O jogo da ciência: Como pensamos?, por Gustavo Gollo

Como terá surgido o pensamento? Ou, qual a origem do pensamento? Penso que esse seja um bom ponto de partida.

O jogo da ciência: Como pensamos?, por Gustavo Gollo

Nível: dificílimo ******

Gosto de encarar a ciência como um jogo de enigmas cujas regras consistem tão somente em propor e tentar desvendar enigmas. Ao contrário da maioria dos jogos, não se trata de um passatempo improfícuo cujo propósito seja afugentar o tédio, mas de um exercício ao mesmo tempo frutuoso e vibrante.

O jogo transcorre em um mundo aberto, sugerindo abarcar quase toda a vasta infinidade de perguntas capazes de atiçar a curiosidade humana.

Parte fundamental desse jogo consiste na elaboração de perguntas. Se ficarmos atentos durante essa fase do jogo, perceberemos a imensidão de nossa ignorância – não me refiro aqui à nossa, individual, mas à coletiva, de toda a humanidade –, quase nada sabemos, o que fica patente ao tentarmos responder perguntas construídas aleatoriamente. Mesmo assim, sabendo apenas que nada sabemos, podemos nos deleitar com o jogo do conhecimento, e transformar a solução de enigmas em uma atividade vibrante e construtiva.

.
Neste jogo, proporei perguntas dificílimas em torno do tema “pensamento”. O que é o pensamento? Como pensamos?

Muito frequentemente a primeira impressão que temos de uma dada pergunta é bastante ilusória, fazendo-a parecer extremamente difícil à primeira vista, embora seja fácil, ou tornando-a aparentemente fácil quando se trata de questão dificílima.

Todos sabemos pensar, além de sabermos, em linhas muito gerais, o que é o pensamento. Mas se tentamos descrever em palavras qualquer dessas coisas, já nos vemos embatucados. Tentemos responder: o que é o pensamento? Como pensamos?

Não é surpreendente que o primeiro passo em busca de tal resposta seja difícil e trôpego – primeiros passos costumam ser assim. Um caminho usual e profícuo pode ser iniciado pelo retorno às origens daquilo que tentamos desvendar.

Como terá surgido o pensamento? Ou, qual a origem do pensamento?

Penso que esse seja um bom ponto de partida.

Os primórdios

Tornemos a tempos primordiais não muito distantes do surgimento dos seres vivos, quando encontramos seres muito simples, pequeninas criaturas empenhadas em sugar substâncias do meio aos seu redor, crescer e se desdobrar em 2 seres empenhados no mesmo afã de crescer e se multiplicar.

Podemos assumir que algumas das réplicas resultantes das divisões dos seres resultassem em seres mais hábeis que outros nessa tarefa, replicando-se mais que outros, assim como seus descendentes, tendentes a herdar a mesma habilidade replicativa.

Como resultado da diferença na capacidade de replicação entre uns e outros seres, os mais hábeis em se replicar deixavam mais descendentes que os outros, consistindo nessa replicação diferencial entre as criaturas aquilo que é chamado “seleção natural”, que governa toda a evolução dos seres.
.

Podemos imaginar que tais criaturas primevas, a exemplo das mais simples hoje existentes, consistissem em membranas aproximadamente esféricas envolvendo estruturas orgânicas relativamente simples imersas em um meio aquoso rico em nutrientes. A forma esférica é a mais econômica, tendo sido, provavelmente, desde sempre, uma das mais comuns entre os seres.

Tais criaturas vagariam a esmo, absorvendo nutrientes, crescendo e se multiplicando por mares e lagoas. Um aprimoramento simples de tais criaturas teria resultado no surgimento de um flagelo vibrátil inserido em sua membrana externa, um propulsor trivial mas efetivo, capaz de impelir a criatura ao redor, buscando nutrientes ativamente. Propelidas pelo flagelo, as criaturas tenderiam a se afastar de suas irmãs, alcançando paragens despovoadas, distantes da competição direta com seres similares, de modo que o sutil aperfeiçoamento conferisse vantagem seletiva a seus possuidores, propiciando a multiplicação das criaturas portadoras da nova estrutura. A autopropulsão favoreceu ligeiras modificações no formato das criaturas, premiando as que se afilavam na direção oposta à do flagelo, adquirindo desse modo adaptação hidrodinâmica tendente a favorecer seu movimento.

