Polarização Política II: Pluralismo contra Intolerância, Fake News e Individualismo, por Fernando Nogueira da Costa

Continuamos com nossas breves sinopses sobre a literatura Política recém-publicada. Sinopse é uma espécie de resumo da ideia principal, uma síntese de uma obra literária ou científica.

Polarização Política II: Pluralismo contra Intolerância, Fake News e Individualismo

por Fernando Nogueira da Costa

Continuamos com nossas breves sinopses sobre a literatura Política recém-publicada. Sinopse é uma espécie de resumo da ideia principal, uma síntese de uma obra literária ou científica. O objetivo é fazer com o leitor entender os pontos principais do texto original, de modo o motivar a se interessar (ou não) pelo resto da obra. É espécie de chamariz para leitura.

Greg Lukianoff e Jonathan Haidt denominaram seu livro de “A Superproteção da Mente Americana” (2018). Trata de Três Grandes Inverdades, espalhadas nos últimos anos:

  1. a Inverdade da Fragilidade: “o que não mata você, deixa você mais fraco”.
  2. a Falsidade do Raciocínio Emocional: “sempre confie em seus sentimentos”.
  3. a Mentira de Nós Contra Eles: “a vida é uma batalha entre pessoas boas e pessoas más”.

Essas três Grandes Inverdades implicam em políticas dos movimentos políticos utilizadores delas, senão por ignorância, com má fé. Elas estão causando problemas aos jovens, às universidades e, mais genericamente, às democracias liberais. Para citar apenas alguns das consequências desses problemas: a ansiedade adolescente, a depressão e as taxas de suicídio aumentaram acentuadamente nos últimos anos.

Contra elas, respectivamente, enfrente cada princípio psicológico com sabedoria. 

Os jovens são antifrágeis. Necessitam ser preparadospara a estrada da vida, não para um caminho exclusivo sem percalço.

Somos todos propensos ao raciocínio emocional e ao viés de confirmação. Seu pior inimigo não pode prejudicá-lo tanto quanto seus próprios pensamentos irrefletidos. Mas, uma vez dominada sua mente, sem sua autodeterminação e/ou autonomia ninguém pode ajudá-lo, nem mesmo seu pai ou sua mãe.

Somos todos propensos também ao pensamento dicotômico e ao tribalismo. A linha divisória entre o bem e o mal corta o caminho entre a mente e o coração do ser humano.

Por exemplo, observemos a intolerância com o pluralismo, tanto intelectual, quanto político. A cultura em campus universitários tornou-se mais ideologicamente uniforme, comprometendo a capacidade dos acadêmicos de buscar a verdade científica e de os alunos aprenderem com uma ampla gama de pensadores. Extremistas proliferaram na extrema direita ou na extrema esquerda, provocando uma à outra com ódio mútuo.

A mídia social canalizou as paixões partidárias para a criação de uma “cultura de destaque”. Qualquer um pode ser publicamente envergonhado por dizer algo, embora de modo bem-intencionado, sujeito a alguém o interpretar como ignorância ou má-fé. 

As plataformas digitais e as novas mídias sociais permitem os cidadãos se refugiarem em bolhas auto confirmatórias. Nelas, seus piores temores sobre os males do outro lado podem ser confirmados e amplificados por extremistas e trolls cibernéticos para semear a discórdia e a divisão política.

As caças às bruxas têm, geralmente, quatro propriedades:

  1. elas parecem surgir do nada; 
  2. envolvem acusações de crimes contra o coletivo; 
  3. as ofensas possíveis de levar a essas acusações são frequentemente triviais ou artificialmente fabricadas;
  4. quando o acusado é inocente, muitas vezes quem sabe disso se omite em sua defesa ou, em casos extremos, se junta à multidão acusadora.

A prevenção contra a “caça à bruxa” é a educação plural. A diversidade de pontos de vista reduz a suscetibilidade de uma comunidade a arranjar um “bode expiatório”.

Michiko Kakutani escreveu “A Morte da Verdade” (2018). Cita, oportunamente, Hannah Arendt em Origens do Totalitarismo (1951): “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre o fato e a ficção, ou seja, a realidade da experiência, e a diferença entre o verdadeiro e o falso, pelos critérios do pensamento racional”.

Essa referência é similar ao panorama cultural e político vivido hoje em um mundo no qual as fake news e as mentiras são divulgadas em escala industrial por “fábricas” de trolls, e lançadas em um fluxo ininterrupto pelo boca-a-boca e pelo Twitter. São espalhadas pelo mundo todo na velocidade da luz por perfis em redes sociais. 

