Peça 1 – o acordo Brasil-EUA pela Amazonia

Desde que assumiu a presidência, Jair Bolsonaro vinha articulando com Donald Trump a ocupação da Amazônia. Anunciou liberação de mineração, de exploração comercial, de ataques às reservas indígenas. Mas ainda sem explicitar totalmente a estratégia.

Mas na última rodada, o encontro de Miami, rasgou-se a fantasia.

Falou-se em ações na fronteira e no Acordo de Desenvolvimento Militar Brasil-EUA, ou Acordo de Pesquisa, Desenvolvimento, Teste e Avaliação (RDT&E, sigla em inglês)

Segundo nota do Ministério da Defesa:

“O RDT&E é um passo inicial para que Brasil e EUA desenvolvam projetos conjuntos na área de Defesa. […] Cada acordo de projeto que venha a ser desenvolvido pelas partes deverá ser executado em consonância com os termos do RDT&E, assim como os respectivos leis e regulamentos nacionais de cada parte”.

A intenção ficou explícita no discurso do Ministro Fernando Azevedo e Silva:

“Temos os Estados Unidos como um parceiro importante. Estivemos juntos pela democracia e liberdade na Segunda Grande Guerra e hoje estamos discutindo aspectos do ambiente regional. […] Hoje mais um acordo inédito que assinamos com os Estados Unidos, e que poucos países têm, para o desenvolvimento na área de defesa, pesquisa, tecnologia, testes, avaliação e desenvolvimento nos aspectos que concernem a defesa”.

O alinhamento automático das Forças Armadas com os EUA, aliás, é um dos maiores sinais de perda de visão sobre projetos nacionais. Em todos os demais períodos da história, com Vargas, com a Operação Panamericana de JK, com a diplomacia de Geisel, havia uma postura independente, procurando tirar vantagens da competição entre as potências.

Agora, é alinhamento incondicional

Peça 2 – Os interesses da China

Até a reunião de Miami, Bolsonaro tinha um comportamento dúbio em relação à China. Primeiro, acusou-a de estar “querendo comprar o Brasil”. Depois, foi até à China acertar investimentos chineses no Brasil.

Aparentemente, o encontro de Miami definiu sua posição. De um lado, encontrou-se com políticos lobistas da indústria de cassinos, enquanto seu filho Flávio negociava diretamente com a chamada máfia dos cassinos de Los Angeles, conforme você pode conferir aqui e aqui.

Além disso, a chamada invasão chinesa da Amazônia  há tempo vinha preocupando os próprios militares.

Conforme relato do jornalista Lúcio Flávio Pinto, especializado em Amazonia:

Nenhuma presença estrangeira na Amazônia foi tão forte e ampla quanto a chinesa atualmente. Essa presença se acentuará ainda mais nos próximos anos, em função do enorme estoque de capital do país, usado para montar uma extensa rede de infraestrutura destinada a escoar para o litoral e, a partir dele, além-mar, as commodities vitais para a China, como minério de ferro e soja.

As linhas de transmissão a partir de grandes hidrelétricas amazônicas (Tucuruí, Belo Monte, Jirau e Santo Antônio) já estão sob o controle de empresas chinesas, que começam a avançar sobre as próprias usinas, fechando o pacote de energia. Esta situação levou Bolsonaro a uma metáfora doméstica que reflete o grau de conhecimento que ele tem dessa questão: “Suponha que você tem um galinheiro no fundo da sua casa e viva dele. Quando privatiza, você não tem a garantia de comer um ovo cozido. Nós vamos deixar a energia nas mãos de terceiros?”.

O alerta cai em solo propício a teorias conspiratórias por um detalhe omitido ou negligenciado: as empresas, à frente das quais se encontra a State Grid, são estatais. A Hydro Alunorte, dona da maior fábrica de alumina do mundo (instalada no Pará), que teve repercussão internacional ao ser acusada no início deste ano de despejar resíduos tóxicos da produção, é controlada pelo governo norueguês. A diferença é que a Noruega é uma democracia política. A China é uma ditadura. Mais refratária, portanto, ao controle externo – dentro e fora das suas fronteiras”.