Embora já vantajosa, a movimentação a esmo sugeria um aperfeiçoamento subsequente extraordinário, realmente digno de atenção: a possibilidade de introdução de um sistema de navegação consciente que permitisse a fuga de locais ruins, e a busca por condições ideais. (Note que estamos a um passo de desvendar o surgimento da consciência!). Posta desse modo, a sugestão parece mágica e consequentemente inalcançável, dada a aparente dificuldade de construção de um sistema tão complexo quanto o de navegação, que exigiria a construção de sensores acoplados ao sistema de propulsão, mediados por um sistema de controle. A complexidade do sistema sugerido na descrição acima parece inviabilizar seu surgimento. Mas…

Imaginemos que uma de nossas criaturas de formato hidrodinâmico propelida por um flagelo recebesse em seus flancos filamentos proteicos sujeitos a contrações ou estiramentos decorrentes do pH do meio. Tais contrações, ou estiramentos, da proteína, maiores de um lado que de outro, em virtude de diferenças de acidez do meio, alterariam o formato da criatura, compelindo-a a mudar seu rumo conforme o pH local, conduzindo-a para locais mais ácidos, ou mais alcalinos.

Caso a pobre criatura fosse direcionada exatamente na direção errada, ela provavelmente sucumbiria sem deixar descendentes. A introdução de proteínas que a conduzissem a criatura à direção certa, no entanto, garantiria-lhe uma vasta linhagem de descendentes capazes de aferir o meio ao redor e ajustar sua rota de navegação em direção a locais mais propícios que aquele onde ela se encontrava em cada momento!

Admire o quão grandioso é o resultado da incorporação de tiras proteicas sensíveis ao pH do ambiente aos flancos da criatura! Ainda que extraordinariamente simples, o evento corresponde ao surgimento da consciência e de um sistema de controle de navegação regido pelas condições do meio!

Desse modo, o que parecia um fenômeno tão complexo que mágico e inverossímil, acaba sendo explicado pela modestíssima ocorrência do surgimento de uma fibra proteica lateral na membrana externa da criatura!

Ah, mas não nos furtemos a admirar tamanha grandiosidade, pasmemos: trata-se da explicação para o surgimento de toda a consciência, da primeira ação de um ser baseada em uma avaliação das circunstâncias, da primeira escolha!

Temos agora uma linhagem de seres muito simples, mas já capazes de aferir o meio ao redor e se guiar por tal informação, buscando ativamente as condições que lhes favoreçam.

A incorporação de sensores adicionais – de luz, salinidade, temperatura ou quaisquer outros que favorecessem a replicação das criaturas –, tenderia a ser recompensado, exatamente, por tal consequência, tornando-se em decorrência do favorecimento da replicação, cada vez mais numerosos.

Um forte obstáculo, no entanto, se oporia a tais aquisições: a eventual oposição resultante de informações recebidas. Supondo que um desenvolvimento análogo ao descrito acima também se desenvolva, permitindo à criatura deslocar em busca de temperaturas ideais, baseada na contração lateral diferencial decorrente de diferentes temperaturas de um lado e outro, o novo sistema tenderá, frequentemente, a se contrapor ao antigo, resultando em um entrave para a mobilidade da criatura. A complexificação do sistema através da incorporação de múltiplos sensores acabaria comprometida pela possibilidade sempre iminente de estorvo recíproco, atrapalhando-se uns aos outros.

A solução para o entrave consistiu na mediação das informações advindas dos sensores por uma unidade central de controle capaz de ponderar as várias informações recebidas para, com elas, determinar suas escolhas.

Assim como a anterior, essa etapa parece excessivamente complexa e, em decorrência, necessariamente mágica e fantasiosa, impossível de uma compreensão plausível. A simplicidade da ocorrência, no entanto, se mostrará, novamente, de uma simplicidade inaudita!

