Um instante de música em nossas vidas, por Urariano Mota

Um instante de música em nossas vidas, por Urariano Mota

Nesse 22 de novembro, foi comemorado com justa razão o Dia do Músico. Construo a partir desse motivo esta coluna.

Todos devemos muito aos músicos, aos compositores, que deveriam ser chamados de   cultivadores de arte e humanidade. E devedor que sou procuro em arquivos, em pesquisa na web, o que já escrevi sobre alguns desses gênios fundamentais. Quantas vezes já escrevi sobre esses artistas que nos comovem e nos ajudam a suportar estes dias de fascismo no Brasil? Penso em Dorival Caymmi, penso em Chico Buarque, penso em Gilberto Gil, penso em Caetano Veloso, penso em Paulinho da Viola, penso em Noel Rosa, penso em Canhoto da Paraíba, e de tanto pensar bem sei que procuro um penso, ou seja, um curativo, ou pelo menos um analgésico. Quem sabe se não seria bom divulgar algumas páginas sobre Ella Fitzgerald, a musa amada que machuca o coração no romance “A mais longa duração da juventude”?. Mas reflito que será melhor guardá-la para outra oportunidade, para um.dia em que sejam possíveis a ternura e suavidade da gente. 

Então me vem, como se fosse do nada, o pensamento: “fazer o bem é tão bom, que deveria ser remédio pra todo o mal do mundo”. Compreendo de onde veio essa frase, que é só sentimento do vivido nestes dias, em que fomos um pouquinho útil para quem de nossa inutilidade precisava. Mas a mão direita não deve saber o bem que faz a esquerda, diz um velho ditado. Melhor será pedir ajuda, neste 23 de novembro, aos trehos sobre o que os músicos fizeram a um personagem do romance “A mais longa duração da juventude”. Peço licença para mostrar o que eles foram para o Gordo e para todos no Recife da ditadura.  Apareça, Gordo, você que anda pelas páginas a seu modo, graça e peso. Apareça, venha com o seu espírito:       

“- Ela é assim – o Gordo responde. – Ela é uma mulher que vê as pessoas. Ela fala de vez em quando que eu não era pra ter nascido em minha família. ‘Por quê?’, minha mãe se ofende. E dona Bangue: ‘Ele gosta de ler, de estudar, de ouvir música de sexta-feira santa’. É assim que ela se refere a composições de Bach, de Chopin. E dá o diagnóstico no fim: ‘Esse menino nasceu com alma de rico’. Aí minha mãe concorda. Com isso, dona Bangue quer dizer que os pobres não estudam, não viram gente de ciência. Ela está errada?

Agora sei, olhando à distância, que o Gordo, como muitos dos pobres que viemos dos subúrbios no meio do século XX, éramos e somos como abortos, ou seres teratológicos nascidos em meios tão miseráveis. Somos produtos de alguma deformação ou de mal raro que acomete os pobres a cada três gerações. Onde a natureza errou? Onde acertou por rota desviante das possibilidades genéticas? Mas o fenômeno, claro, não é biológico, é da história. Dialético, diria Luiz do Carmo. Ainda não sabemos na noite da Portuguesa. Sentimos uma comunhão de jovens pobres nesse diagnóstico de ‘alma de rico’, da fala da avó do Gordo. Mas é uma comunhão estranha e incômoda. Nós não queremos ter alma burguesa, não desejamos ter a visão de mundo da burguesia, apenas achamos, de direito, legítimo, tomar e desapropriar o que eles acumularam em séculos de exploração, desde as costas dos nossos ancestrais. Mas dona Bangue era certeira na sua crítica material, não fosse a substância fina contida no substantivo ‘alma’. Ela queria dizer, imaginamos, que tínhamos vindo de pessoas ricas reencarnadas. Daí os nossos gostos de outra classe. Mas se por isso queria significar civilização, o que diremos das suas tiradas certeiras, argutas? ‘Luzes dos mestres’, dona Bangue responderia, penso. Na hora, o Gordo fala com mais propriedade sobre essa luz:

– Dona Bangue não estranha a minha paixão pelo frevo. Esse é um gosto que veio dela e do velho Sucupira. Mas ela acha que uma coisa é o frevo e outra é Bach ou Vivaldi. Pra mim não é. É por gostar de Chopin que adoro frevo. É por querer o frevo que tenho fome de conhecer a música clássica. O gosto veio dela e eu desenvolvi em gostos que ela não entende. Mas me deixem falar uma coisa. Eu já vi, eu já vi com estes olhos que a terra há de comer, eu já vi dona Bangue chorando ao ouvir uma sonata de Beethoven. Eu perguntei a ela: ‘A senhora gostou?’. E ela, toda chateada: ‘Gostei não! Isso me dá é um aperto na garganta. Só os espíritos de luz podem explicar’. E eu insisti: ‘Mas por que a senhora sente esse aperto?’. Ela me respondeu: ‘É da outra vida que eu tive, menino. Do tempo em que eu não era escrava. É a saudade do tempo em que eu era gente’. Isso porque ela estava chorando com Beethoven. Dona Bangue é assim.

Na mesa da Portuguesa, estamos encantados. Eu, Luiz do Carmo, Zé Batráquio, todos. O Gordo nos encanta. Não tanto pelo indivíduo físico que ele é. Mas pela história que ele encarna, em linha direta da ascendência popular que sobrevive nele. Um popular sem popularesco, um popular que não é a negação da inteligência, da sensibilidade. Pelo contrário, um amor pelo povo que é uma visão distante da presunção da burguesia, que se julga a escolhida dos deuses. Mas os populares que se encontram no Olimpo ainda não foram cantados. Se me expresso mal, muito mal, o Gordo é um Homero não realizado. É um poeta sem poema, um autor de versos livres. Escrevo dele agora, dele, não, sobre, e tenho em minha mente a sua pessoa na hora do crepúsculo da alma. Quando todos no bar forem embora, naquele instante em que os últimos ônibus saírem do centro do Recife, o Gordo será visto deitado na calçada, lá no quem-me-quer em frente ao cinema São Luiz. Um conhecido o aborda, pede para que ele saia dali, pois é perigoso, ‘você pode ser roubado’. Ao que o Gordo responde, espirituoso até na hora da queda e amargura:

– Jesus protege os bêbados e as criancinhas.

Isso tem o gosto de fel, hoje vejo. Naqueles dias, quando não tínhamos os cabelos brancos, nem a ciência experimentada do futuro, achávamos de grande humor essa frase de um poeta à margem do Capibaribe. Mas nós estamos no gozo da aurora que virá, na Portuguesa às onze da noite de uma sexta-feira, e o Gordo nos ensina os frevos imortais, de compositores que até hoje ninguém escuta ou fala. Jones Johnson, Toscano Filho, Zumba, Sérgio Lisboa, Nino Galvão. A sua fonte são as memórias de dona Bangue, do velho Sucupira, da infância que ele guarda nos discos vinis da Rozenblit. Tesouros. E fala num saber que desconcerta, mas não humilha, porque o pagamento será a sua lição. Como agora, num certo domingo em sua casa.

– Você já ouviu Jones Johnson?

– É algum americano, Gordo?

– É não. É um grande compositor de frevo do Recife. Você já ouviu ‘A mamata é boa’? ‘Você sabe’?

– Sei não, Gordo.

– ‘Você sabe’ é um nome de frevo, Júlio. – E o Gordo gargalha até as lágrimas.

– Hum… – falo, gutural, num tom de ‘eu, pecador confesso, que nada sei, mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa’.

– Não sabe, mas já deve ter ouvido. Escute aqui.

E na sala vem a revelação de um frevo quente, complexo, popular e erudito ao mesmo tempo. Com o calor do Recife maior que o quadro Frevo, de Lula Cardoso Ayres.

– E este? – o Gordo é incansável na lição. – Você já deve ter ouvido ‘vou formar a turma pra tomar banho na beira do mar… um banho de maré tomei’.

