O PISA e o país que poderíamos ter sido, por Jorge Alexandre Neves

Uma parte relevante da “elite bem formada” do Brasil, desconsidera e minimiza o salto civilizatório promovido nos dois Governos de Lula

O PISA e o país que poderíamos ter sido

por Jorge Alexandre Neves

          Esta semana, saiu o resultado do PISA-2022. Houve algumas boas notícias, até uma bem surpreendente, ao mostrar que a queda do desempenho de adolescentes brasileiros entre 2018 e 2022 – que era esperado, em função da pandemia – foi menor entre os mais pobres do que entre os mais ricos (o que, ademais, é uma evidência de que as escolas privadas brasileiras, mesmo as de elite, não são grande coisa, o que derruba a tese do apartheid educacional, cuja falácia mostrei em outro artigo aqui no GGN; ver referências 1 e 2 abaixo). Todavia, quando o resultado dos estudantes brasileiros deste último PISA é posto em uma perspectiva temporal, o resultado revelado é bastante desanimador.

          O gráfico abaixo traz a média do resultado das provas de matemática e linguagem entre 2003 e 2022 (não há nota para ciências, em 2003). O que se observa é um crescimento robusto entre 2003 e 2009 (com um salto muito relevante de 2006 para 2009), uma estabilização até 2012 (provavelmente, a diferença entre 2009 e 2012 não é estatisticamente significante; ver referência 3 abaixo), seguida de uma variação basicamente aleatória, desde então. Ou seja, não por acaso, estagnamos a partir de 2013 (eita ano desgraçado!).

          O gráfico acima também traduz – o que, provavelmente, não é uma coincidência – o desenvolvimento social brasileiro, no mesmo período. A partir do Governo Lula 1, começamos a colocar em prática (ou “positivar”, como preferem os juristas), de forma mais efetiva e rápida, o que preconizava a CF-88, a “Constituição Cidadã”. No Governo Lula 2, demos um salto e colocamos o Brasil no maior padrão civilizatório de sua história. O início do Governo Dilma 1 foi promissor, mas aí veio 2013, e a partir daí, a história que todos já conhecemos…

          O que mais dói em mim – e me dá desesperança – é que uma parte relevante da “elite bem formada” do Brasil, principalmente aquela posicionada na imprensa hegemônica (mas não somente, pois também vi isso, com clareza, no meio acadêmico), fez questão de desconsiderar e minimizar o salto civilizatório promovido nos dois primeiros Governos de Lula. Chama a atenção, em particular, a decisão de praticamente ignorar a nota feita pela OCDE sobre o desempenho do Brasil no PISA de 2012 (ver a referência 3), ressaltando que o Brasil havia sido o país com maior crescimento na nota de matemática (nosso principal calcanhar de Aquiles) entre todos os países participantes.

          É com melancolia que olho o gráfico acima. Nele, consigo enxergar claramente uma curva contrafactual a me mostrar o país que poderíamos ter nos tornado na década perdida de 2013 a 2022. É obvio que minha curva contrafactual não repetiria exatamente o que se observou na década entre 2003 e 2012, pois seria necessário considerar a mais do que provável tendência assintótica que a curva tomaria. Todavia, se não se tivesse bombardeado nosso processo civilizatório, a partir de 2013 e com o golpe continuado que se iniciou com a lava jato em 2014, hoje estaríamos em um patamar civilizatório significativamente superior. Felizmente, ganhamos uma nova chance… Não podemos desperdiçá-la!

(1) https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2023/12/alunos-mais-ricos-tiveram-maior-perda-de-aprendizado-em-matematica-aponta-pisa.shtml.

(2) https://jornalggn.com.br/artigos/esquecimento-virtuoso-por-jorge-alexandre-neves/.

(3)https://download.inep.gov.br/acoes_internacionais/pisa/resultados/2013/country_note_brazil_pisa_2012.pdf. Esta nota técnica da OCDE sobre o desempenho do Brasil no PISA de 2012, mostra bem que, até ali, estávamos vivenciando uma excelente trajetória, que foi abortada, a partir de 2013.

Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997.  Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas

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Jorge Alexandre Neves

1 Comentário

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  1. Lembrando que em 2015 a Dilma nomeou como Ministro da Educação o Cid Gomes, que promoveu uma revolução na educação no Ceará. Ele saiu 3 meses depois, por pressão do Eduardo Cunha! Menos mal que a Izolda Cela, apontada como a principal responsável pela evolução no estado, é hoje a nº 2 do MEC.

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