
China, Credora Verde na América Latina: Oportunidades e Dilemas
por Maria Luiza Falcão Silva
Por muitos anos, a imagem da China na América Latina esteve associada à construção de grandes projetos de infraestrutura, à importação de commodities e aos volumosos investimentos em setores estratégicos como energia e mineração. Essa percepção continua válida, mas já não é suficiente. De forma discreta, porém decisiva, a China começa a se projetar na região como uma credora verde — um ator financeiro disposto a mobilizar recursos para a transição energética, a proteção ambiental e a descarbonização.
Esse novo papel emerge justamente quando a América Latina se prepara para a COP 30, marcada para novembro de 2025 em Belém. Sediar a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas no coração da Amazônia carrega um simbolismo profundo.
A COP-30 representará, para o Brasil, o primeiro grande teste de uma diplomacia climática do Sul. Lula tenta articular uma coalizão entre países amazônicos, africanos e asiáticos para redefinir o acesso a financiamento verde e exigir que o Norte cumpra suas metas históricas. Trata-se de reposicionar o país não apenas como guardião da floresta, mas como formulador de uma nova economia verde global.
A floresta amazônica não é apenas a maior floresta tropical do planeta, mas também um regulador decisivo do clima global, um reservatório de biodiversidade e o lar de milhões de pessoas cujos meios de vida dependem de sua preservação. Ao trazer as negociações climáticas mundiais para as margens do Rio Amazonas, o Brasil destaca tanto a urgência de proteger esse ecossistema vital quanto o papel central do Sul Global na construção das soluções climáticas. A própria cidade Belém, há séculos uma porta entre a floresta e o Atlântico, transforma-se num palco onde a luta pelo desenvolvimento sustentável se encontra com a demanda por justiça climática global.
O momento não poderia ser mais significativo: os países latino-americanos precisam urgentemente de financiamento climático para cumprir os compromissos de redução de emissões e reconfigurar economias ainda dependentes do petróleo, do carvão e do desmatamento. O papel crescente da China na emissão de títulos verdes, no financiamento de energia solar e eólica e na exploração do hidrogênio verde a coloca no centro de uma agenda emergente, em que credores tradicionais como o Banco Mundial, o FMI e o BID têm agido com lentidão e relutância.
A Arquitetura das Finanças Verdes Chinesas
Desde meados da década de 2010, bancos chineses — notadamente o Banco de Desenvolvimento da China e o Banco de Exportação e Importação da China — introduziram cláusulas ambientais e ampliaram o financiamento para projetos rotulados como sustentáveis. Mais recentemente, empresas chinesas tornaram-se grandes protagonistas em energia renovável em toda a América Latina. A State Grid figura hoje entre os maiores operadores de transmissão elétrica do Brasil, enquanto a China Three Gorges administra ativos hidrelétricos, solares e eólicos no país. No Chile, títulos verdes foram emitidos com significativa participação asiática, inclusive chinesa, canalizando fundos para transporte limpo e geração renovável.
Em escala global, a China já consolidou sua posição como líder em finanças verdes. Em 2023, respondeu por mais de 20% do mercado mundial de títulos verdes, superando a Europa em ritmo de crescimento. A América Latina, com seu vasto potencial renovável e reservas de minerais críticos como lítio, cobre e níquel, tornou-se um campo de prova ideal para a ambição chinesa de se projetar como potência climática.
Brasil, Amazônia e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre
O Brasil é peça-chave nesse novo cenário. Além de ser o maior parceiro comercial da China na região, o país possui um potencial incomparável para atrair crédito climático. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, proposto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pode ressoar fortemente junto a bancos chineses e ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD, ou Banco dos BRICS).
O NDB, sob comando da ex-presidente do Brasil Dilma Rousseff, pode tornar-se o elo financeiro dessa transformação, canalizando recursos de países emergentes para políticas de mitigação e adaptação. Ao lado do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, o NDB simboliza a tentativa de construir uma arquitetura financeira multipolar, menos subordinada ao dólar e mais voltada ao bem comum planetário.
Ao conectar o excedente financeiro chinês à riqueza ecológica da Amazônia, o fundo poderia sustentar estratégias de preservação de longo prazo, historicamente dificultadas pela falta de financiamento.
Ao mesmo tempo, novas oportunidades surgem em setores de fronteira. Pesquisas sobre hidrogênio verde no Nordeste brasileiro, projetos de energia solar distribuída e a transição do transporte urbano em cidades como São Paulo e Bogotá já atraem joint ventures sino-latino-americanas. A narrativa da presença chinesa está mudando — já não se limita à compra de commodities e construção de rodovias, mas passa a abranger inovação e finanças orientadas para o clima.
A Geopolítica do Verde: China x Estados Unidos
Essa transformação se torna ainda mais marcante quando contrastada com os Estados Unidos. O retorno de Donald Trump à Casa Branca trouxe desregulamentação, renovado apoio ao carvão e ao petróleo e hostilidade aberta à transição energética. Em vez de liderar os esforços globais contra a crise climática, Washington recua para um nacionalismo fóssil.
A China, em contraste, posiciona-se como financiadora verde — não por altruísmo, mas como parte de uma estratégia geopolítica calculada. Na disputa pelo Sul Global, Pequim oferece crédito, tecnologia e parceria climática, enquanto Washington oferece tarifas, sanções e pressão. Na América Latina, o contraste é especialmente visível: projetos de energia renovável apoiados por capital chinês avançam, enquanto instituições ocidentais fracassam em apresentar propostas consistentes.
Riscos, Limites e a Necessidade de Protagonismo
Ainda assim, esse novo papel da China precisa ser examinado com senso crítico. Nem todo investimento rotulado como “verde” é social ou ambientalmente benigno; grandes hidrelétricas ou a mineração de lítio mal regulada podem gerar sérios impactos. Há também o risco do greenwashing, em que o rótulo faz mais do que a substância.
O desafio para os governos latino-americanos é estabelecer marcos claros para o financiamento climático, exigir salvaguardas sociais e ambientais e evitar a reprodução de padrões de dependência. A oportunidade está em negociar a partir de uma posição de força: a América Latina não está pedindo empréstimos, mas escolhendo entre parceiros com agendas concorrentes.
A emergência da China como credora verde na América Latina abre uma janela histórica de oportunidade. Permite canalizar recursos externos para a transição energética, a proteção da biodiversidade e a resiliência climática. Mas também é um convite à reflexão crítica: sem planejamento e regulação robustos, até o capital verde pode reforçar vulnerabilidades, em vez de resolvê-las.
O contraste com as ideias de Donald Trump 2.0 evidencia a encruzilhada diante da região. De um lado, o nacionalismo fóssil que nega a urgência climática; de outro, pontes financeiras em direção a um futuro mais verde — embora não isento de ambiguidades. Cabe à América Latina decidir se permanecerá um objeto passivo da competição externa ou se atuará como sujeito ativo de um projeto de desenvolvimento sustentável.
A escolha que se impõe à América Latina é, portanto, mais do que econômica — é civilizatória. Trata-se de romper com o extrativismo histórico e ingressar em uma era de regeneração e corresponsabilidade planetária, na qual o verde não é ornamento, mas fundamento de uma nova soberania.
Maria Luiza Falcão Silva é economista (UFBa), MSc pela Universidade de Wisconsin – Madison; PhD pela Universidade de Heriot-Watt, Escócia. É pesquisadora nas áreas de economia internacional, economia monetária e financeira e desenvolvimento. É membro da ABED. Integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange-Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies: Recent experiences of selected developing Latin American economies, Ashgate, England/USA.
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