– Sim, claro. Quem não ouviu? – falo, como se falasse ‘pensa que somos zeros absolutos?’. Ao que ele volta:

– Isso é Banho de Conde, sabia? – é um ‘sabia’ que ele nos pergunta retórico, porque nunca sabemos. – Sabia? Pois, em Olinda a turma do Elefante canta esse frevo com ‘um banho em Pitombeira eu dei’, e a turma do Pitombeira canta ‘um banho em Elefante eu dei’. Sabia?

Então nós, que somos intelectuais, puxamos a conversa para o que sabemos, ou pensamos saber na Portuguesa :

– Gordo, quem é maior compositor de frevo, Capiba ou Nelson Ferreira?

Essa é uma discussão que rende mais cervejas que outra metafísica: ‘quem é maior, Dostoiévski ou Tolstói?’. Capiba e Nelson Ferreira conhecemos melhor que os clássicos russos, porque escutamos frevo desde a longínqua infância Então o Gordo, árbitro superior, fala:

– Os dois são grandes. Mas eu gosto mais de Capiba.

Isso, para muitos de nós, é um escândalo. O Gordo, o popular, ousa gostar mais de Capiba, um pequeno-burguês, um alto funcionário – enfatizamos o ‘alto’ – do Banco do Brasil, em lugar de Nelson Ferreira, um gênio mulato. Absurdo. Nelson Ferreira é maior, eu falo, sob o calor da cerveja e convicção:

– Olhe, Nelson Ferreira é completo. Ele é o Pelé do frevo. Ele toca, arranja, compõe tudo, do frevo de rua ao frevo de bloco e frevo-canção. Até propaganda do sabão bem-te-vi ele fez. O que pode ser maior que a Evocação número 1?

E o Gordo calado, a sorrir. Parece que os golpes não ferem o Olimpo da cultura popular. Voltamos:

– E não é só a Evocação número 1. Todas as evocações de Nelson Ferreira formam uma obra. Elas sozinhas justificam uma vida, entende?

O Gordo sorri e responde:

– As Evocações são lindas. A gente não pode viver sem elas. Mas olhem Capiba, olhem o que ele compôs de frevo-canção. É para a imortalidade. Quantas vezes no carnaval, quando bate na gente uma fossa, uma lembrança triste, quantas vezes a gente não escuta Capiba falando o que a gente não consegue falar? ‘Eu bem sabia que esse amor um dia também tinha seu fim ….’.  E ‘Você diz que gosta de mim, mas só pode ser brincadeira de berlinda, por que você mente tanto assim?…’. Hem? E Modelo de Verão? ‘Até as viuvinhas do artista James Dean vieram incorporadas e hoje as coisas estão pra mim’. E olhe que Capiba fora do carnaval é muito bom ou melhor. Quer melhor que Maria Betânia? ‘Saudade do beijo que nunca te dei’. E Cais do Porto?  ‘Aquela luzinha que lá longe apaga e acende fazendo um sinal, quem sabe, pra mim…’. Isso dá uma revolução no peito. É aquele aperto de garganta de dona Bangue. Olhe, eu nem posso falar muito.

O Gordo, emocionado, vira a cabeça. E pede socorro ao garçom:

– Me dê uma vodca. Dupla. – E volta para nós, com os olhos rasos d’água. – Capiba é maior.

É claro, o que em nós é infância, quando valorizamos Nelson Ferreira, pelo mundo perdido que não mais podemos ressuscitar, no Gordo é mais outro sentimento, o clássico que veio e lhe fala da falta de amor, da ausência de carinho, nestas noites de bebedeira. Então Capiba é maior por razões estritamente sentimentais, assim como as nossas, mas em outro ponto. Seria como uma mágoa de quem sofreu o desprezo, que não se apresenta de cara nua e limpa, hoje o sabemos. A Portuguesa não tem radiola de ficha, ‘se tivesse, virava cabaré’, fala o dono, mas as vozes bêbadas aqui e ali se levantam. Nas mesas vizinhas entoam Nelson Gonçalves, ‘os cafonas’, eu falo ali, mas o Gordo comenta ‘olhe, nem sempre é cafona, ele também canta coisa boa’, ao que eu respondo ‘mas essa A Volta do Boêmio, Gordo, é dose’.

E o Gordo chama o garçom:

-Mais cerveja”..       

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=9649&id_coluna=93

 

 

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