O samba não se cala: o samba paulistano e a luta política
por Daniel Costa
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, a participação política dos sambistas voltou a provocar discussões. Sempre que artistas, compositores, dirigentes de escolas de samba e trabalhadores do carnaval declaram apoio a uma candidatura, reaparece a ideia de que deveriam se limitar à música e deixar a política de lado. Como se o samba pudesse existir separado das condições sociais, das disputas e das experiências históricas que o constituíram.
A questão, porém, não é nova. A história do samba paulistano é também a história de comunidades negras que precisaram se organizar para conquistar espaço, enfrentar a repressão e reivindicar o reconhecimento de suas manifestações culturais. Por isso, quando a Frente Progressista do Samba convoca a Marcha do Samba pela Democracia, não inaugura uma relação entre samba e política. Retoma uma tradição de mobilização que atravessa a história dessa expressão popular.
Marcada para 18 de outubro, a marcha terá concentração no Largo da Banana, na Barra Funda, e seguirá até a Rua do Samba. A Frente divulgou uma carta dirigida aos sambistas de São Paulo, na qual relaciona a defesa da democracia à valorização dos trabalhadores da cultura, ao financiamento público das manifestações populares, à liberdade religiosa, ao combate ao racismo e à preservação dos direitos sociais.
O documento também explicita sua posição na disputa presidencial, com apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Trata-se de uma escolha política assumida pelo movimento, não de uma declaração de que todos os sambistas pensam da mesma maneira. O ponto central é justamente o direito de se posicionar, participar do debate público e disputar os rumos do país.
O carnaval não foi um presente do poder público
A oficialização do carnaval paulistano, em 1967, é um marco importante dessa história. Mas é preciso compreender que ela não representou simplesmente uma concessão das autoridades. Foi resultado de reivindicações e negociações protagonizadas pelos sambistas, que buscavam reconhecimento, condições para realizar seus desfiles e melhores relações com o poder público. A própria carta da Frente lembra que os sambistas antigos “arrancaram da Prefeitura a oficialização do carnaval” e que “ninguém deu de presente”.
A oficialização alterou a relação entre as escolas de samba e a administração municipal, mas não eliminou as desigualdades nem encerrou os conflitos. O reconhecimento institucional conviveu com formas de controle e repressão. A festa que passou a ocupar oficialmente o calendário da cidade continuou sendo organizada por comunidades que precisavam lutar para preservar seus espaços e suas práticas culturais.
Essa trajetória ajuda a compreender por que a defesa do financiamento público da cultura não deve ser tratada como favor ou privilégio. O poder público tem responsabilidades na garantia de condições para que as manifestações culturais sejam produzidas, transmitidas e compartilhadas. No caso do samba, isso envolve o trabalho de músicos, compositores, ritmistas, costureiras, aderecistas, profissionais da harmonia e tantos outros trabalhadores que sustentam as escolas durante o ano inteiro.
A memória de sambistas como Seo Carlão do Peruche, Madrinha Eunice e Pé Rachado permite enxergar essa história para além dos desfiles e dos resultados das disputas carnavalescas. Suas trajetórias ajudam a compreender a importância da organização comunitária, da transmissão dos saberes e da construção de espaços de sociabilidade negra em uma cidade marcada pelo racismo e pelas desigualdades.
Repressão e resistência durante a ditadura civil-militar
A história da Unidos do Peruche é parte dessa trajetória. Em 1972, a escola levou à avenida o enredo Chamada aos heróis da Independência, desenvolvido por Carlão do Peruche, Geraldo Filme, B. Lobo, Rubão e Gilberto Bonga. O desfile recuperava episódios das lutas pela liberdade no Brasil, da Inconfidência Mineira à abolição e à Revolução Constitucionalista de 1932. Foi recebido pelo público com intensidade, embora não tenha conquistado uma boa colocação no julgamento.
O contexto era de endurecimento da ditadura. Em novembro de 1971, antes mesmo do carnaval de 1972, Carlão já havia sido chamado a prestar esclarecimentos na Rua Piauí, onde funcionava um posto da Polícia Federal e do DOPS. O coronel Erasmo Dias o interrogou sobre a letra do samba-enredo de Geraldo Filme. Carlão argumentou que o enredo se baseava em livros de História e não tinha motivação política. Foi liberado, mas o episódio indicava que a escola estava sob observação.
