Taxação dos EUA: cautela na análise, firmeza na estratégia
por Heldo Siqueira
A proposta tarifária americana exige leitura cuidadosa dos números e uma resposta brasileira que vá além do diálogo automático.
A recente projeção da Confederação Nacional da Indústria (CNI) sobre o impacto das novas tarifas propostas pelos Estados Unidos gerou manchetes alarmistas. Segundo a entidade, 35,2% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano estariam sujeitas a sobretaxas de até 37,5%. O dado, embora relevante, precisa ser lido com cautela.
O que a CNI chama de “exposição” não é o mesmo que “impacto efetivo”. Parte relevante da pauta exportadora brasileira está concentrada em produtos que ficaram de fora da medida — petróleo, aeronaves, café, carnes e outros itens estratégicos. Além disso, a experiência recente mostra que, em episódios anteriores de imposição de tarifas, o Brasil conseguiu redirecionar parte de suas exportações para outros mercados, amortecendo os efeitos sobre a balança comercial e a atividade econômica.
Isso não significa minimizar o problema. Significa, sim, diagnosticá-lo com precisão. Os impactos mais intensos tendem a ser concentrados em setores industriais específicos — máquinas e equipamentos, produtos de plástico, calçados, madeira, papel-cartão e ferro fundido — que dependem do mercado americano e enfrentam maior dificuldade de redirecionamento imediato. Para esses segmentos, os efeitos sobre margens, contratos, emprego e investimentos podem ser significativos. Para o conjunto da economia, porém, o choque tende a ser localizado, não sistêmico.
A perda de centralidade dos EUA
É importante lembrar que a relação comercial entre Brasil e Estados Unidos já não é o que foi um dia. Em 2002, os EUA absorviam 25,5% das exportações brasileiras. Em 2026, essa participação está abaixo de 10%. Essa trajetória revela uma mudança estrutural na inserção comercial do país, marcada pela ascensão da China e de outros mercados asiáticos como principais destinos das commodities brasileiras.
Os Estados Unidos seguem relevantes pela composição da pauta — mais diversificada e com maior presença de bens industriais —, mas sua centralidade relativa diminuiu de forma irreversível. A nova medida tarifária, portanto, incide sobre uma relação comercial hoje menos determinante para o desempenho macroeconômico brasileiro.
O problema maior: um parceiro imprevisível
O que mais preocupa, neste cenário, não é o impacto imediato das tarifas, mas a reiterada falta de previsibilidade do governo americano. Estamos negociando com os Estados Unidos, pela terceira vez em menos de dois anos, a imposição de sobretaxas que ora são anunciadas, ora são recuadas, ora são reconfiguradas.
Atrelar a estratégia comercial brasileira a um parceiro que muda de posição a cada ciclo político é um suicídio comercial. Não se constrói uma política de desenvolvimento industrial consistente com base em ameaças tarifárias que dependem do humor do ocupante da Casa Branca. Cada novo episódio gera incertezas que travam investimentos, desorganizam cadeias produtivas e impõem custos que as empresas precisam absorver sem qualquer garantia de estabilidade.
O que fazer, então?
Caso as tarifas sejam confirmadas, a primeira estratégia do Brasil deve ser evitar uma resposta precipitada ou uma concessão automática. O governo Trump tem utilizado tarifas como instrumento de negociação — e já recuou diversas vezes. Isso não significa abandonar o diálogo, mas negociar de forma coordenada, preservando os interesses dos setores afetados e utilizando os canais diplomáticos, comerciais e multilaterais disponíveis.
Paralelamente, o Brasil deve aprofundar sua estratégia de diversificação de parceiros comerciais, com atenção especial aos setores industriais mais expostos, para os quais a substituição de destino é mais difícil do que no caso das commodities. Acordos como o Mercosul-União Europeia precisam ser acelerados. Instrumentos de promoção exportadora devem ser fortalecidos. E, sobretudo, é preciso criar medidas transitórias para preservar produção, emprego e contratos nos segmentos mais vulneráveis.
A disputa também é monetária
Por fim, é essencial compreender que essa disputa não envolve apenas comércio exterior. A proposta tarifária americana faz parte de uma estratégia mais ampla de reorganização da posição dos EUA no comércio internacional — e expõe uma contradição estrutural: o país quer manter o dólar como moeda de referência global, mas busca reduzir os déficits comerciais que são, justamente, o mecanismo pelo qual o dólar chega ao resto do mundo.
Se os EUA impõem tarifas para conter importações, reduzem a oferta de dólares no sistema internacional. E isso tende a estimular outros países a buscar alternativas monetárias — acordos em moedas locais, sistemas próprios de pagamento, novos arranjos financeiros. O uso recorrente do dólar como instrumento de sanção acelera esse processo.
Para o Brasil, a questão central é proteger seus interesses comerciais imediatos sem ignorar que a disputa atual também envolve moeda, meios de pagamento e soberania econômica. A imposição de mecanismos de transação controlados pelos EUA expõe empresas e cidadãos brasileiros a riscos que sistemas domésticos, como o Pix, não implicam da mesma forma.
Conclusão
A nova proposta tarifária dos EUA merece atenção, mas não pânico. Seu impacto agregado tende a ser limitado pela menor centralidade relativa do mercado americano e pela exclusão de itens relevantes da pauta exportadora. O problema mais grave é a imprevisibilidade de um parceiro que já nos submeteu a três rodadas de negociação tarifária em dois anos.
O Brasil precisa de uma estratégia comercial que reconheça essa realidade: diálogo firme, diversificação agressiva de mercados e redução gradual da dependência do dólar. A alternativa — continuar refém de decisões unilaterais americanas — é um caminho que não leva a lugar nenhum.
Heldo Siqueira é mestre em economia pela UFES
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