Ao tentarmos postular uma explicação para o surgimento de um sistema de controle central de navegação, capaz de gerenciar, digamos, apenas umas 6 variáveis mais relevantes, menosprezando outras, seremos tentados a conceder à criatura uma inteligência mirabolante muitíssimo superior àquela que consideraríamos concebível em um ser tão simples, tornando a explicação mágica e inverossímil.

A centralização do controle parece necessária para evitar a oposição de comandos ditados por sensores diversos, o que parece exigir a construção de uma unidade central de tomada de decisões e controle, ou “cérebro”, o que tende a parecer um passo excessivamente complexo para ter alguma viabilidade. Não é.

Reengenharia: esbocemos o modelo de um “cérebro” primitivo no qual a alavanca direcional negra na cabeça da criatura se desloca comandada pela contração ou dilatação dos fios proteicos. Ao se deslocar para um lado, ou outro, puxada pela contração diferencial dos fios proteicos sensores instalados nos flancos da criatura, a alavanca “torce o nariz” da criatura, apontando-a para a direção buscada.

O cérebro primitivo apresentado no modelo é capaz de avaliar um conjunto de parâmetros e definir a direção tomada pela criatura com base nos dados coletados em tempo real. Trata-se de um modelo muito simples para a tomada de decisões. Uma tal criatura seria capaz de tomar consciência de seu meio para, com base em múltiplas informações coletadas ao redor, tomar decisões com vistas a maximizar sua replicação.

Note que a obtenção de um tal sistema de controle não pressupõe a ocorrência de transições mágicas, excessivamente complexas para serem verossímeis; corresponde a um passo evolutivo banal e muito simples. A calibração dos sensores seria conseguida por seleção natural, ao premiar as variações adequadas no número de fibras tensoras de cada sensor, assim como sua inserção na alavanca. Linhagens de criaturas portadoras de ligeiras variações que otimizassem sua busca pelas condições ótimas para a replicação seriam premiadas com o aumento da quantidade de suas réplicas, perpetuando-se desse modo.

.
O cérebro primitivo esboçado acima – sim, afirmo que um sistema de controle central capaz de avaliar e sopesar diversas variáveis para, com base em tal análise, definir e implementar uma ação consiste já em um cérebro, e que tal análise consiste em um pensamento de tal criatura –, permite que o ser faça uma única escolha, ainda que com base na análise de múltiplas variáveis, ou seja, embora o circuito central analise diversos parâmetros de entrada, responde apenas através de um único parâmetro: a direção de seu movimento.

Um cérebro digno de tal designação, no entanto, deve não só ser capaz de ponderar múltiplos parâmetros de entrada, mas também de gerenciar múltiplos comandos.

Como, então, podemos imaginar um cérebro simples capaz de sopesar diversos parâmetros para, baseado neles, adotar múltiplas estratégias de respostas?

É possível construir um sistema de alavancas conectadas de modo a oferecer respostas múltiplas – variação na direção da criatura, e na intensidade de vibração de seu flagelo, por exemplo –, com base na análise de um conjunto de dados de entrada, compondo assim sistemas centrais de controle, ou cérebros, cada vez mais complexos. Tendo a achar que sistemas de controle autônomos, desconexos, uns dos outros – como um controle do flagelo completamente independente do controle de direção da criatura –, pudessem ser, com muita frequência, mais eficientes que os sistemas centrais. De qualquer modo, a evolução dos seres vivos em nosso planeta acabou conduzindo à criação de sistemas centrais de controle, ou cérebros, nos quais os circuitos mecânicos acabaram substituídos pelos elétricos, constituídos pelos neurônios. Neurônios assemelham-se bastante a elementos de circuitos eletrônicos lógicos, baseando-se, uns e outros, nos mesmos princípios fundamentais.

Esse vídeo interessante ilustra o estilo da mecânica biológica que não faz uso de peças, mas apenas dobras de material.

