Resistência democrática e revolucionária, por Francisco Celso Calmon

A ditadura militar escolheu Marighella como seu inimigo público número UM, o golpismo elegeu o Lula o adversário número UM.  Marighella foi assassinado, Lula encarcerado.

Resistência democrática e revolucionária

por Francisco Celso Calmon

Na semana passado o universo conspirou a favor das forças democráticas e revolucionárias do país. No dia 04 de novembro, a lembrança e tributo a Marighela, o maior revolucionário que o Brasil já teve, covardemente assassinado pela ditadura militar.  

Em seguida, no dia 08, Lula é libertado da cadeia, em decorrência da decisão do STF, por 6 votos a 5, de respeitar e obedecer a presunção de inocência, cláusula pétrea da Constituição Federal. Livre de uma prisão, injusta, arbitrária e ilegal, após 580 dias, o melhor presidente que o país já teve, um democrata com lado, retorna para o lado do povo oprimido e explorado pelo sistema.

O Lula que entrou na prisão é um, o que saiu é outro, com a certeza de quem já foi prisioneiro político da ditadura militar: ninguém sai o mesmo após uma prisão por razões políticas. Lula transformou a sua solitária num ambiente de estudo, de exercícios físicos e de muita reflexão. Suas declarações em entrevistas e seu discurso no retorno a São Bernardo, indicam que o novo Lula, sem rancor e com amor no coração, com afirmou, será um político democraticamente revolucionário.

A ditadura militar escolheu Marighella como seu inimigo público número UM, o golpismo elegeu o Lula o adversário número UM.  Marighella foi assassinado, Lula encarcerado, agora livre, muitos temem por sua segurança. Sua segurança é o povo mobilizado e organizado.  

A árvore da revolução social é bem frondosa. Tem vários galhos, uns mais fortes, outros menos. Algumas ventanias derrubam alguns desses menos fortes. Mas a árvore, se bem plantada e adubada, sobrevive às tempestades. Cada galho, cada ramo, cumpre um papel.  De alguns brotam frutos, de outros nem sempre. 

A revolução social, através do seu projeto de nação, galvaniza e acolhe a maioria da sociedade, daí a importância do debate político-ideológico, pelo qual se procura obter a hegemonia.

Há espaços e papéis distintos, inevitáveis e necessários, na pluralidade dos arcos de alianças. 

O desafio é superar o pêndulo histórico da Esquerda, ora esquerdista, ora pelega. Há de construirmos o caminho dialético da luta de classes.  Desse papel não devemos abrir mão.

Retorno a Marighella: qual o dever do revolucionário? É pregar a revolução. É fazer a revolução.

Revolução anti-imperialista, sobretudo na conjuntura do nosso Cone Sul; anticapitalista, sistema responsável pela abissal desigualdade de renda no Brasil e alhures; antidemocracia burguesa, cujo Estado é dominado pelos representantes da classe dominante, na quadra atual por militares, milicianos e togas fascistas. 

A revolução social objetiva transformar as estruturas do sistema, que explora, oprime e exclui o povo da riqueza que produz, para edificar um sistema, cujo primado é o da igualdade de oportunidades, cuja argamassa é a solidariedade, cujo objetivo é o bem-estar de todas e todos os brasileiros.

De que forma? Pelos meios democráticos, enquanto a Constituição viger e garantir a democracia.

Nesse caminhar, o Lula é, no presente, capaz de galvanizar e formar uma rede, ampla, geral e restrita aos democratas, para enfrentar o Estado policial.     Nesse caminho, constata-se que os partidos ditos democratas, PSB, PDT, Rede, parcelas do MDB, não o recepcionaram como deveriam, afinal, nem o moralismo fundamentalista se sustenta mais diante das revelações do Intercept; então, no mínimo, pelo humano, no ideal, pelo lado político, por compreender que Lula livre altera, como já está em curso, a correlação de forças.   

Se comportaram no estilo camaleão: com a cabeça diz que sim, com o rabo diz que não!

