10 de junho de 2026

O mar de Aral ainda pode ser salvo?, por Felipe Costa

Com mais de 90% de sua recarga comprometida, o Aral começou a secar. Em 1987, os sinais de degradação já eram evidentes.

O mar de Aral ainda pode ser salvo?

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por Felipe A. P. L. Costa [*].

APRESENTAÇÃO. – Este artigo chama a atenção para o processo de degradação do mar de Aral. Situado na Ásia Central, entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, o mar de Aral – na verdade, um enorme lago interior – já foi o quarto maior lago do mundo, ocupando uma área de 67,5 mil km2 [1]. Na década de 1960, os dois tributários que alimentavam o lago foram desviados para fins agrícolas. Com mais de 90% de sua recarga comprometida, o Aral começou a secar. Em 1987, os sinais de degradação já eram evidentes. A degradação se impôs e, como sempre acontece nessas horas, a população civil pagou a conta. A indústria pesqueira entrou em declínio. Milhares de famílias que viviam às margens do lago perderam sua fonte de renda e comida. Tempestades de sal e areia se tornaram frequentes. O clima local mudou. Embora talvez ainda não seja o capítulo final, o abandono das áreas de cultivo de algodão – motivação inicial do projeto de irrigação – não deixa de ser um capítulo triste e irônico de toda essa história. Medidas mitigadoras e tentativas de restauração vêm sendo adotadas, sobretudo no Cazaquistão, mas o futuro do mar de Aral ainda é incerto.

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Diferentes tipos de empreendimento são responsáveis pela degradação de uma miríade de corpos d’água. Alguns exemplos: superexploração de fontes de água mineral, eutrofização de lagos e lagoas, criação de barragens ao longo de rios e canalização de córregos em zonas urbanas. Não que as ações corporativas visem propriamente a degradação ou a exaustão dos recursos. O que em geral ocorre é que a precaução e o senso crítico não participam do empreendimento. E essas ausências fazem falta, muita falta.

Alheio às fases preliminares do projeto, o público em geral só se dá conta do malfeito quando as ideias já saíram do papel. A adoção de tecnologias perniciosas, por exemplo, costuma ser vendida para a opinião pública como progresso ou como algo inevitável. E isso, claro, não é verdade.

O caso do mar de Aral ilustra o que pode acontecer quando a sanha das corporações e a má conduta dos burocratas ignoram as ponderações feitas pelo sr. Senso Crítico e pela sra. Cautela [2].

1. O MAR DE ARAL.

O mar de Aral – na verdade, um enorme lago interior – já foi um dos maiores lagos do mundo em área superficial, ficando atrás apenas do mar Cáspio e dos lagos Superior e Vitória. Situado na Ásia Central, entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, o Aral chegou a ocupar uma área de 67.500 km2 – comparável à soma dos territórios dos estados do Espírito Santo e de Sergipe.

O processo de degradação teve início na década de 1960, três décadas antes do fim da União Soviética (1922-1991). O lago até então era piscoso e navegável. Em 1960, contrariando a opinião de técnicos e cientistas, a burocracia soviética decidiu que as águas dos tributários que alimentavam o Aral (rios Amu Dária e Sir Dária) seriam mais bem aproveitadas se fossem desviadas para irrigar áreas de cultivo.

E assim foi feito…

Com mais de 90% de sua recarga comprometida, o Aral começou a secar. Os sinais vieram de todos os lados – e.g., o tamanho do espelho d’água, o volume armazenado e a salinidade da água. Em 1987, com uma reposição deficiente, o espelho d’água já havia encolhido ~40%; o nível da água estava 13 m mais baixo e o volume correspondia a apenas um terço do volume inicial. Eram perdas evidentes e expressivas.

2. COMO A BUROCRACIA CORROEU UM GIGANTE.

O que era até então um único lago se dividiu em dois. Em 1987, já se falava em Pequeno Aral, ao norte (Cazaquistão), e Grande Aral, ao sul (Uzbequistão). Em seguida, o Grande Aral começou a se dividir em dois – a porção do leste (maior) e a do oeste (menor). O processo de fragmentação prosseguiu, de sorte que o gigante da década de 1960 estava a se converter em uma coleção de lagoas cada vez menores, mais rasas e, o pior de tudo, desconectadas entre si. Por fim, em 2014, a porção leste secou completamente [3].

Se no início do empreendimento a degradação era apenas uma possibilidade, duas décadas depois os sinais estavam escancarados. E o processo parecia irreversível. No final da década de 1980, o fundo exposto do lago estava coberto de sal; o grau de salinidade das águas remanescentes havia triplicado. Muitos peixes desapareceram e com eles boa parte da fauna associada. A indústria pesqueira entrou em declínio. Milhares de famílias que viviam às margens do lago perderam sua fonte de renda e comida. Tempestades de sal e areia se tornaram frequentes. O clima local mudou para pior. A poeira suspensa no ar e a péssima qualidade da água (salobra e contaminada por venenos e fertilizantes) aumentou a incidência de doenças, sobretudo entre as crianças. Por fim, a própria lavoura de algodão – motivação inicial para desviar o curso dos rios – começou a sofrer. As mudanças climáticas ocorridas na região encurtaram a estação de crescimento, a tal ponto que o algodão deixou de prosperar em diversos trechos em torno do lago. O abandono das áreas de cultivo não deixa de ser um capítulo triste e irônico dessa história, embora talvez ainda não seja o derradeiro capítulo [4].

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS.

A bacia do mar de Aral é explorada por populações humanas há 3 mil anos (Micklin 2016), talvez mais. O processo de degradação referido neste artigo, porém, é fruto do que ocorreu nos últimos 50-60 anos. Uma das lições fundamentais a tirar de tudo isso talvez seja esta: um corpo de água doente não é capaz de manter populações sadias. Se os governantes e as elites econômicas ainda não aprenderam isso, eles ao menos deveriam aprender a escutar técnicos e estudiosos que lidam com o assunto.

No caso brasileiro, especificamente, eu faço um paralelo com a situação dramática em que se encontram – há décadas! – aquelas gentes que vivem sobre palafitas, como ocorre no Dique da Vila Gilda, em Santos (SP), a maior comunidade desse tipo em todo o país. Dos 16,4 milhões de brasileiros que hoje vivem em favelas (~8% da população do país) [5], muitos vivem em palafitas. O problema não se restringe a Santos, evidentemente. Construir sobre a lama ou sobre o esgoto é a única saída para muita gente desesperada. Sobretudo para quem vive em metrópoles que dispõem de algum corpo d’água de grandes dimensões. É o caso, por exemplo, do que se passa na Cidade de Deus (Manaus), na Vila da Barca (Belém) e em Brasília Teimosa (Recife).

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NOTAS.

[*] Versão anterior deste artigo (Do mar do Aral às águas mineiras: desastres anunciados) foi publicada no Jornal GGN, em 10/12/2017. A presente versão foi extraída e adaptada do livro O tamanho do mundo & outras conjecturas (no prelo). Sobre a campanha Pacotes Mistos Completos (por meio da qual é possível adquirir, sem despesas postais, pacotes com os quatro livros do autor), ver o artigo Ciência e poesia em quatro volumes. Para adquirir o pacote ou algum volume específico ou para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]. Para conhecer outros artigos ou obter amostras dos livros, ver aqui.

[1] Esta e outras informações sobre o Aral foram extraídas de Micklin (2016).

[2] Sobre o impacto de grandes obras, ver Müller-Plantenberg & Ab’Sáber (1994).

[3] Ver o artigo ‘Aral Sea’s Eastern basin is dry for first time in 600 years’, de Brian Clark Howard, publicado na revista National Geographic, em 1/10/2014.

[4] Medidas mitigadoras e tentativas de restauração vêm sendo adotadas, sobretudo no Cazaquistão, mas o futuro do mar de Aral ainda é incerto – ver Micklin (2016).

[5] Números divulgados pelo IBGE, em 8/11/2024.

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REFERÊNCIAS CITADAS.

+ Micklin, P. 2016. The future Aral Sea: hope and despair. Environmental Earth Sciences 75: 1-15.

+ Müller-Plantenberg, C & Ab’Sáber, AN, orgs. 1994. Previsão de impactos. SP, Edusp.

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