagas, e já que acharam a sua turma, vão passear na Floresta para levar doces para a vovozinha, pois o pessoal daqui não fica nada emocionado com as pessoas como o tu e Lucas que aparecem as vésperas das eleições para nos dar lições de moral, vão catar coquinhos.

      1. AMORAIZA

        24 de agosto de 2018 9:02 pm

        KKKKKK
         

        Aê, DMaestri, carmô?

        É isso mesmo, não adianta enxotar essa petizada com grosserias, pois é disso que eles mais entendem.

        Como dizem “pela aí”, tem que ser “na moral”.

  3. Álvaro Noites

    24 de agosto de 2018 6:57 pm

    Pior de tudo é ver os

    Pior de tudo é ver os aecistas e coxinhas de ontem fazendo campanha para o João “A Moeda”.

    É a mesma patota.

    Os apoiadores destes trogloditas de terno continuam manifestoches.

    O lado bom desta história é ver como nossa elite é perversa, não fazem questão alguma de disfarçar mais.

  4. jose antonio santos

    24 de agosto de 2018 7:15 pm

    bom post.

    Ouvi um unico video do “joão” e bastou. Estava tudo lá.

    È um daqueles pessoas que defendem uma ideologia que só serve para perpetuar os previlégios dos poderosos. 

    Tenho conhecidos que estão encantados!!!. Pessoas da classe média que galgaram alguns degaus na escala social.

    Não muito amigos do conhecimento e da leitura. Detestam a esquerda em geral, irracionalmente!

    Querem distancia do Brasil “real” e do povo.

    Se tiverem opoturnidades vão viver suas aposentadorias ( melhor dizendo, os rendimentos dos titulos do tesouro nacional)  em Miami.

    Para eles o Brasil não é para ser defendido, amado, somente ser explorado!

     

  5. jose antonio santos

    24 de agosto de 2018 7:19 pm

    bom post.

    Para os apoiadores desses liberais ( ou deveria escrever, atrasados!)  sempre envio um frase do professor Jose Luis Fiori:

    “Não é a para mim que voces devem perguntar sobre o estado minimo, mas à minha empregada!”

     

    1. Sidney Barra

      24 de agosto de 2018 8:35 pm

      Realmente, ela que deveria

      Realmente, ela que deveria assumir a solução pro brasileiro fugir da pobreza que é o liberalismo econômico.
      Ninguém mais direita liberal no Brasil que o pobre. Ele, mais do que ninguém sabe o que é depender dos serviços fornecidos pelo Estado. Seu maior sonho é sair dessa escravidão. Não satisfeito, monta seu pequeno negócio, melhora de vida e já paga um colégio privado pro filho, porque sabe que o público é ruim, melhora mais e já compra um carro porque sabe que o transporte público é barra, melhora mais e já paga um plano de saúde privada pra não morrer na fila do SUS e por aí vai. Ser pobre de esquerda no Brasil é esperar a vida toda por um benefício que nunca vai chegar, é pedir pra morrer pobre.
      O estado brasileiro nunca vai resolver o problmea do pobre porque ele não precisara mais do estado nem dos políticos, nem ser sau empregada.
       

  6. Lucas Chagas

    24 de agosto de 2018 7:30 pm

    Se o Amoêdo é tão troglodita
    Se o Amoêdo é tão troglodita do mercado, porque o plano de governo é a favor do bolsa família? Ele quer que o estado seja capaz de fazer o básico: segurança, saúde e educação. Por que manter empresas estatais deficitárias se tem gente sem atendimento nos hospitais? Ou por que subsidiar empresas se a qualidade do ensino deixa tanto a desejar? Sugiro ler o plano de governo.

    Sobre candidatos ruins, o partido já se posicionou contra em alguns casos, mas também tem notícias falsas. Também é importante ressaltar que Amoedo não é banqueiro.

    1. Felipe Bustanar

      15 de outubro de 2018 6:03 am

      Bem observado.Até parece que

      Bem observado.
      Até parece que o autor tem algum interesse em ler plano de governo algum. Questionar a participação financeira indubitavelmnete majoritária do Amoedo no partido foi o único ponto pertinente do artigo. O resto é puro Ad hominem.

