Paulo Guedes versus Sayad e Lara Resende, por César Locatelli e Rubens Sawaya

Como não poderia ser diferente, a reforma da previdência, por seu impacto recessivo sobre a atividade econômica, tornou-se um dos pontos centrais do divórcio entre Guedes, Sayad e Lara Resende.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, fala durante cerimônia de Assinatura de Atos na Câmara de Comércio dos EUA - Foto Alan Santos - Agência Brasil

Paulo Guedes versus Sayad e Lara Resende

Medidas econômicas anunciadas vão na direção de maior custo social

por César Locatelli e Rubens Sawaya

Se ligarmos a televisão, o rádio, folhearmos um jornal ou revista nos depararemos com mais de 90% de opiniões favoráveis à austeridade, à reforma da previdência, às privatizações e ao célebre fatalismo de que “não há outra saída”. Mas, procurando bem, perceberemos divergências importantes entre linhas de pensamento econômico. Sim, há diferentes linhas que implicam diferentes impactos para as diferentes classes sociais. No fundo, não se trata de uma questão técnica como desejam nos fazer pensar, mas de disputa pela riqueza e pelo fundo social que, inclusive, terá reflexo sobre o crescimento e desenvolvimento econômico.

Em recente seminário na Fundação Getúlio Vargas, Paulo Guedes declinou seus conceitos sobre o caminho a ser trilhado pelo Brasil para recuperar o crescimento e o emprego. Em artigos separados, para o jornal Valor Econômico, André Lara Resende e João Sayad revelaram a discordância com o ideário ultrapassado (“fiscalismo dogmático e quantitativismo anacrônico”) do atual ocupante da cadeira de ministro da economia. Trazem à pauta a discussão teórica mundial que ressurge após a crise de 2008 que colocou em xeque o chamando “Novo Consenso Macroeconômico” (NCM) que, agora, torna-se velho.

Bem, temos que salientar que existe uma querela histórica entre os economistas ditos de água doce (freshwater), com aqueles ditos de água salgada (saltwater) nos Estados Unidos. A denominação foi inspirada na localização das universidades e suas linhas de pensamento econômico. Chicago, à beira de um grande lago de água doce, onde o pensamento econômico de Paulo Guedes foi formado, está de um lado. De outro, o MIT, que formou André Lara Resende, e Yale, que formou João Sayad, são institutos à beira-mar. Apesar de terem se unido por um tempo no Novo Consenso Macroeconômico (NCM) – resultado do casamento dos novo-clássicos (Chicago) com novos-keynesianos, que segundo Mankiw (1991) nada tem do keynesianismo ortodoxo (IS-LM), muito menos do próprio Keynes –, ao que tudo indica, com a crise de 2008, as velhas desavenças desse casamento nos anos 1970 ressurgem em nova roupagem em prol de nosso benefício, ou da sociedade.

Uma plateia de senhores de gravata, bastante receptiva ao ideário de Chicago que na realidade é a base para o NCM, reuniu-se na FGV em Botafogo. Paulo Guedes, bem ao estilo do principal nome da Escola de Chicago, Milton Friedman, disse, com toda a arrogância peculiar de sua escola, que não se pode desperdiçar uma crise. O sentido dessa ideia é que os trabalhadores e os sindicatos, fragilizados pela crise, têm poder reduzido para oferecer resistência às reformas que lhes são prejudiciais. Assim, aproveitando a crise, ele aposta em uma “economia” de 1 trilhão de reais em 20 anos para liquidar a previdência como a conhecemos e lançar as bases do sistema de capitalização, “um paraíso”, em suas palavras.

Em complemento, Paulo Guedes revelou ainda que Salim Mattar, secretário de desestatização, está “doido para passar a faca, quer privatizar tudo o que passa na sua frente”. Sob os aplausos dos presentes, Guedes diz que Mattar fica sempre perguntando ao presidente da República: “Mas no final vai a Petrobras também, né? Vai o Banco do Brasil, né? Vai tudo no final, né?”. Assim, aposta no desmonte completo do que resta de Estado, bem como de sua capacidade de ação para o desenvolvimento. A ideia foi repetida aos brados agora em visita à Trump nos EUA.

Guedes ainda falou sobre pênaltis roubados para o Corinthians e seu estádio, sobre o excesso de recursos para a educação e ironizou a desutilidade da transposição do rio São Francisco. (transcrição nas notas).

Como não poderia ser diferente, a reforma da previdência, por seu impacto recessivo sobre a atividade econômica, tornou-se um dos pontos centrais do divórcio entre Guedes, Sayad e Lara Resende. Este último afirma que governo Bolsonaro, com a condução econômica de Paulo Guedes está indo no sentido contrário ao que deveria tomar. Diz ele:

“Comecemos pela questão que ocupa as manchetes, a reforma da Previdência. Sim, é preciso uma reforma da Previdência, não porque ela seja deficitária, mas porque ela é corporativista e injusta e porque o aumento da expectativa de vida exige a revisão da idade mínima. O déficit do sistema previdenciário, como todo déficit público, não precisa ser eliminado se a taxa de juros for inferior à taxa de crescimento. Como estamos com alto desemprego, significativamente abaixo da plena utilização da capacidade instalada e com expectativas de inflação ancoradas, o objetivo primordial das “reformas” deve ser estimular o investimento e a produtividade.”

Você não entendeu errado, o economista que optou por altíssimas taxas de juros e austeridade fiscal no Plano Real, que havia aderido à ortodoxia do NCM, afirma que a conduta correta, agora, seria estimular e não cortar. A propósito do erro, sem levar em conta a tênue tentativa de mudança nos anos 2000, afirma André Lara Resende:

“O resultado foram mais de duas décadas de crescimento desprezível, colapso dos investimentos públicos, uma infraestrutura subdimensionada e anacrônica, Estados e municípios estrangulados, incapazes de prover os serviços básicos de segurança, saneamento, saúde e educação. Mas como não vale a pena chorar sobre o leite derramado, passemos a políticas a serem adotadas para sair da armadilha em que nos encontramos, com base no novo arcabouço conceitual macroeconômico.”

Sayad completa ao revelar as frágeis bases originárias da discussão, escondidas na ideia de inflação inercial formada por expectativas racionais do NCM, e compara os integrantes do governo atual aos inquisidores Torquemada e Savonarola:

“O André questiona o paradigma. O paradigma que usam é conhecido – com o déficit público, a quantidade de moeda cresce, vem a inflação ou a hiperinflação. Uma forma de pensar do final do século XIX e que Keynes, Minsky, Kalecki e o Abba Lerner, que o André cita, substituíram por outro paradigma após a crise de 1930. O novo paradigma [keynesiano ortodoxo do IS-LM] teve vida curta, de 45 a 80 aproximadamente, os anos dourados do capitalismo, a social-democracia. A partir dos anos 80 e até hoje, voltamos ao pensamento do século XIX, repaginado, mas com os mesmos fundamentos [NCM]. O pensamento econômico é assim mesmo – oscila para lá e para cá embalado pelas contradições da economia capitalista.”

O Novo Consenso Macroeconômico (NCM), em debate crítico em muitos países diante da estagnação da economia mundial, mas que ocupa o centro da política econômica brasileira atual, parte da crença que todos os participantes da economia sabem, pela teoria das expectativas racionais, que um déficit público só provoca inflação e se antecipam, tornando não apenas inócuas as tentativas do governo de estimular a economia, lançando mão de déficits fiscais, mas perigosas ao “confundir” os agentes racionais. A ação do governo, creem, não ajuda a produção do país no longo prazo, não incentiva os agentes econômicos a voltarem a investir e consumir e só produz inflação, além de confundir o mecanismo de preços como princípio alocativo perfeito.

Na crise de 2008, o governo norte-americano adotou uma linha radicalmente oposta aos preceitos da NCM, ao aprofundar imensamente o déficit público para injetar montanhas de dólares no mercado e não deixar bancos e empresas quebrarem. O resultado foi que a recessão e o desemprego foram mais leves do que se imaginava e, além disso, a inflação ficou extremamente bem-comportada.

O vaticínio dos adeptos do NCM, de que o ativismo do governo só geraria inflação, não se concretizou, inaugurando um período de questionamento profundo sobre o NCM fundado exatamente nas ‘expectativas racionais’ que ancorariam a inflação em conjunto com ‘equilíbrio fiscal e taxa de câmbio flexível’, elementos que seriam centrais para manter a ‘estabilidade’ e a ‘credibilidade dos agentes’, bases que, como mágica, garantiriam o crescimento econômico dentro dos limites do ‘produto potencial’ sustentado, dado pelas ‘taxas naturais de desemprego’, princípios que nasceram na escola de Chicago.

Sayad, como velho keynesiano ortodoxo, nunca adotou essa lógica, enquanto Lara Resende, mesmo tendo participado do debate da década de 70, só se deu conta da falácia ortodoxa que ele mesmo defendia há pouco, após passar algum tempo recentemente nos EUA e ter contato com o debate.

As fortes críticas ao NCM e ao “austericídio” que dele resulta têm sido debatidas na academia, no Banco Mundial e até no FMI. Como afirma Sayad:

“a dívida pública explodiu nos Estados Unidos e na Europa, é muito grande (chega a 200% do PIB) no Japão e não há sinais de inflação ou expulsão (crowding out) dos investimentos privados. No Brasil, o pensamento hegemônico não mudou. (…) o artigo do André abre esta e muitas outras perspectivas. Não é para agora. Agora temos que esperar que os Torquemadas e Savonarolas que estão no governo sejam substituídos. Sou pessimista, vai demorar. Sou otimista, o Renascimento prosseguiu apesar destes estrupícios.”

Esse debate retoma a velha discussão sobre os fatores que determinam a dinâmica da economia e que haviam sido proposital ou estrategicamente esquecidos, o que levou os economistas da NCM a pensar o Estado como se fosse uma família atuando sob restrições fiscais. O que Lara Resende propõe é pensar a questão fiscal como dinâmica e não como um problema contábil, na qual o déficit fiscal hoje se autofinancia no tempo com o crescimento econômico ao elevar a arrecadação (sem aumento da carga fiscal), desde que a taxa de juros seja mantida abaixo da taxa de crescimento. Isso significa que o próprio crescimento resolve a questão fiscal e, ao contrário, o corte de gastos apenas o agrava a situação hoje e no futuro. A austeridade é, portanto, destrutiva.

Poderia se tomar o próprio Keynes da “Teoria Geral” de 1936 que Lara Resende não traz, mas que está na base do raciocínio de Sayad: “O verdadeiro remédio para o ciclo econômico não consiste em evitar o auge das expansões e em manter assim uma semidepressão permanente, mas em abolir as depressões e manter deste modo permanentemente em um quasi-boom!” (p. 299-300). A ideia de manter a economia em uma situação de semidepressão está implícita na teoria das taxas naturais de desemprego e produto atuais do NCM.

É indispensável concluir que as linhas de pensamento econômico divergem na medida em que carregam ideologias subjacentes e por isso escolhem ou formulam os problemas teoricamente de uma determinada forma. No fundo são teorias que servem a determinados objetivos, a classes ou grupos que se apropriam de maiores e menores partes na repartição da riqueza de uma sociedade, mesmo que alguns de seus defensores, criticados por Lara Resende, não tenham consciência disso e pensem o problema simplesmente como “a teoria técnica correta”.

Parece que outro velho sabia melhor do que se trata essa briga: da apropriação sobre os recursos do Estado:

“Todo o moderno círculo financeiro, todo o setor de atividades bancárias este entrelaçado na forma mais íntima com o crédito público. Parte de seu capital ativo é necessariamente invertido e posto a juros em títulos públicos de fácil resgate. Os depósitos de que dispõem, o capital colocado à sua disposição e por eles distribuído entre comerciantes e industriais provêm em parte dos dividendos de possuidores de títulos do governo.” (Marx 1977, p.263)

Notas

Leia também:  Previdência: população ainda não entendeu o que está acontecendo, diz líder da oposição

1 Mankiw em The Reincarnation of Keynesian Economics, NBER Working Papers nº 3885, october 1991, https://www.nber.org/papers/w3885.

2 O seminário A Nova Economia Liberal foi realizado pela FGV Projetos e contou com as presenças de diversos presidentes de estatais como Petrobras, Bndes e Banco do Brasil. Para assistir o seminário completo, veja: https://youtu.be/Hw1SMh6zmyo

3 Paulo Guedes sobre os recursos da educação:

“Aí, você conversa com o prefeito de Sorocaba. Ele diz ‘olha, o meu problema é o seguinte: o déficit do ano passado foi estimado em 160 bi, acabou vindo 130 bi, e teve quase 30 bi de empoçamento’. Empoçamento é o resultado da desvinculação. E a vinculação era o que? Sorocaba. O prefeito falando comigo: ‘Nós éramos famílias de 6/7 irmãos. Eu tenho 6 irmãos. Hoje todos meus filhos têm 1 filho ou 2. Então está sobrando dinheiro vinculado à educação. Sobrando. Eu posso ser preso, então eu preciso comprar 4 vezes… o menino tem que trocar de uniforme. Eu compro 4 vezes o uniforme durante o ano. Senão eu vou preso. Eu tenho que ficar comprando uniforme, merenda, comprando pirulito, fazer qualquer coisa para não ser preso’.” [ver a partir de 3:40:40 no vídeo]

4 Paulo Guedes sobre o estádio do Corinthians e sobre os pênaltis marcados a favor do time:

“Então, se o presidente é do Corinthians, surge o estádio do Corinthians, ninguém consegue pagar aquela… [aplausos]. E o Corinthians começa a ganhar o campeonato brasileiro porque todo jogo tem um pênalti roubado lá, a favor dele [algumas risadas], certo?” [ver a partir de 3:25:10]

5 Paulo Guedes sobre a transposição do Rio São Francisco:

“Tem transposição do rio Amazonas, ponte Rio-Lua. Tudo que não interessa e não passa pelo crivo do mercado”. [ver a partir de 3:27:20]

6 André Lara Resende escreve sobre a crise da macroeconomia, Valor Econômico de 08/03/2019, em https://www.valor.com.br/cultura/6149939/andre-lara-resende-escreve-sobre-crise-da-macroeconomia

7 “Ar fresco: o artigo do André”, por João Sayad, no Valor Econômico de 15/03/2019, em https://www.valor.com.br/u/6161785

8 A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. John Maynard Keynes. Nova Cultural, São Paulo, 1996. 349 p.

9 MARX, K. O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, em Karl Marx e Friedrich Engels: Textos 3. (1977) Edições Sociais: São Paulo

7 comentários

  1. Militares defendem caninamente seus privilégios argumentando que não tem FGTS, adicional, horas extras e o escambau. Mas eles já entraram sabendo e se estão insatisfeitos que caiam fora.

  2. Não há outra saída?

    “Kajuru afirma que tem feito sua parte para frear a sangria nos cofres públicos. Doa metade de seu salário (33.700 reais) a instituições sociais como o Cevam (Centro de Valorização da Mulher) ou pessoas físicas em dificuldade financeira, a exemplo do ex-jogador do Atlético-GO, Agnaldo, que foi presenteado com pernas mecânicas. “Não devolvo dinheiro para o ralo da corrupção”, justifica. Dispensa carros oficiais, passagens aéreas e auxílio-moradia. Em Brasília, alugou um flat a cinco minutos do Congresso e banca do próprio bolso o aluguel de 2.500 reais. “Quem achar que é demagogia, que também o faça. Que outros senadores abram mão de 50% do que custam.”
    Do punho cerrado ao apoio a Bolsonaro

    “Se a classe política abrir mão de privilégios e metade do salário, não precisa mexer na Previdência.” Assim, Jorge Kajuru diz acreditar que “cortes na carne” dos poderes Executivo e Legislativo podem representar “uma economia na casa de um trilhão”, suficiente para cobrir o déficit previdenciário estimado em 290 bilhões de reais. “Nosso salário é uma fortuna. Professor não chega nem perto de ganhar metade do que ganhamos.” A proposta de ajuste da Previdência apresentada pelo Governo de Jair Bolsonaro não lhe agrada. “A reforma é um tapa na cara de idosos e pessoas especiais. Ela protege caloteiros e prejudica a camada mais pobre da população, que só vai se aposentar se for como Raul Seixas, nascido há dez mil anos atrás.”

    Por “caloteiros”, o senador entende empresas que devem à Previdência. Segundo seus cálculos, somente os cinco maiores bancos do país acumulam dívidas superiores a 2 bilhões de reais. Ele argumenta que o Governo deveria ter como prioridades “as reformas tributária, política e dos Estados, que estão endividados”. Embora se diga amigo do ministro da Economia, Paulo Guedes, descarta votar a favor da proposta governista caso não haja mudanças nas idades mínimas sugeridas para aposentadoria. “Não sou contra a reforma da Previdência, mas ela pode esperar. O maior crime do Brasil é a renúncia fiscal. Se Bolsonaro quiser pagar toda a dívida do Brasil, é só usar a riqueza do nióbio.””

    https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/14/politica/1552589596_031343.html

  3. O que falta é os pobres de direita deixarem que seja aplicado o novo consenso macroeconômico, NCM não vai rolar com governos de direita ultraliberais sendo sempre eleitos por eles…

  4. Achei interessante quando fala da dívida. “desde que a taxa de juros seja mantida abaixo da taxa de crescimento”, aí ficam as pergunta: qual o juros que estamos pagando da dívida interna. Por que os bancos tem as taxas de juros reais tão altas no Brasil? e a taxa do cartão de crédito!!!! O país todo endividado, com essa taxa de juros que beira a agiotagem. E os bancos ? Se você deixa seu dinheiro aplicado recebe pouquíssimo, mas se fica devendo as taxas são absurdas. Tinha que abrir para os bancos chineses, indianos, etc… com taxas de juros próximas da realidade inflacional. Se a inflação é 10% , e te cobram 340%, é quase um … sei lá. E são essas pessoas que estão dando as cartas, e derrubando presidentes, e manipulando as redes sociais e elegendo presidentes, e manipulando a mídia total kkk fudeu. O perigo é grande e real.

  5. Concordo com o Lara Resende, não aguento mais pagar imposto. Se o governo quer tapar o rombo, que imprima dinheiro e pronto!!!! Reforma da Previdencia virou uma paranoia

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