Destaco algumas passagens do discurso de Lula, que é uma abordagem e roteiro para a luta.

“… não têm ninguém, não tem ninguém que conserte esse país se vocês não quiserem consertar. Não adianta ficar com medo, não adianta ficar com medo, não adianta ficar preocupado com as ameaças que eles fazem na televisão, que vai ter miliciano, que vai ter o AI-5 outra vez. A gente tem que ter a seguinte decisão: este país é de 210 milhões de habitantes e a gente não pode permitir que os milicianos acabem com esse país que nós construímos.”

É preciso não ter medo, é preciso ter a coragem de dizer. (Carlos Marighella)

Os comitês Lula livre não devem desmobilizar, e, sim, se constituírem numa rede de comitês de defesa da democracia.

Em cada local de moradia, de  trabalho e de estudo, organizar um comitê, que deve ter o objetivo de conscientizar cada colega ou vizinho dos males desse governo, com os dados da realidade, e mostrar também que a democracia sofre mais riscos de retrocesso, e que, quanto   a isso, devemos estar preparados para os comitês servirem também de brigadas de autodefesa, inclusive física, à eventuais agressões fascistas e a outros golpes, como o aventado novo AI5. 

“O que nós temos é que olhar e dizer alto e bom som: nós não vamos permitir que eles destruam o nosso do país. É isso que nós temos que dizer e a partir de alguns dias eu quero que vocês saibam que Freixo, que Boulos, que Haddad, que Gleisi, que o PCdoB, que o movimento sindical, que a CUT, que a Força Sindical, que a gente esteja na rua e sobretudo, sobretudo, a juventude.

E como o Papa Francisco, que disse para a juventude, no RJ, “sejam revolucionários”, Lula assertiva:” … a juventude ou briga agora, ou o futuro será pesadelo.”

Compreendendo que a luta é de fôlego e que a cada dia o governo bolsonarista faz mais maldades para o povo brasileiro e avança na consolidação do Estado policial, Lula conclama para a luta imediata e permanente, como deve ser operada a  luta de classes: “… nós vamos fazer muita luta e luta não é ir um dia, depois de passar três meses e voltar, não. Luta é todo dia, é todo dia, é todo dia”.

O imperialismo assumiu seu espectro fascista e está procurando criar o ambiente bipolar da guerra fria e ter a América latina como seu exclusivo quintal; só recua quando há possibilidade de resistência com o povo nas ruas e/ou com organizações armadas.

Lula também deixou seu recado:” …quem decide o problema do país é o povo do seu país e que o Trump, o Trump resolva o problema dos americanos e não encha o saco dos latino-americanos como ele está enchendo. Ele não foi eleito para ser xerife do mundo. Ele que governe os americanos, ele que cuide da pobreza lá. […]. Nós não podemos aceitar isso, nós não devemos aceitar isso.”

Liberdade precária. O voto do presidente do STF, Dias Toffoli, decidiu pela liberdade de todos que não tenham as suas condenações definitivas, contudo, foi covarde e oportunista, quando tirou o seu da reta e indicou o caminho do parlamento para alterar a Constituição. Se não estivesse sitiado, não teria feito uma indicação gravemente errada, pois sendo cláusula pétrea só uma Constituinte tem poderes para modificar.

Lula só será inocentado quando a democracia se recompor. Defender a democracia é o único caminho garantido para a inocência do Lula ser judicialmente reconhecida.

Leia também:  Lewandowski reafirma direito de Lula aos documentos retidos pela Lava Jato

Francisco Celso Calmon é Advogado, Administrador, Coordenador do Fórum Memória, Verdade e Justiça do ES; autor do livro Combates pela Democracia (2012) e autor de artigos nos livros A Resistência ao Golpe de 2016 (2016) e Comentários a uma Sentença Anunciada: O Processo Lula (2017)

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1 comentário

  1. Há uma.movimentação para encarcerar Lula novamente……se isso ocorrer Lula não deveria se entregar, já conseguiu confirmar a perseguição política da qual é vítima…. deveria se abrigar e de lá organizar a oposição….

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