  7. AMORAIZA

    24 de agosto de 2018 9:06 pm

    O Novo
     

    O bom do novo é que  “o novo vem, vai e o velho volta a servir”

  8. Wilson Cajurú

    24 de agosto de 2018 10:47 pm

    Luis Felipe, o Professor de Deus

    Mudança (para melhor) é o que todo mundo quer. Duvido que haja alguem satisfeito com o festival de falcatruas e mutretas que conhecemos. Daí aparece um nome diferente propondo dar um breque na esbórnia. Nada contra alguem achar que a idéia é utópica e que vai dar em nada. Mas é inconcebível querer desqualificar e desmoralizar a proposta com argumentos tão rasteiros e vazios como faz o ilustre Professor Luis Felipe Miguel. Rejeitar porque o Amoedo é rico, um troglodita de terno, um banqueiro janotinha,  que usa a mão do Itau, etc. Para convencer precisamos de argumentos de gente grande.

    1. ari couto

      4 de setembro de 2018 3:03 pm

      Eu o rejeitaria inclusive por

      Eu o rejeitaria inclusive por ser muito rico e ligado ao capital financeiro. Mas não é o que faz o professor, que o rejeita pelo seu discurso ultra-neoliberal ao mesmo tempo que defende a censura ao Lula.

  9. Avelino de Oliveira

    24 de agosto de 2018 11:43 pm

    Caro Nassif
    Como os nomes

    Caro Nassif

    Como os nomes tradicionais já estã queimados, mas mesmo assim muitos ainda serão eleitos parra continuar a falcatruas dos poderosos. Há que se renovarr o estoque dos reacionários, lançando nomes novos e partidos que se dizem novos, mas são a continuidade da casa grande, com pretensa roupa de modernidade.

    Eles são tão novos como os chicote da Ana Amélia.

    O chicote é novo, mas as costas são as mesmas. O pelourinho está sendo camuflado. 

    Os portugueses quando iniciaram a colonização, também se passavam por novos.Os índios que digam as boas novidades que os portugueses trouxeram.

    Desse “Novo” mantenho distância.

    Saudações 

     

  10. Justiniano

    25 de agosto de 2018 12:45 am

    Mais um curupira

    A proposta do “novo” é o colocar o Brasil na década de 20, do século XX. Os “novos” conseguem dar cores progressistas até a turma da república velha.

    Partido Novo: o rejuvelhecimento da política!

  11. Alexandre Weber - Santos -SP

    25 de agosto de 2018 4:14 pm

    Voto no João no primeiro turno

    O único candidato  que não está preso aos esquemas políticos nefastos atuais.

    O único candidato a se apresentar com propostas para realmente promover a reforma política necessária e não só da boca para fora.

    O único candidato com condições de negociar um melhor dinheiro para os brasileiros.

    Se perder no primeiro turno, teremos de esperar mais 4 anos para que reformas sejam feitas, no mínimo, e eu gosto do Brasil e não desejo isto.

    1. Andre Araujo

      30 de agosto de 2018 8:32 pm

      Ele não está nos esquemas

      Ele não está nos esquemas politicos atuais pela simples razão de que jamais ocupou cargo publico, isso não é vantagem, é uma circunstancia. Uma vez dentro da politica ele terá obrigatoriamente que se compor com os esquemas politicos do Pais,

      ele não irá governar o céu.

  12. Andre Araujo

    30 de agosto de 2018 5:02 pm

    O Partido Novo é a cara

    O Partido Novo é a cara politica do grupo de economistas cariocas que denominei como sendo A ESCOLA DO RIO, em meu livro do mesmo nome de 2005. São os economistas egressos da PUC Rio que se agregaram no Plano Real, ficaram ricos COM O ESTADO, com suas ligações COM O ESTADO, a fortuna de todos nasceu DO ESTADO, da manipulação da divida publica, das moedas podres que pagaram as privatizações de 1996 a 2000, essas 47 moedas podres foram açambarcadas pelos bancos cariocas de investimentos liderados pelo Bozzano Simonsen e dessas manipulações os economistas da PUC Rio formaram seus bancos de investimentos, chegaram ao Plano Real de fusquinha velho e sairam bilionarios, a CUSTA DO ESTADO, o mesmo Estado que hoje abomiinam, que eles querem eliminar porque gasta muito com a pobreza.

    Da PUC Rio nasceu a Casa das Garças, o Instituto Millenium, o IBMEC, o INSPER, a Gavea Investimentos de Arminio Fraga, a Rio Bravio de Gstavo Franco e agora o Partido Novo, tudo farinha do mesmo saco, o ESTADO foi a mãe deles, agora eles querem jogar no lixo,  para que Estado se nós não mais precisamos dele, o desemprego não é nosso problema.

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