É provável que os neurônios tenham se originado de cabos mecânicos encarregados de puxar alavancas, de maneira análoga à dos filamentos proteicos da figura. Em algum momento, no entanto, o uso de correntes elétricas conduzidas através dele para a contração de músculos revelou-se mais eficiente que a atividade mecânica. Ao mesmo tempo, os neurônios passaram a compor conexões elétricas entre si, em substituição a prováveis conexões mecânicas prévias.

Argumentos desse tipo são fundamentais para esclarecer a suavidade com que ocorre cada uma das sucessivas transições evolutivas que, em conjunto, acabam por gerar composições aparentemente mágicas, ou miraculosas, como o surgimento de algo com a complexidade de um cérebro.

Os bastões não se movem lateralmente

A realidade

Quando acordamos e abrimos nossos olhos, imergimos no mundo ao nosso redor e penetramos na realidade. Vemo-la como se adentrássemos uma projeção de cinema total e participássemos das cenas.

Acreditamos que aquilo que vemos, e que chamamos “realidade”, exista tal qual a vemos, embora o que vemos corresponda ao nosso sistema de avaliação do meio ao redor, equivalente às tiras proteicas da figura. Note que aquilo que vemos não passa de um super aperfeiçoamento de um sistema daquele tipo.

Desse modo, aquilo que vemos, ouvimos e sentimos, é tudo criação nossa, e, embora “joguemos” nossa idealização mental para fora de nós mesmos, fazendo-nos crer estarmos imersos naquele mundo a que chamamos real, todas as nossas percepções transcorrem em nós mesmos.

Nossa visão, por exemplo, ocorre de forma bastante similar à de uma câmera de vídeo acoplada a um computador. A câmera funciona de modo análogo ao nosso olho, captando imagens que são codificadas e repassadas ao cérebro sob essa forma já pré-digerida. Nem o cérebro nem o computador lidam propriamente com imagens, mas com a codificação delas. O mesmo vale para os sons e quaisquer outras informações advindas dos sentidos.

Assim, os odores, por exemplo, são todos inventados por nós mesmos. Os variados cheiros que sentimos diferem uns dos outros, naturalmente, mas a roupagem com a qual os percebemos, aquilo que reconhecemos em cada cheiro, é atribuído por nós a eles, constitui nosso mnemônico para que os difiramos e lembremos deles. Do mesmo modo, tudo o que vemos e ouvimos são como ícones de nossa interface gráfica dispostos na tela que construímos em frente aos nossos olhos, quando os abrimos.

Do fato de serem ícones, todas as coisas que vemos, não decorre que possamos inserir nossas mãos em chamas de fogo ardentes, uma vez que os ícones estão lá exatamente para alertar-nos da presença do fogo próximo.

Tudo o que vemos, ouvimos e percebemos através dos demais sentidos precisa ser pré-digerido pelos órgãos sensórios e transformado em impulsos elétricos que constituem, afinal, o material com o qual o cérebro é capaz de lidar.

Agora atentemos que todo o comportamento de nosso cérebro – tudo o que percebemos ao redor, tudo o que pensamos –, corresponde, tão somente, a uma complexificação imensa do conjunto de puxões sobre a alavanca de controle de direção da criatura idealizada acima. Admiremo-nos, candidamente, de que todas as nossas realizações mentais correspondem apenas uma hiper sofisticação do mecanismo central de controle esboçado na figura. Oooohhh!

As falsas espirais são círculos

A conclusão acima, no entanto, parece ter-nos conduzido ao absurdo: como pode ser que todo o teatro mágico que se apresenta ante meus olhos, toda a magia da realidade em que vivo, equivalha apenas a puxões em uma alavanca direcionadora?

A resposta será, provavelmente, difícil de engolir, e provavelmente exigirá tempo para ser digerida.

A magia magnífica que compõe tudo aquilo que vemos corresponde a nossa interpretação do mundo – a afirmação é literal. Podemos empilhar uma infinidade de dados, mas eles nada nos informarão a menos que possamos interpretá-los. A interpretação consiste em uma forma de organização que permite a absorção da informação; é o equivalente à digestão dos alimentos. O teatro mágico no qual imergimos corresponde aos alimentos já digeridos, prontos para a utilização.