Em 1974, a quadra da escola, na Rua Adelaide, foi invadida pela Polícia Militar. O espaço foi depredado, instrumentos foram destruídos, o cantor Zé Maria foi baleado e Carlão sofreu violência física, que lhe provocou uma fratura na costela. O episódio ocorreu durante a ditadura civil-militar, período em que a repressão restringia direitos e atingia diferentes formas de organização coletiva. Para conseguir colocar o desfile na rua, a comunidade precisou recorrer à solidariedade de outras escolas, como a Lavapés.
Não é necessário afirmar que a invasão tenha sido consequência direta do enredo de 1972 para perceber o que essa história revela. A experiência da Peruche demonstra a vulnerabilidade dos espaços comunitários diante da força policial e a importância das redes de solidariedade. Mostra também que a memória da liberdade não era apenas um tema abstrato: relacionava-se à possibilidade concreta de as comunidades negras ocuparem seus espaços, preservarem suas organizações e exercerem sua cultura.
A história do carnaval carioca permite ampliar essa reflexão. Em 1969, em pleno período de repressão, o Império Serrano levou à avenida o samba-enredo Heróis da Liberdade. A composição retomava a escravidão, a Inconfidência Mineira e a Independência, mas seu sentido não se esgotava na celebração de acontecimentos passados. Ao falar em tirania e opressão, abria espaço para que aquela história dialogasse com o presente.
Não era necessário transformar a avenida em palanque para que a composição adquirisse significado político. A escolha do que lembrar, de como contar a história e de quais palavras cantar podia carregar uma crítica ao tempo vivido. A referência ao passado permitia formular perguntas sobre o presente, mesmo em um contexto no qual a manifestação política aberta podia trazer consequências.
Isso não significa que toda composição tenha uma intenção política deliberada, nem que todos os sambistas compartilhem a mesma visão de mundo. Significa reconhecer que o samba faz parte da sociedade em que é produzido e pode participar das disputas em torno da memória coletiva. Quando sambistas decidem, além disso, declarar publicamente seu apoio a uma candidatura, exercem um direito que não pode ser negado em nome de uma suposta neutralidade artística.
A Frente Progressista do Samba e a disputa pelo presente
A carta da Frente Progressista do Samba retoma essa memória para discutir questões concretas do presente. Ao defender recursos públicos para a cultura, chama atenção para o trabalho e o sustento de quem faz o carnaval. Ao falar da liberdade religiosa, reconhece a importância dos terreiros na formação e na preservação das tradições do samba. Ao tratar do racismo e dos direitos sociais, relaciona a cultura popular às condições de vida das comunidades que a produzem.
A carta também aborda diretamente a eleição presidencial. O movimento manifesta apoio a Lula e se contrapõe à candidatura de Flávio Bolsonaro, apresentando a defesa da democracia como uma das razões de sua mobilização. O documento lembra que Jair Bolsonaro foi condenado definitivamente pelo Supremo Tribunal Federal, entre outros crimes, por golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Também critica a posição de seu filho, Flávio Bolsonaro, que defende anistia aos envolvidos na tentativa de golpe. A Frente assume, assim, uma posição explícita nessa disputa. Não há motivo para disfarçá-la ou apresentar a marcha como se fosse apenas uma convocação cultural sem conteúdo político.
É legítimo discordar da posição do movimento ou questionar suas escolhas. O que não faz sentido é sustentar que os sambistas deveriam permanecer em silêncio por serem sambistas. Essa cobrança estabelece uma fronteira artificial entre cultura e política, como se a primeira pudesse ser produzida fora das relações de poder, das condições materiais e das escolhas coletivas.
O carnaval depende de políticas públicas, espaços de ensaio, infraestrutura, condições de trabalho e reconhecimento institucional. As comunidades que sustentam o samba também dependem de direitos sociais, liberdade de culto e políticas de combate ao racismo. As decisões dos governos afetam diretamente essas condições. Participar do debate eleitoral, portanto, não significa abandonar o samba em favor da política. Pode significar justamente defender as condições que permitem que ele continue existindo.
