Sobre Olhos Que Condenam ou sobre quando nos olham, por Cristiane Alves

A branquetude adota meia dúzia de mascotes negros. Permite que respirem seu ar perfumado e que desfrutem de sua áurea condição fraterna. Mostra que somos bem vindos quando dóceis e úteis.

Sobre Olhos Que Condenam ou sobre quando nos olham

por Cristiane Alves

Há um tempo ensaiei uma conversa sobre o olhar racista aqui mesmo, com o Bento Bravo (https://jornalggn.com.br/…/a-importancia-da-alteridade-nas…/), com a Marcia Noczynski (1- https://jornalggn.com.br/…/quando-o-racismo-nega-o-pertenc…/

2- https://jornalggn.com.br/…/o-amor-e-branco-por-cristiane-a…/) e com o Mario Rui Feliciani (https://jornalggn.com.br/…/cartas-na-mesa-por-mario-rui-fe…/). Falamos sobre ouvir e, mais que isso, dar espaço para a fala. Mas falamos também sobre o olhar que condena.
É algo que nos incomoda porque sabemos que está errado. Tanto quem olha, quanto quem é observado sabe.

Quando somos alvo da observação condenadora fazemos o possível (o impossível também) para desfazer a impressão. Evitamos colocar as mãos nos bolsos, não entramos com bolsas, não ficamos muito próximos às gôndolas. Usamos a melhor roupa. Não nos permitimos pequenas infrações, dessas coisas que para alguns seriam apenas bobagens juvenis. E vivemos. Porque essa passa a ser nossa realidade.

Hoje ao conversar sobre os cinco rapazes do Central Park com meu irmão mais velho ouvi um complacente: “eles ficaram milionários”. E garanto que foi doloroso, tanto ou mais que ver aquela injustiça encenada por atores.

Pensei nos meus irmãos mais velhos e nas batidas policiais injustas e violentas. Nos tapas na cara que levaram sem responder ou merecer, apenas por serem jovens negros num mundo que insistem em dizer que não nos pertence.

É chocante pensar em todo estresse, todo assédio, toda injúria sofrida pelos cinco rapazes negros condenados pelo sistema lá. Chocante pensar quantos aqui passam pelo mesmo e nunca serão livrados da culpa por serem e existirem como são: homens e mulheres negros.

Triste pensar que para muitos uma indenização milionária compensou a vida não vivida e toda desgraça presenciada, embora por aqui indenização sequer seja mencionada.
Meu irmão falava dos rapazes retratados na série, mas falava também dos homens presos aqui, cujas histórias nunca saberemos. Falava também de si.

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Meus irmãos nunca foram presos. Nunca sequer foram processados. Mas também não foram exatamente jovens.
Essa obrigação de viver restrito era uma imposição para nós, caso de vida ou morte. Convivemos com a violência doméstica, as muitas horas em casa, o itinerário entre a escola e nosso lugar de residência. Sem as brincadeiras, os vícios, os romances, os perigos supervisionados. Logo, nos tornamos adultos estranhos e quando ouvimos os relatos da juventude dos amigos brancos pensamos que nunca fomos tão jovens. Mas vivemos.

Penso em como olhei muitos de meus alunos negros, como eu. Nessa desconfiança que nos ensinam e que muitos acreditam que temos que não aprender quando somos negros. Somos vítimas do olhar; somos ensinados a olhar com desconfiança por todos os veículos formadores de opinião; somos culpados quando aprendemos o que todos aprendem. E por fim quando dizemos que estamos sobrecarregados e sufocados nos acusam de vitimistas.

A branquetude adota meia dúzia de mascotes negros. Permite que respirem seu ar perfumado e que desfrutem de sua áurea condição fraterna. Mostra que somos bem vindos quando dóceis e úteis. E que só depende de nossa vontade evoluir à quase beleza, quase humanidade, quase inteligência, quase civilidade.

Parece que todo sofrimento que carregamos e que aceitamos como parte da vida quando expresso de nossas bocas será sempre desnecessário, como li aqui há poucos dias.

A nossa morte não importa porque PESSOAS estão morrendo de Covid-19. As nossas vidas não importam já que o país está sendo destroçado pelo neoliberalismo e por um presidente psicopata.

Mas daqui de onde olhamos nada mudou. O distanciamento social só incomoda a quem não cresceu encarcerado para sobreviver. O desabastecimento assusta mais aos que nunca sentiram fome para além dos regimes restritivos pró moda praia.

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Eu sei que para algumas pessoas esse desabafo é somente uma “discussão de merda”, mas para mim é a minha vida e condição de saúde mental. É o futuro do meus filhos que não se resume a uma profissão técnica ou carreira acadêmica.

A verdade é que enquanto muitos se preocupam com juntar dinheiro para os estudos de seus filhos, outros tantos ensinam aos seus, todos os dias, o que precisam fazer para retornarem vivos.

Sei que, diferente das crianças e jovens brancos, minhas crianças nunca usufruirão dos espaços e das oportunidades com paridade. E que, provavelmente, quando envelhecerem e se alegrarem por estarem vivos, ainda assim não saberão o que é ser só uma pessoa, como eu nunca saberei.

Assisti a série na Netflix e achei com cara de Netflix, cheia de informações tendenciosas e apelativas ao emocional. Mas creio que seja, até aqui, a melhor série que eu tenha visto em vários aspectos.

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