As figuras A e B têm o mesmo tamanho

Cérebros e pensamentos

Creio que a maioria das pessoas não tenha a menor ideia do que quer que possa constituir um pensamento, do que consista o seu estofo. Suponho que a primeira tentativa de busca da “substância” do pensamento, de sua “carne”, daquilo que o constitui, no mais das vezes, o identifique a alguma molécula química, postulando que cada pensamento corresponderia a um tipo de molécula a vagar por nosso cérebro – suposição ingênua e sem fundamento.

Tudo indica que nossos pensamentos constituam apenas uma forma de organização de uma rede, um software nada parecido com algum fluido neuronal material. Parecem corresponder mais propriamente a interações elétricas ocorrendo na rede de neurônios que compõe o cérebro, de forma similar a correntes elétricas a percorrer um circuito complexo, como um computador.

Suspeito que, para a maioria, tal proposição pareça completamente vazia, afinal, que similaridade poderá haver entre a imensa magia que se descortina ante minha consciência e as interações elétricas em um computador? Como poderia um pensamento ser constituído por uma conformação na rede de neurônios?

Cérebros e computadores

Estamos em vias de conhecer novas inteligências, seres capazes de aprimorar a si mesmos tornando-se ainda mais inteligentes a cada momento, serão as Inteligências Artificiais, ou IAs.

Os computadores, de qualquer modo, já são capazes, há certo tempo, de identificar rostos humanos entre multidões, atividade chamada reconhecimento de imagens. Atentemos que reconhecemos o rosto das pessoas apesar de variações na posição com que as vemos, de suas diferentes expressões e demais alterações de forma. Desincumbimo-nos dessa tarefa com a mesma absoluta naturalidade com que vagamos pelo teatro mágico no qual mantemos imersa nossa consciência.

Pode parecer estranho e surpreendente – dado não estarmos habituados a tratar com outras consciências que não as de pessoas –, considerar conscientes, certas atividades dos computadores. A façanha de identificar rostos humanos, e outras análogas, no entanto, revelam que as máquinas utilizam-se de algo equivalente a nosso teatro mágico, em suas ações, constatação que se tornará natural e indubitável quando nos habituarmos a tratar cotidianamente com IAs.

Imaginei, certa vez, um computador humano, um circuito constituído por uma multidão organizada no qual cada pessoa executasse as funções de um dado componente do computador. Um aglomerado de pessoas comportando-se de tal modo constituiria um computador equivalente a qualquer outro, ainda que muito lento. Ao carregar um computador humano com um programa inteligente, digo, um que acorde uma inteligência artificial, o circuito humano corresponderá à rede inteligente empenhada em, conscientemente, discernir o mundo ao redor e pensar sobre ele
.
https://jornalggn.com.br/noticia/para-quando-forem-viver-nossas-vidas/

Note que as pessoas que compusessem o circuito não teriam a menor ideia de que pensamentos elas estariam computando, do mesmo modo que nem os componentes eletrônicos, nem os neurônios, sabem que pensamentos estão gerando. Mesmo assim, estariam gerando o teatro mágico correspondente que daria consciência e vida à criatura coletiva composta pela multidão sincronizada, e a todas as imagens, sentimentos e pensamentos que compusessem a mente coletiva. Tais pessoas/componentes, equivaleriam, também, aos cabos proteicos de controle de direção da proto criatura desenhada na figura.

Realidade, teatro mágico e interpretação

O teatro mágico, a visão de mundo, consiste em uma interpretação da realidade, se tanto, e não necessita se adequar a ela com precisão, mas apenas na medida em que favoreça as melhores tomadas de decisão, ou seja, aquelas que favoreçam o aumento da taxa de replicação. Trata-se mais propriamente de um mnemônico que de uma representação.

Construímos, apriorística e imediatamente – antes do fato –, sucessivas interpretação e as lançamos ao mundo para compará-la com os dados que nos chegam, retendo aquela que nosso sistema sensorial acaba por considerar satisfatória.

