
Texto grande, proposta simples
por Edivado Dias de Oliveira
A grande sacada é introduzir nos cursos de formação político/sindical, um módulo voltado aos diversos níveis de formação, contando a história da construção da imprensa no mundo e no Brasil, seus variados estágios de manipulação da opinião pública como forma de pressionar governos e como a sociedade deve fazer para se opor a essa manipulação.
O objetivo é aumentar a massa crítica para fazer o enfrentamento com os cartéis midiático e engrossar a luta pela democratização dos meios de comunicação.
Alfabetização midiática
No final do ano de 2014 divulguei nas redes sociais dois artigos críticos de Rui Barbosa sobre a imprensa de sua época e a defesa enfática que o mesmo fazia da sua regulação (O apoio de Rui Barbosa à regulação da mídia).
Como qualquer outro texto sobre mídia, versando sobre qualquer tipo de participação social, estes provocaram discussões apaixonadas dos dois lados do espectro político, mostrando claramente, para mim, que não há mais o que se discutir sobre essa questão, como condição para que se tome uma atitude concreta.
É preciso que os movimentos sociais partam para a ação no sentido de conquistar corações e mentes para seu partido, qualquer que seja ele, e já parte tarde, pois os detentores dos oligopólios midiáticos já estão na estrada há anos, em nossos próprios lares, colonizando e doutrinando nossas famílias.
Continuarmos encerrados nos guetos das redes fazendo esse debate, bem como dirigir todas nossas parcas energias para o governo de plantão, no sentido de pressioná-lo a tomar uma atitude a favor da regulação, de qualquer tipo, só trará benefícios a quem não quer avançar nesse tema, que a meu ver são os poucos proprietários dos grandes conglomerados midiáticos.
Meu entendimento em relação aos meios de comunicação em geral, é de que no Brasil ainda não saímos do Estado de Natureza a que Locke se refere. Nele impera sempre a lei do mais forte, a “lei do cão”, na defesa do espaço conquistado.
Vem daí essa reação brutal dos proprietários e seus bate-paus, toda vez que se tenta colocar essa questão na ordem do dia.
Não é fácil para ninguém abrir mão de poder, daquilo de que se apoderou de alguma forma – mesmo que ilegítima e arbitrária – renunciar de livre e espontânea vontade a um “direito”, mesmo quando esse direito é o direito de escravizar o outro.
Em todo o mundo, a luta contra toda forma de servidão e opressão, foi e tem sido uma luta renhida, através dos séculos. Os derrotados nessas lutas, que como todos os vencidos só tem sua história contada pelos vencedores, faria a humanidade corar de vergonha se viessem a tomar conhecimento dos instrumentos e métodos utilizados pelos vencedores, para a manutenção desses “seus direitos”.
Desse ponto de vista, a reação é até compreensível, pois essa gente, ainda que tenha sido apresentada ao seu Rousseau e seu contrato social midiático, que no Brasil é a resolução da Conferencia do setor, dele não quer saber, pois para eles é muito mais confortável a manutenção do estado atual, em que exercem grandes influencias sobre a sociedade e usa essa influencia como moeda de troca para chantagear e achacar todos os governos em todos os níveis e instancias.
Se ainda paira alguma dúvida sobre a quem servem os meios de comunicação em todo o mundo, seria bom pesquisar para saber a quem pertencem os maiores conglomerados midiáticos do mundo; Talvez fiquemos chocados ao descobrir que os mesmos estão nas mãos daqueles que detém 1% da renda mundial.
Agora, em sã consciência, responda: que tipo de produto/informação essa ínfima parcela da população está produzindo e enfiando goela abaixo dos 99% de consumidores?
Hoje em dia, o principal produto de comercialização dos meios de comunicação em nosso país, não é mais a informação nem a publicidade, não é daí, creio, que tiram suas principais receitas. O principal produto de sua carteira hoje se chama proteção, blindagem e pistolagem, que se traduz em dar proteção e blindar governos amigos e emparedar, destruir e assassinar a reputação de governos inimigos.
Mas, como se dá a paga, como é feita a remuneração pelo serviço prestado?
Bem, procuremos pelas receitas obtidas pelas demais empresas que compõem os conglomerados midiáticos, que no mais das vezes nada tem a ver com o chamado “serviços de imprensa”, estão mais ligados a promoção de cursos e venda de livros e outros serviços gráficos. Procuremos também os contratos celebrados entre as várias esferas de governos e ONGs ligadas as empresas de comunicações e poderemos encontrar um escoadouro admirável.
Recentemente vereador do PT do Rio de Janeiro descobriu contratos de mais de “cem milhões de reais” entre a Prefeitura da cidade e a Fundação Roberto Marinho para prestação dos mais variados serviços sem licitação, por notório saber, contestados por vários órgãos.
É um bom caminho para se investigar, visto que essas fundações não divulgam balanços financeiros, portanto, o caminho que resta é fazer o caminho inverso, solicitando aos órgãos públicos os convênios mantidos com ONGs e empresas ligadas a conglomerados midiáticos.
Voltando ao tema central do nosso artigo, que é a fuga do gueto, penso que exista meios de alargar essa discussão, de criar musculatura, massa crítica, para enfrentar a avalanche de desinformação, sem ficar esperando que o governo tome a iniciativa de furar o cerco muito bem montado pela mídia no judiciário, no congresso e no seio da “opinião pública”, para represar, reprimir essa discussão.
Quais são esses meios?
Anualmente, para ficarmos apenas no campo da esquerda de todos os matizes, milhares de pessoas passam por curso de formação, seja sindical ou partidária, sem contar as ONGs de todas as áreas de atuação, sem que a questão da dominação e opressão midiática sobre a sociedade seja se quer arranhada.
Se em cada um desses cursos, em qualquer nível, incluirmos um módulo tratando dessa questão, em poucos anos criaremos uma força, uma musculatura, para contra-atacar e pressionar o estado, sobre qualquer governo, a fazer de forma séria a discussão sobre a democratização dos meios de comunicação em nosso país.
Não se trata ainda, como disse, de curso especifico sobre o tema, mas da inclusão do tema nos cursos de formação normal, tocado por esses organismos.
O fato concreto é que a discussão sobre os efeitos deletérios que podem desempenhar os meios de comunicação, contra ou favor da sociedade, dependendo do ponto de vista de cada cidadão, justifica a criação dos mecanismos de compreensão e defesa acima.
A meu juízo, são de suma importância a elaboração, constituição e implementação de um curso deComunicação Social a ser ministrado em todas as escolas públicas, no mínimo, desde o ensino fundamental, para que, desde tenra idade, se saiba receber, de forma crítica, o que os meios de comunicação lhes ofertam através de programas vários e publicidades diversas.
A criação desse curso independe da vontade do governo federal de plantão, acuado pelos donos do poder midiático. Esse curso pode muito bem ser implantado por prefeitos e governadores sensíveis a causa, constituindo-se também como um meio de furar o bloqueio imposto ao governo central, pelos barões da mídia.
Nos dias que correm, considero o curso de Comunicação Social ou alfabetização midiática, tão importante quanto o aprendizado da matemática e da língua pátria.
De minha parte, para refutar qualquer oposição a essa proposta com o argumento de que poderia haver uma espécie de doutrinação ideológica deste ou daquele matiz, não me importaria que meu filho adolescente fosse instruído por alguém de direita, chegasse em casa e me contasse que sua professora lhe disse:
“Que os meios de comunicação no Brasil estão infestados de comunistas, que a imprensa se bandeou toda pros lados do PT”. Eu lhe responderia;
“Sua professora lhe passou duas informações extremamente importantes; com uma eu concordo plenamente, qual seja, a de que os meios de comunicações, no Brasil como em todo mundo, se bandeiam sempre, e isto desde os tempos de Gutenberg, que recebeu grande e$tímulo dos Habsburgo para inundar a Europa com a Bíblia de Lutero, numa demonstração de que a imprensa já nasceu coxeando e não foi pros lados dos oprimidos. A segunda informação, que é o lado que ela aponta para onde a mídia se bandeou no Brasil, é um bom motivo para iniciarmos uma discussão”.
A adoção dessas medidas é, enfim, a afirmação da tática Brizolista de “comer o mingau pelas beiradas”. Trata-se de um verdadeiro processo de alfabetização midiática, muito mais do que doutrinário, pois o que se vê na atualidade, é a sociedade a mercê, aí sim, da doutrinação da mídia, que lhes vende a falsa ideia de imparcialidade, autonomia e independência; três discursos, três embustes.
Assim, não é raro encontrar pessoas de todas as classes sociais, que estufam o peito dizendo-se bem informadas, por assinarem esta ou aquela publicação e não perderem o jornal da noite na TV, isso quando não passam as tardes vendo o mundo cão pela telinha e depois saem palas ruas, praças e botecos vociferando seus “conhecimentos” e replicando pré-conceitos difundidos pelos meios de comunicações.
Conhecendo bem sua obra e, portanto, um pouquinho de sua alma, penso que Bertolt Brecht não ficaria de mal de mim por me permitir uma licenciosidade poética, fazendo uma adaptação do poema“O Analfabeto Político” para caracterizar o nosso personagem, acima descrito, que ficaria assim:
O Analfabeto Midiático
O pior analfabeto é o analfabeto midiático, mais que o analfabeto político,
pois esse último se pode resgatar e instruir, alfabetizar; enquanto o primeiro se acha douto.
Ele ouve, fala, participa dos acontecimentos políticos, pelas informações que obtém de forma acrítica dos meios de comunicações. Para ele, o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio é determinado pelo repórter, âncora, ou colunistas dos meios de comunicação.
O analfabeto midiático é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia os políticos em particular e a política de forma geral. Não sabe o imbecil que a sua ignorância é determinada por uma estratégia pensada pela mídia para criminalizar a prática política, motor de toda transformação social, que ela rejeita.
Que é daí, dessa sua ignorância midiática que nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Nada é impossível de mudar. Desconfiai da informação mais trivial, na aparência singela. E examinai sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de habito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar.
Privatizado, privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente privatizaram o conhecimento, a sabedoria, o pensamento que só a humanidade pertence. Mas o analfabeto midiático não dá a isso a menor importância; ele acaba de ser “informado” pela mídia, que tudo isso é o paraíso na terra.
Edivaldo Dias Oliveira
29 de agosto de 2016 1:10 pmTrilogia “ParticipAção Direta”
Este texto encerra uma trilogia que denominei “ParticipAção Direta”, que tem como objetivo ampliar a participação da sociedade, sem necessariamente contar com com a partipação dos poderes constituídos, especialmente o Legislativo.
O primeiro texto aqui postado foi CPI 2.0, ou Comissão Popular de Inquérito, que atravéz de emenda popular o briga todas as casas legislativa a destinar um perecntual das CPIs no ano legislativos a serem instaladas peloas diversas organizaços da sociedade. Foi publicado em 12 de maio desse ano. https://jornalggn.com.br/noticia/a-proposta-para-criacao-de-comissoes-populares-de-inquerito-por-edivaldo-dias
O Segundo texto propõe uma forma de democratizar a eleição no poder judiciário, publicado no sábado. https://jornalggn.com.br/noticia/participacao-direta-na-escolha-de-juizes-e-procuradores-por-edivaldo-dias-de-oliveira#.V8Gq4Ot4bz0.facebook
Agradeço ao Nassif, pela graça alcançada.