4 de junho de 2026

Patrulhamento, por Jean Pierre Chauvin

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Patrulhamento, por Jean Pierre Chauvin

Entre 2009 e 2014 trabalhei em uma curiosa instituição, dita de “ensino superior”, lídima herdeira dos nefastos acordos MEC/USAID, quando os militares voltaram ao poder, por aqui.

Lá, a relação com os alunos era excelente (e, seja feita justiça, com alguns colegas, também). A graça estava em outro setor. Cogite, internauta, onde ela seria exercida? Acertou quem respondeu: ” – No Facebook!”.

Isso mesmo, dileto leitor. Como estávamos muito ocupados em preencher relatórios e anotar frequência, no intervalo entre as numerosas aulas, não dispunhamos de tempo sobressalentte para trocar reflexões edificantes sobre conteúdos e métodos de ensino.

As coisas funcionavam da seguinte maneira. Boa parte dos alunos e professores inscreviam-se em um grupo, na referida rede social, que levava o nome da faculdade. Dentre outras funções, o fórum era utilizado pelo corpo diretivo (ou “gestor”, se assim preferir) para divulgar notícias, vagas de emprego, ofertas de bolsa, realização de vestibulares etc.

Acontece que, vez ou outra, uma criatura mais impertinente postava matérias de teor supostamente polêmico e, mais, emitia comentários que demonstravam um posicionamento crítico perante certas decisões do estabelecimento e/ou do governo, nas escalas municipal, estadual ou federal. Quando isso sucedia, na quase totalidade dos casos, um dos mediadores do grupo ou referendava os “achados” com que tinha afinidade, ou rechaçava os juízos de que discordava. 

Em casos mais extremos, o post original (publicado por um aluno ou professor) era apagado. Dado sintomático: em vez de tentar a síntese, através da discussão, extirpava-se a fonte do que os censores entendiam como “fonte” do ruído. Por aí se vê porque o discurso da “ordem” social, a defesa da quimera “ética” e a crença na tecnologia como “caminho” sem volta para o futuro esbarravam em questões ainda maiores.

O dado mais bestificante é que esses mesmos patrulhadores ideológicos — que promoviam o alarde de notícias que sacralizavam o deus Mercado e sugeriam que a tecnologia tivesse maior protagonismo que a cultura e a reflexão –, não admitiam o fato de que, ao discursar (ou apagar postagens) contra a ideologia e a doutrinação, comprovavam o acerto dos bravos sujeitos que ousavam discutir algo para além dos binarismos que tais: diploma/vaga de emprego; nota/recompensa; ideologia/neutralidade etc.

Seria tão ou mais divertido se um desses audaciosos seres (sim, porque pensar tornou-se um ato de coragem) relembrasse aos censores cibernéticos que:

1. “doutrinar” e “ensinar” têm a mesma raiz etimológica (basta consultar qualquer dicionário, p. ex., o do filólogo brasileiro Antônio Geraldo da Cunha);

2. a palavra “ideologia” nasceu no início do século XIX (décadas antes de A ideologia alemã) pelas mãos do filósofo francês Desttut de Tracy — que, por sinal, nada tinha de revolucionário: foi um nobre habituado a defender os seus privilégios e a concentrar a discussão em torno das ideias (e não da concretude, como mais tarde, propuseram Friedrich Engels e Karl Marx, mas também Oswald de Andrade, Rubem Braga, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto etc etc etc);

3. “meritocracia” foi um termo cunhado, com viés irônico e crítico, em 1958, pelo sociólogo inglês Michael Young (e não por aquele partido neoliberal brasileiro e entreguista, cujos membros vivem a agir como falsos prepostos da ética).

Talvez algumas instituições proponham-se a atuar como estabelecimentos voltados “para” o ensino superior. Mas… e os seus doutos componentes? Em que medida acolhem os colegas e alunos? Estarão lá, efetivamente, para aprimorar os sujeitos que estudam e trabalham? Ou, como subestimam o outro, persistem em reproduzir o senso comum sob o signo da competição e o temor à violência — praticada “exclusivamente” pelos “outros”?

Tsc, tsc.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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