Quando o Banco Central briga com a realidade: não se emociona e se esconde atrás dos dados
por Marco Antônio S. C. Castello Branco
Há algo de curioso na frase que virou marca registrada do atual comando do Banco Central: “não podemos brigar com os dados”. Repetida como mantra para justificar a Selic em patamar estratosférico, a frase passa a ideia de que o Comitê de Política Monetária é apenas um intérprete neutro de planilhas e estatísticas, incapaz de escolher diferente. Mas, se levássemos a sério o trabalho de Richard Thaler, prêmio Nobel de Economia de 2017, perceberíamos que não existem dados neutros. Existem escolhas – e vieses – por trás de cada dado que se decide enxergar. Aliás, abordei em outro lugar que a neutralidade de valores é apenas um ideal regulativo da tecnocracia de governo, não uma condição possível, e como esse ideal se transforma em poder ideológico e dogmático quando passa a ser aceito como fato.
Thaler ganhou sua reputação justamente por desmontar a ficção do “agente racional” e mostrar que, na vida real, pessoas – e também economistas, inclusive aqueles que dirigem bancos centrais – cometem erros sistemáticos. Temos racionalidade limitada, sofremos de ilusão monetária, usamos atalhos mentais para julgar riscos e vivemos presos ao viés de status quo. A política monetária brasileira de hoje é um manual vivo desses desvios.
Quando o BC insiste que a Selic de 15% é apenas o resultado inevitável de projeções e expectativas de inflação, está fazendo duas operações silenciosas. Primeiro, ele escolhe quais dados importam: sacraliza a meta de 3,0 +/- 1,5% de inflação, dá peso quase absoluto às expectativas de mercado captadas na pesquisa Focus e minimiza qualquer evidência que aponte na direção contrária – desaceleração do IPCA, arrefecimento da atividade, desemprego oculto, explosão da precarização social etc. Segundo, ele supõe que as expectativas da Focus são “bem informadas”, como se os agentes que as respondem fossem imunes a pressões de carreira, modismos e narrativas políticas e ideológicas.
A isso se soma a nova palavra de ordem do presidente do BC: “é importante que o Banco Central não se emocione”. A frase sugere que as únicas emoções perigosas são as de fora – as do governo eleito, da sociedade, da “política”. Thaler, porém, mostrou que também os tecnocratas são “Humans”, não “Econs”: carregam medo de perder reputação, orgulho corporativo, vaidade de serem vistos como os últimos guardiões da responsabilidade. Fingir ausência de emoção não as elimina; apenas as torna invisíveis e, portanto, mais poderosas na hora de decidir.
A própria sacralização da meta de 3% é um bom exemplo de economia comportamental em ação. Uma vez escolhida, a meta vira “dotação”: qualquer flexibilização é percebida como perda intolerável, ainda que o custo social de persegui-la com juros reais de dois dígitos seja imenso. Some-se a isso o bias do status quo – a preferência por manter um arranjo claramente disfuncional a admitir mudança – e o viés de confirmação que leva o Copom a procurar apenas números que reforcem a narrativa da “postura vigilante”. Não se trata, portanto, de um BC sem emoções, mas de um BC dominado por emoções que ele se recusa a reconhecer.
Thaler passou décadas mostrando que esse tipo de crença é ingênuo. As pessoas não formam expectativas com base em modelos econométricos, e sim em experiências recentes, manchetes e conversas de corredor. Analistas de mercado não são diferentes: têm incentivos para andar em rebanho, não ficar “fora do consenso” e exagerar o risco inflacionário, porque o custo reputacional de errar para baixo é maior do que o de errar para cima. A pesquisa Focus captura esse conjunto de vieses e devolve ao Banco Central um termômetro psicológico, não um oráculo científico.
O paradoxo é que a própria comunidade econômica, em busca de reconhecimento social, tentou se aproximar das ciências duras. Criou-se um prêmio de “Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel” – o Nobel de Economia – para colocar economistas no mesmo panteão de físicos e químicos. Depois, quando um desses laureados – Thaler – demonstra empiricamente que o comportamento econômico é tudo menos racional, boa parte do mainstream simplesmente segue em frente como se nada tivesse acontecido. O Banco Central do Brasil é um exemplo acabado dessa recusa em aprender.
Ao tratar as expectativas da Focus como verdade revelada, o BC ignora o que a economia comportamental ensina: expectativas são enviesadas, instáveis e altamente sensíveis à própria postura do Banco Central. Quando o Copom adota um discurso de medo permanente e promete manter juros reais de dois dígitos “até que as expectativas cedam”, ele está alimentando exatamente a narrativa pessimista que diz combater. A mensagem subjacente é: “a inflação é um perigo sempre à espreita, o governo é irresponsável por natureza, os juros vão ficar altos por muito tempo”. Que tipo de expectativa o leitor acha que isso produz?
O resultado dessa combinação de teoria equivocada com vieses não reconhecidos é uma política monetária que briga com a realidade social, mesmo enquanto finge obedecer aos dados e “não se emocionar”. De um lado, reforça a renda dos detentores de títulos públicos e amplia o apetite de investidores estrangeiros pelo carry trade cambial. De outro, encarece o crédito, desestimula o investimento produtivo e prolonga uma desigualdade já obscena. Em nome de uma suposta neutralidade científica, o BC produz um viés político muito concreto: protege o patrimônio de poucos à custa de oportunidades de muitos.
Se levasse a sério as contribuições que Richard Thaler trouxe para a ciência econômica, Gabriel Galípolo daria alguns passos simples para marcar sua passagem à frente do Banco Central. Reconheceria publicamente que expectativas são apenas um insumo, e dos mais imperfeitos. Passaria a monitorar, com o mesmo zelo, comportamentos reais – acordos salariais, indexação de contratos, decisões de consumo das famílias – em vez de fetichizar uma pesquisa semanal. Incorporaria na sua própria rotina instrumentos para combater vieses internos: um “advogado do diabo” externo em cada reunião do Copom para desafiar o conforto da unanimidade de seus membros, revisão sistemática de erros de projeção, transparência sobre a incerteza dos modelos.
Mais importante: abandonaria a retórica de que “não pode brigar com os dados” ou de que “não deve se emocionar” e admitiria que a política monetária é um campo de escolhas. Escolher entre inflação e desemprego, entre estabilidade de preços e dinamismo produtivo, entre o conforto dos rentistas e a chance de reduzir desigualdades – tudo isso é política, ainda que feita em linguagem técnica. Fingir que são apenas “os dados” que mandam é, no fundo, um artifício retórico para esconder a responsabilidade de quem decide.
Marco Antônio S. C. Castello Branco – Doutor em Metalurgia pela TU Clausthal, Alemanha, Ex-presidente da Vallourec & Mannesmann do Brasil, da Usiminas e da Cia. de Desenvolvimento de Minas Gerais; membro do Conselho de Administração da Eletronuclear.
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JOSE OLIVEIRA DE ARAUJO
27 de novembro de 2025 8:30 amUm país que pratica, de forma constante, taxa de juros reais acima de 3% ao ano, não está fazendo política monetára, na realidade está promovendo um programa de distribuição de renda para os detentores de capital improdutivo. Tal acontece no Brasil, em virtude do BACEN, embora nominalmente autônomo, está sob tutela do mercado finaceiro. Portanto, não se trata de erros técnicos e sim de operação para beneficiar o capital parasitário.
Milton
27 de novembro de 2025 8:42 amTexto devastador para a atuação do mágico circense aboletado na presidência do BC desde que fugiu da administração pública. A realidade brutal é sempre surrupiada do povaréu sob o mantra da gastança mas não informam ao distinto público que a maior rubrica no orçamento federal é da distribuição de recursos públicos via BC a seus “sócios”. Racionalmente não há argumentos para defender a SELIC ao nível atual. Como foi dito no artigo o aumento de consumo/oferta via indústria e comércio – dada a disparidade social com o achatamento da pirâmide – não pode ser suportado pelo investimento pelos juros bancários acima do 15 %. Só os “volcaros” da vida e o seleto número de brasileiros e estrangeiros conseguem pilhar a renda construída por trabalhadores em todos o níveis da atividade econômica brasileira. Enquanto empresários lutam para a manutenção de suas empresas com taxas bancárias obscenas uns poucos ganham sem risco e de mão beijada via SELIC. Na administração pública há várias outras possibilidades de contornar a inflação pela previsão/acompanhamento do gasto público. Mas aí há um “problema”: a gritaria do 0,5% e sua cachorrada. A “voz do dono” ainda vige.