Peça 3 – o álibi Eduardo Bananinha

Como expliquei outras vezes, seguindo dicas do general Hamilton Mourão, estou evitando tratar o rapaz pelo sobrenome, porque inevitavelmente suas tolices criam problemas políticos e diplomáticos para o país.

Com seu twitter, Eduardo Bananinha deu um álibi para a embaixada chinesa. Que é um imbecil completo, não se discute. Mas a reação chinesa foi surpreendente para quem conhece a forma de agir dos chineses. Ex-diretor do Banco dos BRICS, no qual conviveu diretamente com a alta burocracia chinesa, Paulo Nogueira Baptista Junior deu o alerta: tem algo a mais nessa reação.

O endosso do chanceler Ernesto Araujo ampliou o afastamento, permitindo à embaixada da China uma nota que, na verdade, é a ante-sala para um rompimento diplomático.

Na nota, volta a exigir retratação de Eduardo Bananinha. Lembra o apoio que a embaixada está dando aos pleitos brasileiros por equipamentos médicos

“Como deputado federal e figura pública especial, as palavras do Eduardo Bolsonaro causaram influências nocivas, vistas como um insulto grave à dignidade nacional chinesa, e ferem não só o sentimento de 1.4 bilhão de chineses, como prejudicam a boa imagem do Brasil no coração do povo chinês. Geram também interferências desnecessárias na nossa cooperação substancial. Tal comportamento é totalmente errôneo e inaceitável, veementemente repudiado pelo lado chinês. O Embaixador Yang Wanming já comunicou ao chanceler Ernesto Araújo a nossa posição solene. Temos pleno conhecimento da política externa brasileira com a China e acreditamos que nas suas linhas não houve qualquer mudança.

Ao mesmo tempo, opomo-nos às difamações e insultos contra a China impostos por qualquer um e sob qualquer forma. A parte chinesa não aceitou a gestão feita pelo chanceler Ernesto Araújo à noite do dia 18. O deputado Eduardo Bolsonaro tem que pedir desculpa ao povo chinês pela sua provocação flagrante. O lado chinês defende sempre e de forma resoluta os seus princípios e jamais será ambíguo e tolerante com qualquer prática que afronte os seus interesses fundamentais. Esperamos que alguns indivíduos do lado brasileiro, na sua minoria, abandonem as suas ilusões e muito menos subestimem a nossa resolução e capacidade de salvaguardar os nossos próprios interesses.

(…)  Desde o surto do COVID-19, os nossos dois países têm mantido contatos estreitos e amistosos. O Presidente Bolsonaro manifestou a solidariedade para com o governo e povo chinês, razão pela qual o lado chinês agradece muito. Atualmente, de acordo com o pedido do Ministério de Saúde do Brasil, estamos ajudando o país a adquirir os materiais médicos mais urgentes da China.

(…) Temos a certeza de que o Itamaraty certamente vai levar em consideração o quadro geral das relações sino-brasileiras e envidar esforço junto conosco para salvaguardar o ambiente favorável do nosso relacionamento”.

Por sua vez, o FED (o banco central americano) anunciou ajuda a nove países e um fundo de até US$ 60 bilhões para o Brasil enfrentar qualquer crise cambial.

Peça 4 – o que está em jogo

Como se vê, o Brasil entrou no meio de um fogo cruzado de grande guerra geopolítica China x EUA.

Romper com a China é loucura. De um lado, por ter se tornado a única fornecedora de equipamentos de saúde em massa, que serão imprescindíveis para o Brasil enfrentar a coronavirus.

De outro, por sua importância na balança comercial brasileira e nos investimentos internos.

Nas mãos de um chanceler como José Maria da Silva Paranhos, José Carlos Macedo Soares, Oswaldo Aranha, João Neves  da Fontoura, Saraiva Guerreiro,

Azeredo da Silveira, Celso Amorim essa disputa renderia bons frutos para o Brasil.

Mas agora, nessa quadra inferna da história, a diplomacia está nas mãos de Ernesto Araujo, o idiota, comandado por Eduardo Bananinha. E com as Forças Armadas pensando exclusivamente nas parcerias tecnológicas com os EUA.

Cada ponto de gestão pública mostra o risco que o Brasil corre, com decisões dessa ordem sendo tomadas por uma equipe terraplanista inepta.

 

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