Do autor ao acontecimento: poéticas colaborativas e a política do comum
por Eliseu Raphael Venturi
Durante muito tempo a produção em artes sustentou-se na figura do autor como centro irradiador de sentido. Mesmo quando crítica, preservava a lógica da assinatura, da obra como propriedade simbólica e da autoria como garantia de valor. Esse modelo organizou não apenas o sistema das artes, mas também expectativas culturais mais amplas sobre criação, reconhecimento e poder.
A virada operada pelas poéticas colaborativas desestabiliza esse eixo ao tornar evidente algo simples e perturbador: há obras que não existem sem o outro, não como público passivo, mas como parte constitutiva do próprio acontecimento.
A arte relacional, tal como formulada por Nicolas Bourriaud, explicita essa mudança ao compreender a obra como dispositivo de encontro, convivência e troca. Em trabalhos como os de Rirkrit Tiravanija, nos quais cozinhar, comer ou simplesmente estar junto constitui o trabalho, o sentido não está no objeto produzido, mas na situação criada. A obra não se oferece à contemplação distante; ela acontece no tempo partilhado, na relação que se estabelece e nos afetos que circulam.
Quando a obra se confunde com o encontro, a autoridade deixa de residir na intenção individual e desloca-se para o processo compartilhado. O sentido emerge do atrito, da negociação, da escuta e, muitas vezes, do conflito. Não há garantia prévia de harmonia nem promessa de consenso.
O que se produz é uma experiência aberta, atravessada por assimetrias, resistências e imprevisibilidades. Essa lógica aproxima-se diretamente das pedagogias críticas, que compreendem o conhecimento como construção coletiva, sempre provisória, situada e dependente das relações que o sustentam.
A crítica institucional aprofunda esse deslocamento ao evidenciar que as condições de produção, circulação e legitimação da arte também são campos de disputa. Práticas como as de Tania Bruguera mostram que a colaboração não se limita ao convívio, mas envolve responsabilidade, risco e implicação ética. Aqui, o comum não é um espaço neutro ou conciliador, mas um território tenso, no qual diferentes posições se confrontam e produzem sentido a partir do dissenso.
Esse deslocamento é profundamente político, ainda que não se apresente sob a forma de discurso ideológico explícito. Em uma cultura marcada pela competição, pela autoria inflacionada e pela mercantilização das ideias, insistir na colaboração desorganiza expectativas arraigadas.
A centralidade do indivíduo criador é substituída por uma atenção ao que se produz entre sujeitos. A pergunta deixa de ser “quem fez?” para tornar-se “o que aconteceu?”. Com isso, o valor desloca-se do nome para a experiência, do resultado para o processo, da posse para a partilha.
Tal mudança, aparentemente sutil, ameaça estruturas mais amplas de poder fundadas na hierarquia e na centralização do discurso. Ao dissolver a autoridade autoral, as poéticas colaborativas expõem a fragilidade de modelos que dependem da verticalização do saber e do controle da narrativa. Elas não oferecem um ideal harmonioso de coletividade, mas afirmam o comum como espaço de negociação permanente, onde o sentido não é imposto nem garantido, mas construído no encontro.
Ao operar esse deslocamento, a arte contemporânea não apenas redefine o estatuto da obra, mas propõe outra maneira de pensar criação, aprendizagem e convivência.
Nas poéticas colaborativas, o que está em jogo não é a celebração do coletivo como valor abstrato, mas a experiência concreta de produzir algo que ninguém controla inteiramente. É nesse ponto que a arte deixa de perguntar quem assina e passa a perguntar quem participa, quem sustenta e quem é afetado — e, ao fazê-lo, reinscreve o comum como problema estético, ético e político do nosso tempo.
Eliseu Raphael Venturi é doutor em direito e licenciado em artes visuais.
Conheça mais:
1. Tania Bruguera (cubana, 1968– ): prática artística baseada em participação, risco e responsabilidade ética, compreendendo o comum como campo de disputa. Arte Útil (desde 2011). Plataforma que propõe a arte como ferramenta social concreta. https://www.taniabruguera.com/ https://arte-util.org/about/