Isso não obriga todo sambista a apoiar o mesmo candidato, nem transforma uma escola de samba em organização partidária. Significa reconhecer que artistas e trabalhadores da cultura têm o mesmo direito que qualquer cidadão de expressar suas posições, organizar mobilizações e participar das decisões que afetam a vida coletiva.
O direito de tomar posição
A cobrança para que artistas não se manifestem politicamente costuma vir acompanhada da ideia de que a cultura deveria unir as pessoas, enquanto a política as dividiria. Mas a cultura popular nunca existiu fora dos conflitos sociais. O samba foi construído por comunidades que precisaram disputar reconhecimento e enfrentar preconceitos. A própria conquista de espaço para o carnaval paulistano foi resultado de mobilização e negociação.
Defender a democracia, por sua vez, não significa exigir unanimidade. A democracia pressupõe divergência, disputa e liberdade para defender projetos distintos de sociedade. O direito de tomar posição inclui também o direito de discordar de quem toma posição. O problema surge quando se tenta desqualificar a participação política de determinados grupos, como se a condição de artista ou trabalhador da cultura retirasse deles a legitimidade para falar sobre o país.
A carta da Frente afirma que “cansar da discussão é uma coisa” e “deixar de se importar com o que sustenta a vida é outra”. Aposentadoria, remédio no posto, salário, folga, comida na mesa e liberdade de fé dependem de quem governa. A formulação desloca o debate do campo da preferência partidária para o das condições materiais de existência das comunidades do samba, questões que fazem parte da vida cotidiana e estão sujeitas às decisões políticas.
A Frente Progressista do Samba fez sua escolha e a tornou pública. Ao convocar a marcha, convida sambistas e cidadãos a ocuparem as ruas em defesa da democracia e a participarem do segundo turno. A iniciativa deve ser compreendida tanto em sua dimensão eleitoral quanto em sua relação com uma história mais longa de organização, reivindicação e resistência.
A proximidade entre a marcha, marcada para 18 de outubro, e a votação de 25 de outubro torna explícita a intenção política do ato. A mobilização pretende influenciar o debate eleitoral, mas também reafirma que o samba não é apenas espetáculo. É cultura, trabalho, memória e forma de organização comunitária.
O samba não se cala
A história do samba paulistano mostra que a conquista de reconhecimento nunca foi automática. Foi construída por pessoas e comunidades que reivindicaram esse espaço, enfrentaram a repressão e transmitiram suas tradições às gerações seguintes. A oficialização do carnaval, em 1967, não foi um presente. A memória da repressão, incluindo a invasão da quadra da Unidos do Peruche em 1974, tampouco pode ser separada das lutas pelo direito de existir e se expressar.
É essa história que dá sentido à mobilização da Frente Progressista do Samba. Ao relacionar cultura, direitos sociais, liberdade religiosa, combate ao racismo e democracia, o movimento apresenta sua interpretação do presente e assume uma posição diante da eleição. Não fala necessariamente por todos os sambistas, mas reivindica o direito de participar da discussão pública.
No dia 18 de outubro, a Marcha do Samba pela Democracia pretende levar essa mensagem às ruas da Barra Funda. Uma semana depois, os brasileiros decidirão quem ocupará a Presidência da República. A marcha e a eleição são acontecimentos distintos, mas se encontram na reivindicação de que a democracia seja mais do que o direito de votar: que seja também o direito de se organizar, se expressar e participar das escolhas que afetam a sociedade.
O samba não precisa falar por todos. Mas ninguém tem o direito de exigir que ele se cale.
Daniel Costa é jornalista, mestre em História pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador na área de História do Brasil e Moderna, além de temas ligados à cultura popular e ao samba paulista.
Para saber mais:
Bruno Baronetti, O Cardeal do Samba: Memórias do Seu Carlão do Peruche. São Paulo: LiberArs, 2019.
____________ , Carlão do Peruche: um cardeal da rua Zilda ao infinito. São Paulo: Editora Dandara, 2026.
Site da Frente Progressista do Samba: https://frenteprogressistadosamba.com.br/
Serviço:
Evento: Marcha do Samba pela Democracia
Data: 18 de outubro de 2026
Horário: 17h
Concentração: Largo da Banana, Barra Funda.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário