O riso proibido do Supremo
por Vinícius Dino
Na tarde de 2 de setembro de 2026, uma fotografia registrada nos corredores do Supremo Tribunal Federal bastou para incendiar as redes sociais. Nela, os ministros Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes aparecem sorrindo após uma piada do ministro Flávio Dino sobre a matéria julgada na sessão anterior.
A imagem virou munição imediata para a extrema-direita: para o governador Romeu Zema, era “o sorriso tranquilo de quem sabe que é intocável”; para milhares de comentários nas redes, a prova definitiva de deboche diante da mais grave crise institucional recente da Corte, deflagrada pelas revelações de que o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, teria buscado ajuda de Moraes em investigações que o atingiam, e pelo contrato de R$ 131,2 milhões entre o banco e o escritório de advocacia da esposa do ministro.
O episódio, isoladamente, é anedótico. Mas revela algo mais amplo e mais antigo do que a crise atual: a convicção de que quem exerce o poder não tem direito ao riso. Que a autoridade, para ser levada a sério, precisa parecer perpetuamente grave, indisponível ao humano. Rir, nesse imaginário, é uma falha moral, como se a gravidade do cargo devesse se refletir, o tempo todo, na fisionomia de quem o ocupa. Como se a seriedade do cargo fosse algo intransponível ao ser humano que a ocupa.
É quase literalmente a história que Umberto Eco narra em “O Nome da Rosa”. No mosteiro beneditino onde se passa o romance, um velho monge cego, Jorge de Burgos, esconde e envenena as páginas do segundo livro da Poética de Aristóteles, o tratado, hoje perdido, sobre a comédia. Jorge mata para impedir que aquele texto circule, porque nele Aristóteles trata o riso como uma forma legítima de conhecimento, não como pecado ou fraqueza.
Para Jorge, se os monges aprendessem que rir é lícito, o medo que sustenta a obediência à Igreja desabaria, o riso dissolve o medo, e é o medo que mantém os fiéis dóceis. A biblioteca inteira, o Edifício e o próprio Jorge acabam consumidos pelo incêndio que ele mesmo provoca para impedir que o livro chegue a outras mãos. O que está em jogo, no romance, não é literalmente rir ou não rir, é o controle sobre o que pode ou não ser dito, relativizado, questionado. O riso é perigoso para quem detém poder porque humaniza: coloca a autoridade no mesmo plano de quem ri dela.
O Brasil já viveu sua própria versão, em escala menor, desse enredo. Em 1987, em plena crise da dívida externa, o país havia acabado de decretar moratória sobre os pagamentos ao exterior, o então ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser Pereira, não conseguiu conter o riso durante uma reunião pública de comissão no Congresso sobre a dívida externa, diante dos argumentos do deputado federal Roberto Campos, que defendia a intervenção do FMI e chamava o Brasil, publicamente, de “caloteiro”.
O sorriso irônico de Bresser correu a imprensa e, para boa parte da opinião pública e do mercado, funcionou como uma mancha, como se um ministro da Fazenda, em meio à mais grave crise financeira do país naquele momento, não tivesse o direito de reagir com ironia a um argumento simplista de um liberal como Roberto Campos.
Não foi a única vez, no Brasil, em que um sorriso mal colocado gerou mais debate do que a própria crise. Em 2016, num intervalo do julgamento do impeachment de Dilma Rousseff no Senado presidido pelo então presidente do STF, ministro Ricardo Lewandowski, o senador Aécio Neves foi flagrado sorrindo largamente ao lado da presidente afastada, em conversa descontraída, com Lewandowski e o advogado José Eduardo Cardozo por perto.
A cena rendeu memes e indignação instantânea: horas antes, os dois haviam trocado farpas duras no plenário, ecos da disputa amarga que os opusera na eleição presidencial de 2014. Aécio explicou depois que apenas cumprimentara Dilma desejando-lhe paz, e que o episódio provava que a rivalidade política não implicava inimizade pessoal, explicação que pouco convenceu quem já havia decidido, de antemão, que aquele sorriso era prova de conluio, de encenação, de um acordo por trás das cortinas.
O padrão se repete: também aqui, em 2026, o problema não é exatamente o riso dos ministros do STF, é o que a indignação com o riso deixa de olhar. A cobrança por solenidade permanente funciona como um teatro de aparências, mais fácil de consumir e de compartilhar do que a análise fria dos fatos que deveriam de fato preocupar quem se importa com a integridade do STF: os dados da Polícia Federal extraídos do celular de Vorcaro, o contrato milionário com o escritório da esposa de um ministro que julga processos ligados àquele mesmo banco, os pedidos de impeachment e a crise de legitimidade que isso gera para toda a Corte. Nada disso se resolve, se agrava ou se esclarece por causa de uma fotografia de corredor. Mas é a fotografia que vira assunto nacional.
Não se trata de dizer que ministros do Supremo devam ser indiferentes ao momento que a instituição atravessa, tampouco que a forma não importe, sim ela importa, e a Corte tem, sim, um dever de sobriedade institucional que vai além do gosto pessoal de cada julgador.
Mas há uma diferença entre exigir seriedade no exercício da função e exigir a encenação permanente da seriedade, como se a legitimidade de uma Corte dependesse da ausência de expressões humanas, e não da qualidade e da isenção de suas decisões. Jorge de Burgos matava para proteger não a fé, mas o controle que a solenidade perpétua lhe garantia sobre os outros monges. Vale a pena perguntar, também aqui, a quem interessa que a discussão pública sobre o STF continue girando em torno de um sorriso de bastidor e não em torno do que, de fato, a imprensa deveria focar.
Contudo, ao que parece, caminhamos para uma nova crise que pode ser pior que a “Lava Jato”, afinal, o “Supremo Tribunal Federal, esse outro desconhecido” nas palavras de Aliomar Baleeiro, hoje é conhecido por todos os brasileiros e está sob escrutínio ao ponto que um simples riso que diminuiu a tensão é posto como prova.
É urgente a necessidade de uma reforma do Judiciário como foi a Emenda “Thomaz Bastos” de 2004 para pôr fim essa crise institucional que assola o nosso país para rirmos sem ser julgados.
Vinícius Dino é advogado.
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