A plataforma Arte Útil, desenvolvida por Tania Bruguera, propõe uma inflexão decisiva na compreensão da arte contemporânea ao deslocar seu valor do campo simbólico para o campo da ação concreta. Mais do que uma categoria estética, a artista formula um critério ético e político: obras que operam diretamente na vida social, produzindo efeitos reais, sustentáveis e verificáveis.
Nesse projeto, a colaboração não é um recurso formal, mas uma condição estrutural. A obra emerge da implicação coletiva, da negociação institucional e do risco assumido pelos participantes. O comum aparece como espaço de conflito, responsabilidade e decisão, e não como ideal harmônico de convivência.
Ao tensionar os limites entre arte, ativismo e política pública, Arte Útil questiona a autonomia do campo artístico e redefine a autoria como prática distribuída, situada e necessariamente compartilhada.
2. Suzanne Lacy (estadunidense, 1945– ): referência fundacional da arte socialmente engajada, com ênfase em escuta pública e processos colaborativos de longa duração. The Oakland Projects (1991–2001). Projetos desenvolvidos com comunidades urbanas. https://www.suzannelacy.com/ https://www.suzannelacy.com/performance#/the-oakland-projects/

Em The Oakland Projects, Suzanne Lacy desenvolve uma série de ações colaborativas de longa duração baseadas na escuta pública e na construção coletiva do discurso. O trabalho articula jovens, comunidades, especialistas e instituições em processos que transformam a fala em acontecimento político.
A obra não se reduz a um evento pontual, mas se constitui como processo contínuo de mediação, aprendizagem e produção de sentido. O foco desloca-se do objeto artístico para as condições de enunciação, para quem fala, quem escuta e quem legitima a fala.
Nesse contexto, a colaboração não busca consenso, mas visibilidade, confronto e reconfiguração das relações de poder que atravessam o espaço público.
3. Thomas Hirschhorn (suíço, 1957– ): instalações e monumentos temporários construídos coletivamente, nos quais o sentido emerge do uso e da convivência.
Gramsci Monument (2013). Projeto comunitário realizado no Bronx. https://www.diaart.org/exhibition/exhibitions-projects/thomas-hirschhorn-gramsci-monument-project

O Gramsci Monument, de Thomas Hirschhorn, consiste em uma instalação temporária construída coletivamente com moradores de um conjunto habitacional no Bronx. Estruturado como espaço de convivência, debate e produção cultural, o projeto dissolve as fronteiras entre arte, política e vida cotidiana.
A obra só existe enquanto uso: encontros, leituras, oficinas, refeições e conflitos constituem sua materialidade. Hirschhorn abdica do controle autoral pleno, aceitando o desgaste, a precariedade e a imprevisibilidade como elementos centrais do trabalho. O monumento não celebra uma figura histórica de forma estática, mas ativa o pensamento crítico como prática viva e compartilhada.
4. Raqs Media Collective (Índia, fundado em 1992): coletivo interdisciplinar que articula autoria compartilhada, tempo e política do comum.
Coronation Park (2006). Instalação baseada em experiência coletiva e ficcionalização histórica. https://www.raqsmediacollective.net/ https://works.raqsmediacollective.net/index.php/2015/12/05/coronation-park/5807

Em Coronation Park, o Raqs Media Collective constrói uma instalação que articula história, ficção e experiência coletiva. O trabalho propõe um espaço de circulação simbólica onde narrativas coloniais, políticas e temporais se sobrepõem.
A autoria é assumidamente coletiva e instável, diluindo-se entre texto, arquitetura, som e participação do público. O sentido não é entregue, mas negociado no percurso e na convivência com múltiplas camadas de tempo. A obra afirma o comum como espaço de pensamento compartilhado, onde a história não é fixada, mas permanentemente reimaginada.
Como define o grupo: “Às vezes, a escultura apresentada é apenas um par de botas altas que terminam em pernas que se dissipam no ar, ou o vislumbre de um punho segurando o cabo de uma espada, uma capa vazia sem corpo, ou uma aparição congelada e sem rosto. Como fragmentos sinecdóquicos, ou paródias, de insígnias cerimoniais, esses resquícios de posturas autoritárias e apetrechos de poder desmaterializado não comemoram nem a vitória nem a resistência – mas permanecem como testemunhas pacientes da arrogância.”.
5. Superflex (Dinamarca, fundado em 1993): práticas colaborativas que questionam economia, propriedade intelectual e produção de valor.
Free Beer (2005–). Projeto de código aberto que problematiza autoria e circulação. https://superflex.net/ https://superflex.net/works/free_beer

O projeto Free Beer, do coletivo Superflex, utiliza a lógica do código aberto para questionar autoria, propriedade intelectual e valor econômico. A receita da cerveja é disponibilizada livremente, permitindo sua reprodução, modificação e redistribuição.
A obra não reside no produto final, mas no sistema de circulação e apropriação coletiva que ela instaura. Ao operar no campo da economia simbólica e material, o trabalho evidencia os mecanismos de exclusão e controle presentes no mercado cultural. Free Beer transforma colaboração em método crítico, afirmando o comum como prática concreta e não como abstração ideal.
6. Assemble (Reino Unido, fundado em 2010): coletivo que atua entre arte, arquitetura e ação comunitária, dissolvendo fronteiras entre autoria, projeto e uso. Granby Four Streets (2011–2015). Processo colaborativo de regeneração urbana. https://assemblestudio.co.uk/projects/granby-four-streets-2

Em Granby Four Streets, o coletivo Assemble desenvolve um processo colaborativo de regeneração urbana em parceria direta com moradores de um bairro em Liverpool. O projeto integra arquitetura, design e ação comunitária.
A obra emerge da prática compartilhada: decisões, construções e usos são definidos coletivamente, dissolvendo a separação entre autor, usuário e espectador. O valor do trabalho está no processo e na permanência das relações estabelecidas.
Aqui, o comum se constrói como território vivido, sustentado por práticas de cuidado, negociação e corresponsabilidade.
7. Park Fiction (Alemanha, fundado em 1994): coletivo que articula arte, ativismo e participação cidadã na produção do espaço público.
Park Fiction (1994–2005). Parque concebido a partir do desejo dos moradores.
https://parkfiction.org/ https://arte-util.org/projects/park-fiction/

O projeto Park Fiction, do coletivo Park Fiction, nasce da mobilização dos moradores de Hamburgo contra projetos urbanísticos excludentes. A partir de oficinas, desejos e imaginação coletiva, o parque é concebido como obra colaborativa.
A arte opera como ferramenta de escuta e mediação política, deslocando o planejamento urbano para um processo participativo. A autoria dissolve-se em múltiplas vozes e decisões.
O trabalho afirma o comum como produção ativa do espaço público, onde estética e política se articulam indissociavelmente.
8. Ultra-red (Estados Unidos, fundado em 1994): coletivo que trabalha som e escuta como práticas políticas e investigativas compartilhadas.
Militant Sound Investigations (desde os anos 1990). Processos baseados em escuta coletiva. https://ultrared.org/ https://ultrared.org/directory.html

Em Militant Sound Investigations, o coletivo Ultra-red utiliza o som e a escuta como práticas políticas colaborativas. Gravações, discussões e análises coletivas constituem o núcleo do trabalho. A obra não busca representação, mas investigação compartilhada. Escutar torna-se um ato político, capaz de revelar conflitos, silêncios e assimetrias sociais. O comum emerge como prática de atenção coletiva, em que o sentido se constrói no processo de escuta e reflexão conjunta.
9. Forensic Architecture (Reino Unido, fundado em 2010): agência interdisciplinar que produz conhecimento público por meio de investigação colaborativa.
Investigations (desde 2010). Projetos que articulam arte, direitos humanos e produção coletiva de evidências.
https://forensic-architecture.org/

O conjunto de trabalhos reunidos sob Investigations, da Forensic Architecture, articula arte, ciência e direitos humanos em processos colaborativos de produção de evidências. Arquitetura, dados e testemunhos são mobilizados para reconstruir acontecimentos.
A obra se constitui como investigação pública, envolvendo pesquisadores, vítimas, ativistas e instituições. A autoria é necessariamente coletiva e situada. O comum aparece como campo de responsabilidade compartilhada, onde a produção de verdade é resultado de cooperação crítica.
10. Temporary Services (Estados Unidos, fundado em 1998): coletivo que explora colaboração, circulação não mercantil e uso público da arte.
Public Phenomena (2008–). Plataforma de projetos fora dos circuitos institucionais tradicionais. https://temporaryservices.org/ https://www.temporaryservices.org/public_phenomena.pdf

Em Public Phenomena, o coletivo Temporary Services desenvolve projetos que existem fora dos circuitos institucionais tradicionais, baseados em circulação livre e uso público. A obra se constrói na interação direta com contextos urbanos e sociais, sem mediação mercadológica. O processo importa mais que a documentação, e a experiência mais que o objeto. O trabalho afirma uma ética da colaboração e da acessibilidade, na qual o comum se manifesta como prática cotidiana e compartilhada.
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