16 de julho de 2026

Estupro de gestante gera repúdio nas redes: confira

Entidades, movimentos, ativistas e pesquisadoras se manifestaram, repudiando e alertando para a cultura de estupro

O estupro da gestante pelo anestesista provocou ampla comoção nas redes sociais, nesta segunda e terça-feira. Diversas entidades, movimentos, ativistas e pesquisadoras se manifestaram, repudiando e alertando para a cultura de estupro.

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A Rede Feminista de Ginecologistas e Obstetras manifestou solidariedade às vítimas e exigiu “que o culpado seja exemplarmente punido em todas as instâncias cabíveis, cabendo ao Conselho de Medicina a imediata cassação de seu registro profissional”.

Em nota, afirmou que a violência provavelmente não teria acontecido “se houvesse acompanhante de parto previsto em lei”, que o código de ética deveria ter sido respeitado e as cenas do estupro não deveriam ser divulgadas, provocando “uma nova violância contra a vítima”, e que o caso deve servir de alerta.

“O caso deve ser um alerta para a ouvidoria interna. Enfermeiras, com medo de represália ao denunciar esta violência, foram silenciadas pelo serviço.”

Para a advogada criminal e dos direitos das mulheres, Maira Pinheiro, “o caso do anestesista não é nem um pouco surpreendente”. “É um problema endêmico nas profissiões da área da saúde, porque em todas as situações em que homens têm acesso ao corpo das mulheres isso vai acontecer.”

https://twitter.com/advmaira1/status/1546540168080924672

Pinheiro relata que atua em um caso de estupro de vulnerável cometido por profissional de saúde. “O abusador dopou a vítima antes do abuso, ela só tem flashes do que aconteceu dura te os 11 minutos que ele esteve no quarto dela de madrugada.”

Segundo ela, não se trata de uma psicopatia, mas do que é ensinado aos homens. “Já atendi também vítima de psicanalista. Eles não são maníacos, o patriarcado os ensina a gostar da ausência de consentimento. É a mesma lógica também dos lideres religiosos. É sobre poder, não tem nada a ver com sexualidade. Por isso que a formação ética de qualquer profissional homem que acessa mulheres a portas fechadas e/ou em posição vulnerável precisa passar pela prevenção da violência sexual.”

https://twitter.com/advmaira1/status/1546541753586819072

A doutora em psicologia pela USP, Vera Iaconelli, disse que o episódio do anestesista Giovanni Quintella Bezerra “é o resumo acabado de todas as violências obstétricas”.

“O discurso médico-hospitalar fomenta o abuso ao fazer da paciente um objeto a ser manipulado enquanto os médicos são tidos como super poderosos. Não fiquemos chocados com a cena a ponto de imaginar que se trata de fato isolado. Trata-se do ponto extremo de uma sequência de eventos que corroboram o lugar do discurso médico em nossa sociedade.”

A ativista Luciana Viegas, idealizadora do “Movimento Vidas Negras com Deficiência Importam”, também destaca que se trata de “poder”.

“Não é só misóginia que medicos praticam. Medico não é Deus e é urgente que a gente repense como a gente trata essa relação que temos com a medicina e quem a exerce. O que deixou seguro esse anestesista a estuprar uma de suas pacientes em meio a outras pessoas tem nome: poder.”

Para a irmã de Marielle, Anielle Franco, manifestou o repúdio: “A gente não pode tá em universidades, andar a noite sozinhas, não PODEMOS SEQUER PARIR sem ter nossas vidas e nossos corpos sendo invadidos. (…) Pra quem ainda quer prova de que vivemos numa cultura do estupro: O estuprador anestesista que violou uma mulher que estava parindo ganhou milhares de seguidores hoje no instagram.”

A apresentadora de televisão, Sarah Oliveira, lembrou que foram as mulheres, e não homens, que denunciaram e salvaram as vítimas.

A antropóloga e pesquisadora Debora Diniz cobrou uma postura do Conselho Federal de Medicina (CFM), que até agora não se manifestou.

“O que os homens podem fazer diante de cenas brutais de violência contra a mulher? Não se silenciar. Fale com outros homens, com seus filhos, colegas de trabalho”, alertou.

https://twitter.com/Debora_D_Diniz/status/1546473151042912256

Para a doutora em linguística pela Unicamp, Janaísa Martins Viscardi, a cultura do estupro passa ainda pelo privilégio de ser homem, branco e de classe.

“Como é possível que um médico enfie o pinto na boca de uma mulher durante um procedimento do qual várias pessoas participam? O quão seguro ele se sente em fazer isso em um ambiente em que outras pessoas circulam?”

https://twitter.com/janaviscardi/status/1546542290864308224

A militante do Coletivo Alicerce e vereadora de Porto Alegre pelo PSOL, Karen Santos, lembra que o caso do anestesista não é único: “A cada 10 minutos um estupro acontece no Brasil. 70% dos casos envolvem crianças ou vulneráveis. Que o caso repulsivo do anestesista estuprador sirva de alerta.”

A Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados emitiu uma nota de repúdio, a pedido da deputada Vivi Reis (PSOL-PA). “Basta de horror!”, lamentou.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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2 Comentários
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  1. Pedro Holanda

    12 de julho de 2022 12:05 pm

    ALÔ REDAÇÃO. Poupe-nos dessa sordidez. Deixem essas matérias para os Datenas da vida. Estão achando pouco o que tá ocorrendo no nosso País???

  2. Eduardo

    12 de julho de 2022 9:10 pm

    João estupra Maria, comprovado. Não sou advogado, mas acredito que o DIREITO, em sua plenitude, tem as diretrizes do proceder quanto ao agressor e vítima. E por mais grave, desumano, asqueroso que seja o ato, teríamos poucos envolvidos, diretamente apenas 2 pessoas, agressor e vítima; indiretamente, familiares. Por definição, estupro é relação sexual sem consentimento, tipo Maria disse não, João disse sim. Isto posto, considero (estou errado ?) esse caso escabroso, mais, muito mais, pior, muito pior, do que estupro. Essas mulheres não tiveram sequer a chance de dizer não. Essas mulheres não foram vítimas de “Boa Noite, Cinderela”, quando algum desajustado poderia alegar que estavam no lugar errado (alguém já ouviu falar em culpar a vítima ?), essa mulheres estavam num “Templo”, num lugar sagrado, aguardando o ato final da geração de uma vida. E todos os guardiões do Templo, desde aqueles que acompanharam a vida acadêmica do agressor durante a graduação, incluindo os que o atenderam na pós-graduação, todos também não tiveram a chance de dizer “não, para exercer a profissão médica, não”, estavam também “sedados”? Seria mesmo impossível prever alguma coisa antes da tragédia acontecer ? Não tenho a resposta, não sei se seria possível. É por isso que considero esse caso muito mais grave do que um “simples” caso de estupro. Considerem as aspas do simples como sendo simples comparativamente à complexidade desse caso, que talvez possa ser rotulado de estupro, mas acompanhado de múltiplas atrocidades, envolvendo não poucas pessoas como no caso de estupro “simples”. Para finalizar, será que vai aparecer algum defensor que, trocando os sinais de um julgamento de triste memória, venha pleitear a anulação das provas que incriminam o agressor, tendo em vista uma gravação feita sem autorização judicial, de forma “criminosa” ?

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