O nacionalismo, o tribalismo, a sensação de estranhamento, o medo de mudanças sociais e o ódio aos estrangeiros estão novamente em ascensão. As pessoas, trancadas nos seus grupos partidários e protegidas pelo filtro de suas bolhas, vêm perdendo a noção de realidade compartilhada e a habilidade de se comunicar com as diversas linhas sociais. Tornam-se sectárias.

Mark Lilla lançou “O progressista de ontem e o do amanhã: desafios da democracia liberal no mundo pós-políticas identitárias” (2018). Há uma diferença entre ser um partido preocupado com os trabalhadores e ser um partido trabalhista. Há uma diferença entre ser um partido preocupado com as mulheres e ser um partido feminista. É possível ser um partido preocupado com as minorias sem se tornar um partido das minorias. Em primeiro lugar, todos nós somos cidadãos. A cidadania é prioritária.

Lilla comenta sobre a pendular alternância de poder entre liberais (Partido Democrata) e conservadores (Partido Republicano) nos Estados Unidos. Os liberais clássicos (esquerda norte-americana) se tornaram o “terceiro partido” ideológico de lá, mas estão na retaguarda – e não na vanguarda – de quem se autoproclama independente ou conservador.

Talvez pelos abusos do neoliberalismo econômico, há certo desprezo do público pelo liberalismo esquerdista como doutrina política. Norte-americanos, mesmo se votam em candidatos da esquerda, são cada vez mais hostis à sua maneira de falar e escrever (especialmente a respeito deles, pessoas comuns), argumentar, fazer campanha, governar. Por isso, o liberalismo esquerdista americano no século XXI estaria em crise. Sofre tanto uma crise de imaginação criativa e ambição de poder, quanto uma crise de adesão e confiança da parte do grande público.

A frustração de Lilla tem origem em uma ideologia perniciosa à campanha eleitoral para conquistar a maioria. Os liberais trazem muitas coisas para as disputas eleitorais: valores, compromisso, propostas políticas. O que não trazem é uma imagem idílica de como a vida comum poderia ser, o que a direita americana tem fornecido desde a eleição de Ronald Reagan. 

Essa imagem de futuro — e não o dinheiro, a propaganda enganosa, o alarmismo ou o racismo — tem sido a fonte primordial de sua força. Os liberais abdicaram da disputa pelo imaginário americano. Falta imagem inspiradora do destino dos Estados Unidos.

Com o surgimento de uma direita unificada em torno do individualismo nacionalista, os liberais americanos se viram diante de um sério desafio: desenvolver uma nova visão política do destino do país. O desafio é reelaborar o “Sonho Americano”, desta feita readaptado às novas realidades de sua sociedade e aprendendo com os fracassos de velhas atitudes.

Os liberais de esquerda não souberam esboçar essa imagem do futuro. Envolveram-se na política identitária, perdendo o sentido de o que os norte-americanos compartilham como cidadãos, e o que os une como nação. Desde os anos 1980, na Era do Individualismo neoliberal, essa política cedeu lugar a uma pseudopolítica de autoestima e de auto definição, cada vez mais estreita e excludente, hoje cultivada nas faculdades e universidades. Os direitos da cidadania abrangem a conquista de todos os demais direitos: civis, políticos, sociais, econômicos, de minorias, etc.

A Era Reagan propagou sua versão de esquerda. Pior, ela acabou se tornando a doutrina seguida por duas gerações de políticos, professores, jornalistas, militantes liberais e filiados ao Partido Democrata. O fascínio (e em seguida a obsessão) pela identidade não desafia o princípio fundamental do reaganismo: o individualismo. Pelo contrário, ele o reforça! 

A política identitária da esquerda se tratava, a princípio, de grandes grupos de pessoas: afro-americanos e mulheres. Todos buscavam reparar grandes erros históricos se mobilizando e se valendo das instituições políticas norte-americanas para assegurar seus direitos individuais.

Porém, causas individualistas particulares de minorias pouco dizem a respeito dos interesses coletivos da maioria do eleitorado. Todo progresso da consciência identitária liberal tem sido marcado por um retrocesso da consciência política liberal, sem a qual nenhuma visão ampla do futuro americano pode ser imaginada e propagada.

Por isso não é de surpreender hoje o termo liberalismo deixar tantos americanos indiferentes, quando não hostis: ele é visto, com alguma realidade, como uma doutrina professada basicamente pelas elites urbanas instruídas, sem contato com o resto do país. A crítica é elas verem os problemas atuais, sobretudo, através das lentes da identidade, cujos esforços se resumem em zelar e alimentar movimentos hipersensíveis. Eles dissipam em vez de concentrar as energias do resto da esquerda, historicamente, defensora do igualitarismo social para todos os cidadãos.

Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Autor de “Métodos de Análise Econômica” (Editora Contexto; 2018). http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

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