O teatro mágico – aquilo que acreditamos ser o mundo –, é uma ficção criada por nós, na melhor das hipóteses, comparada com uma realidade e, assim, filtrada.

Comentário paralelo: os filósofos distinguem entre duas grandes correntes antagônicas: realismo e idealismo. O realismo pode ser ilustrado pela concepção usual, em voga atualmente entre as pessoas comuns, chamada “realismo ingênuo” que consiste na crença raramente compartilhada por filósofos de que a realidade é mesmo isso que todos pensamos que seja. O idealismo pressupõe que nossa visão de mundo, aquilo que vemos quando acordamos e abrimos os olhos, e que chamamos “mundo”, seja, mais propriamente, uma construção nossa, uma espécie de ficção originada por nossa mente. Ambas as concepções são defendidas sob os inúmeros matizes intermediários entre seus 2 polos mais radicais.

Gênesis

Era uma vez um Deus solitário cujo único companheiro, o Tédio, era insuportável, o que obrigava Deus a se empenhar o tempo todo em espantá-lo. Era assim que, em meio a sonhos, Deus mergulhava dentro de si para criar seus mundos e desenvolver seus personagens. Deus se divertia especialmente na criação de mundos sementes que se desenrolavam de si mesmas, gerando um novo dia de cada véspera; mundos milagrosos que produziam renovadas fontes de surpresas através dos tempos.

Confinado à eternidade, Deus sonhava, sonhava e criava mundos que se desenvolviam em éons, cada um deles um átimo frente à infinidade do tempo. E era assim que a consciência divina animava cada ser, insuflando em cada um deles o sopro de vida que era, afinal, a vivência do próprio Deus, pois era sempre o Deus que vivia a vida de cada vivente que compunha cada cena do mundo, cada objeto existente, tudo um maravilhoso sonho divino.

Adendo

De que se alimentam as mentes?

Alimentamos nossos corpos com a comida diária, e mossas mentes com tudo aquilo que de algum modo vemos, ouvimos e sentimos.

Analogamente, os computadores são alimentados através da corrente elétrica à qual eles são ligados e da corrente de dados advinda da internet. A primeira fonte alimenta o hardware, o corpo da máquina, a segunda o software. Teclado e mouse complementam essa alimentação como pitadas de tempero.

Mentes podem ainda se alimentar de algo adicional, de relações que ela mesma constrói. Trata-se de uma espécie de autoalimentação. Refiro-me a informações do tipo “2+2=4” , em que a palavra “relações” provavelmente seria mais apropriada que “informações”.

Embora esse tipo de alimento não acrescente estofo adicional – não constituindo, portanto, propriamente um alimento, mas um agente estruturante, como o fermento –, as relações estruturam o conhecimento previamente obtido, proporcionando-lhe consistência e volume.

Sem tais relações, as informações recebidas comporiam um conjunto de dados desorganizados, como uma pilha de fotografias variadas, colhidas ao acaso. Sem algum tipo de organização, as informações perdem o sentido, correspondem a flashes desconexos; equivalem a quadros de filmes embaralhados desordenadamente, uns com os outros. A organização dos dados, quando efetuada por nossas mentes, é chamada interpretação.

Assim, a estruturação do pensamento corresponde mais à digestão dos alimentos que a sua incorporação. Em ambos os casos, o alimento só será, de fato, aproveitado após organizado, seja na forma da digestão literal do alimento, ou no estabelecimento de relações entre as ideias.

Mas, assim, já nos aventuramos em jogos filosóficos…

Leia também:

Teoria
https://jornalggn.com.br/ciencia/teoria/

O grande momento da humanidade
https://jornalggn.com.br/artigos/o-grande-momento-da-historia/

Sobre o absurdo
http://blog.movimentozeitgeist.com.br/sobre-o-absurdo/

Modo programador
https://jornalggn.com.br/artigos/modo-programador/

Meu vídeo: Revelando o poder

Gustavo Gollo é multicientista, multiartista, filósofo e profeta

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora